Ciro x Cid: com família dividida, os Ferreira Gomes ainda têm força política no Ceará para 2026?

As declarações recentes do ex-prefeito de Sobral Ivo Gomes (PSB) contra a cúpula governista estadual, a pressão do senador Cid Gomes (PSB) para indicar um nome de sua preferência para disputar o Senado e as movimentações do ex-ministro Ciro Gomes (PSDB) como principal nome da oposição no Ceará recolocaram os irmãos Ferreira Gomes no centro do debate político estadual a poucos meses das eleições de 2026.

O cenário expõe a fragmentação da família e levanta uma das principais incógnitas que o pleito eleitoral de outubro promete responder: os Ferreira Gomes ainda têm força para serem decisivos politicamente no Ceará?

Após mais de duas décadas em que o sobrenome funcionou como um dos eixos centrais da política cearense, os irmãos hoje ocupam campos distintos e conflitantes. A divisão interna, que se aprofundou a partir de 2022, colocou em xeque o peso político que o grupo acumulou em eleições anteriores.

Essa fragmentação se expressa de forma clara nos dois ex-governadores que compõem a família. De um lado, o senador Cid Gomes, articulador da base governista e responsável pela expansão do PSB nas eleições municipais de 2024. De outro, Ciro Gomes, que rompeu com o grupo governista cearense em 2022, passou a se aproximar da oposição ao governador Elmano de Freitas (PT) e é cotado como pré-candidato ao Palácio da Abolição em uma frente ampla oposicionista que inclui até setores bolsonaristas.

UM TERREMOTO POLÍTICO E FAMILIAR EM 2022

Na prática, as movimentações atuais são consequência direta do rompimento entre Ciro e Cid nas eleições de 2022. Para Cleyton Monte, aquele episódio marcou o encerramento do ciclo político dos Ferreira Gomes como grupo coeso.

“O início desse grupo é quando o Cid chega ao Governo do Estado, porque até então eles eram muito ligados ao Tasso (Jereissati). E o fim desse grupo acontece em 2022, quando as figuras centrais vão para lados diferentes”, analisa.

Desde então, os irmãos deixaram de operar como um bloco. Cid passou a se dedicar ao fortalecimento do PSB, hoje uma das principais forças municipais do Ceará, enquanto Ciro se aproximou da oposição ao governo Elmano, inclusive dialogando com setores antes classificados por ele próprio como extremados.

Nesse rearranjo, o PT se consolidou como força hegemônica governista, sob a liderança do ministro Camilo Santana, enquanto o PSB emergiu como principal aliado do governo estadual.

Segundo Cleyton Monte, a separação também evidenciou diferenças históricas na forma de atuação política dos irmãos. Enquanto Cid sempre exerceu o papel de articulador e fiador de alianças, Ciro construiu sua trajetória como liderança de projeto e discurso, com forte apelo simbólico, mas menor inclinação para o varejo da política.

“O Cid Gomes é a figura política mais forte desse grupo. Em termos de credibilidade, atração de prefeitos e acordos, sempre atribuí a ele a sustentação do grupo político dos Ferreira Gomes”, afirma.

PEÇAS DA ENGRENAGEM

A cientista política e professora da Universidade Estadual do Ceará (Uece), Monalisa Torres, reforça que essa divisão de funções foi decisiva tanto para o sucesso passado quanto para as dificuldades atuais da família.

“Embora seja senador, o mandato do Cid é majoritário, tem cargo, recurso, emendas, então ele ainda atua como articulador, tem esse know-how. Vemos essa força dele na própria mudança de partido, do PDT para o PSB, dá para observar o movimento de esvaziamento de um enquanto o outro infla. Isso demonstra a força e o peso local desse ator como um importante articulador, que o Ciro não é”, analisa Monalisa Torres.

Além de Cid e Ciro, um terceiro integrante da família passou a atuar como novo fator de instabilidade no início deste ano. Em uma maratona de entrevistas concedidas a radialistas de Sobral, o ex-prefeito Ivo Gomes (PSB), irmão caçula, rompeu publicamente com a possibilidade de engajamento na campanha à reeleição do governador Elmano de Freitas.

Embora tenha ficado ao lado de Cid no rompimento familiar de 2022, Ivo criticou duramente a aproximação do PT com o prefeito de Sobral, Oscar Rodrigues (União), e com o deputado federal Moses Rodrigues (União), adversários históricos dos Ferreira Gomes na cidade. O ex-prefeito também deixou explícita sua disposição de atuar em favor de Ciro, caso ele seja candidato ao Governo do Estado.

Por: Ponto Poder