Duna do Pôr do Sol está menor e mais distante da Vila de Jeri

O vendedor ambulante Nardson Silva circula todos os dias com um carrinho de bebidas e sanduíches pela Praia de Jericoacoara, no Litoral Oeste do Ceará, a 289 quilômetros de Fortaleza, para atender aos turistas que frequentam o balneário anualmente. Nardson nasceu na Vila, que hoje é um dos locais mais visitados pelo turismo mundial, sempre atraído pelas águas cristalinas da praia, os ventos que favorecem os esportes náuticos ou, simplesmente, a proximidade com a natureza que cerca o lugar e garante belas recordações fotográficas, entre elas, a Duna do Pôr do Sol.

O morador reconhece que a Duna é um dos pontos mais procurados pelos visitantes, aos fins de tarde, onde uma concentração de pessoas acompanha o espetáculo natural diário, quando o Sol desaparece lentamente na linha do horizonte, trazendo o ocaso de mais um dia de diversão e aventura pela praia.

Mas, o que tem chamado a atenção do vendedor é algo que intriga outros moradores e, muitas vezes, faz parte das rodas de conversa ao longo do dia na pequena Vila: a Duna do Pôr do Sol tem diminuído de tamanho, nos últimos anos. “O pessoal aqui da Vila fala muito nisso, e eu concordo que o tamanho da Duna diminuiu muito nesses anos. Eu lembro que ela era bem mais alta e maior”, relata. Sua sensação é comum a outros moradores e é também confirmada por estudiosos da área de dinâmica costeira.

Mudança

Outro morador que sente essa mudança no imenso bloco de areia é João Siqueira, que faz passeios de charrete pela orla. “Quem é daqui de Jericoacoara sabe que, além da Duna perder muita areia, ela também vem se afastando da Vila, aos poucos. Há uns dez anos, a Duna era bem mais próxima das casas, hoje, ela está bem distante. É claro que o turista não percebe isso, mas acaba caminhando mais um pouco se quiser ver o espetáculo do pôr do Sol todos os dias, que continua atraindo bastante gente, do mesmo jeito e mantendo a movimentação em Jeri”, comemora o condutor de charrete.

A autônoma piauiense Norma Dantas de Azevedo conhece bem as belezas de Jericoacoara, desde que passou a frequentar o balneário, há cerca de oito anos. Norma concorda com o que dizem os moradores, pois tem observado, ao longo desses anos de visitação à Praia, o distanciamento que o bloco de areia tem alcançado, já que ela passou a caminhar muito mais até chegar ao sopé da Duna. “Eu recordo que a distância era bem menor, para se chegar à Duna. Ela também era bem mais íngreme. Hoje, não há muita dificuldade em subir até o topo, como em outros anos. Mas, enfim, o passeio continua válido e a vista é belíssima, como sempre”, comemora.

Pesquisas

A notável migração da Duna do Pôr do Sol, na Praia de Jericoacoara, chamou a atenção de pesquisadores do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Ceará (UFC). As pesquisas apontam que, não apenas essa duna em particular, mas outras mais próximas a ela, migram preferencialmente de leste a oeste, seguindo uma evolução natural. Por meio de imagens de satélite, entre os anos de 1975 a 2010, a análise de espaço e tempo das dunas, em 35 anos, revelou significativas mudanças em seus padrões de área, perímetro e de migração.

Ainda, segundo as informações do estudo, “essa migração foi incrementada a partir 2001, possivelmente relacionada aos impactos das ações do homem, que interagem com a dinâmica dos ventos e o aumento da temperatura média global (com tendências à maior aridez nesse setor do litoral nordestino)”.

“Além dessa dinâmica natural da migração, não apenas da Duna do Pôr do Sol, mas de outras próximas a ela, a constante movimentação de pessoas sobre elas, tem acelerado esse deslocamento e colaborado para sua diminuição. Com o tempo, esses blocos de areia serão levados pelo vento e absorvidos pelo mar”, disse Jeovah Meireles, professor e pesquisador do Departamento de Geografia da UFC.

Manejo

“Temos um Plano de Manejo desta Unidade de Conservação, que caracteriza a situação e propõe ações que tendem a minimizar esse impacto causado pelos visitantes anualmente. O trabalho também se refere ao crescimento da própria Vila de Jericoacoara, que trouxe alterações na dinâmica das dunas, pois a Vila está entre o bloco de areia e a zona de aspersão de ventos que a mantém. Mas como se observa, o deslocamento é um processo natural, cuja dinâmica se altera em virtude da ação humana”, reforça Jerônimo Carvalho Martins, do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMbio), que administra o Parque Nacional de Jericoacoara. A Geografia Física descreve as dunas como montanhas de areia criadas a partir de processos eólicos (relacionados ao vento).

Por isso mesmo, as dunas descobertas são sujeitas à movimentação e mudanças de tamanho pela ação do vento, ou seja, dunas são montes de areia formadas pelo vento e pelo mar. Quando o vento sopra, leva a areia e, com o tempo, se formam as dunas. Elas não são necessariamente grandes. Muitas delas são bem pequenas e, por vezes, passam despercebidas.

‘O Mar Avança’

Em fevereiro de 2014, o Diário do Nordeste publicou, em dois cadernos, nos dias 21 e 22, reportagem especial intitulada “O Mar Avança”, do jornalista Fernando Maia, onde o tema foi abordado.

Na ocasião, o especialista e professor de Geografia da Universidade Federal do Ceará (UFC), Jeovah Meireles, que há tempos estuda o parque de dunas de Jericoacoara, em especial a Duna do Pôr do Sol, a do Papai Noel, que fica um pouco mais a leste da primeira, e a da Arraia, a maior das três; dizia que a Duna do Pôr do Sol, possivelmente pela enorme frequência, estava sendo alterada tanto na forma quanto na dinâmica do seu processo migratório.

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Jonas Deison

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