Massacre do Caldeirão é questionado no MPF

Orgãos oficiais, como o Exército e o Departamento de História da Urca, negam o “genocídio”

Clique para Ampliar
Antônio INÁCIO da Silva, sobrevivente do Caldeirão, 

Crato Setenta e quatro anos depois do suposto massacre da comunidade do Caldeirão do beato José Lourenço, o Ministério Público Federal (MPF) procura identificar à cova coletiva onde foram sepultados as vítimas da tragédia. Enquanto os historiadores afirmam que cerca de mil seguidores do beato foram mortos, os órgãos oficiais, como o Exército e o Departamento de História da Universidade Regional do Cariri (Urca), negam o “genocídio”. Os remanescentes do Caldeirão não sabem onde seus parentes foram enterrados. Agora, é a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) que quer saber a verdade sobre o destino dos seguidores do beato Zé Lourenço.
O MPF, com sede em Juazeiro do Norte, iniciou a tomada de depoimentos com a finalidade de identificar o local do suposto “massacre” do Caldeirão, uma comunidade religiosa liderada pelo beato José Lourenço que, de acordo com os historiadores, teria sido dizimada por forças da Polícia Militar do Ceará e do Exército. O procurador da República, Rômulo Moreira Conrado, atende a uma solicitação da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República e do Conselho Federal da OAB que, por sua vez, acolheu manifestação da Organização Não Governamental (ONG) cearense “SOS Direitos Humanos”.

O objetivo da ação é localizar a cova coletiva, onde teriam sido sepultados cerca de mil camponeses católicos, assassinados em 11 de maio de 1937, na Mata dos Cavalos, hoje Sítio Cruzeiro, no Município do Crato. A ONG solicita, ainda, a exumação e identificação dos corpos das vítimas, e um enterro digno, bem como a inclusão do episódio na história oficial, a título pedagógico.

Sem indícios
Até o momento, o MPF de Juazeiro do Norte não encontrou nenhum indício do suposto massacre e, muito menos, da cova coletiva. O Exército Brasileiro, segundo o MPF, não tem nenhuma informação sobre o “massacre”. Depoimento enviado pelo Departamento de História da Urca para o Ministério Público Federal afirma que, de acordo com as pesquisas feitas em livros, monografias, trabalhos publicados em congressos nacionais e internacionais e, principalmente, remanescentes da comunidade do Caldeirão, “não houve o massacre”.

O depoimento, assinado por Sônia Menezes, foi feito pelo professor Domingos Sávio Cordeiro, professor do Departamento de Ciências Sociais da Urca que conclui afirmando: “não há documentos, resquícios arqueológicos, nem registros de depoimentos orais que confirmem a versão da suposta ´chacina´”.

O professor Sávio, que escreveu um livro sobre o Caldeirão, com depoimentos de personagens, esclarece que, a princípio, como a maioria dos estudiosos no assunto, acreditou na versão do massacre. O motivo para esta crença, segundo disse, talvez esteja no fato de que “todos nós lemos Rui Facó que, no seu livro ´Cangaceiros e Fanáticos´, relata, sem citar fontes nem documentos, que o Caldeirão foi bombardeado por aviões da força militar ao mesmo tempo em que teria havido chacina por terra”. O depoimento do Departamento de História confirma, em parte, as declarações do brigadeiro José Sampaio Macedo, que comandou o suposto ataque aéreo ao Caldeirão. O brigadeiro morreu em 1992, dizendo que não houve ataque aéreo. “Eu dei uns tiros de pistola para cima a fim de fazer medo aos seguidores dos beato”, afirmou.

Falta registro
Nas cadernetas de voos do piloto cratense, divulgadas pelo Diário do Nordeste, não há registro de ataques aéreos. Foi um voo de reconhecimento da área que durou 30 minutos. De acordo com o depoimento do Departamento de História, no dia 11 de maio de 1937, houve um confronto de um grupo liderado por Severino Tavares com um contingente da Polícia Militar que resultou em oito mortos, quatro de cada lado, entre os quais, o sargento Bezerra e o beato Severino Tavares.

Reportagem do Diário do Nordeste, 73 anos depois, levou o remanescente, Antonio Inácio da Silva, a Mata dos Cavalos, onde teria ocorrido o genocídio. O único vestígio é um velho barreiro seco que fornecia água para os seguidores do beato.

Para o presidente da ONG SOS Direitos Humanos e advogado, Otoniel Ajala Dourado, o massacre do Caldeirão foi o Araguaia do Ceará. “A ação criminosa deu-se, inicialmente, com bombardeio aéreo, e depois, no solo, os militares usando armas diversas, como fuzis, revólveres, pistolas, facas e facões”.



Antônio VicelmoRepórter

Curta e compartilhe:
1k