A deputada federal Luizianne Lins (PT-CE) admitiu, em entrevista exclusiva para O Estado, que pode mesmo deixar o Partido dos Trabalhadores (PT), ao qual é filiada desde 1989. Figura histórica do PT Ceará, a ex-prefeita de Fortaleza acumula divergências com outras lideranças locais da legenda e não esconde as críticas aos rumos do partido no estado. Além disso, ela é pré-candidata ao Senado nas eleições deste ano, mas encontra obstáculos para viabilizar uma candidatura pelo PT.
Luizianne confirma que está em diálogo com outros partidos do campo da esquerda, em especial, a Federação Psol-Rede. Ela se encontrou na semana passada com Paulo Lamac, porta-voz nacional da Rede Sustentabilidade, cargo equivalente ao de presidente nacional do partido; também esteve presente o porta-voz estadual, Wesley Diógenes. No entanto, Luizianne negou uma decisão definitiva com o encontro.
“A Rede Sustentabilidade me chamou para conversar. Na verdade, o que a gente está fazendo, a gente teve convite da Federação (Psol-Rede) e nós estamos conversando porque a minha vida não está simples, partidariamente, não tem sido simples no último período, principalmente nos dois últimos anos”, falou Luizianne a esta reportagem, após agenda em Fortaleza na última sexta-feira (6).
Confira, ao final desta matéria, a entrevista completa com a deputada federal Luizianne Lins
“Eu tô conversando com os partidos, assim, eu tenho muita admiração pela federação (Psol-Rede), tenho muito respeito pelos companheiros do Psol, um partido que veio do PT, do nosso grupo político. O Pedro Ivo Batista hoje é um dos quadros nacionais da Rede e foi meu primeiro secretário do Meio Ambiente aqui. Temos conversado muito em Brasília com a hoje deputada Heloísa Helena. Então, assim, essas são novas perspectivas que estão se colocando e eu estou escutando. Essa é a ideia”, continuou.
Além de Psol e Rede, Luizianne afirmou que recebeu convites de outros partidos, mas o que deve pesar na decisão, segundo ela, é o alinhamento político-ideológico com a sigla. A deputada ainda sinalizou que deve fazer a possível migração partidária acompanhada de aliados, o que deve também influenciar na escolha:
“O que é mais importante, assim, eu sempre caminhei junto. Então, tem muita gente para ouvir, para conversar, essa coisa toda. Não tem nada definitivo, porque eu tenho que conversar com muita gente, que está junto comigo há muito tempo. Tá fazendo 30 anos da nossa primeira eleição vitoriosa para vereadora. Imagina o que é isso, né? Quanta gente está nessa caminhada”.
Segundo os prazos do calendário eleitoral de 2026, Luizianne precisa tomar uma decisão sobre seu próximo partido, se confirmar mesmo a saída do PT, até o próximo dia 4 de abril. Essa é a data final para os pré-candidatos estarem com filiação partidária deferida pela agremiação pela qual pretendem concorrer.
A questão da disputa pelo Senado também entra nas conversas sobre uma possível nova filiação, mas Luizianne diz que essa não é a razão central pela qual pode deixar o PT. Ela também disse que não chegou a comunicar oficialmente ao partido a intenção de concorrer ao Senado. “Até porque essa questão do Senado não foi uma decisão pessoal minha, que eu estou colocando. Isso veio muito mais da base do partido e da sociedade civil do que propriamente de uma ingerência no partido. Então, não tem essa perspectiva colocada”.
“Eu não vou sair do PT só porque vou ser candidata a isso ou aquilo. Não. Se eu seguir outro caminho partidário vai ser porque eu não me sinto mais à vontade dentro do PT.” – Luizianne Lins, deputada federal.
Visivelmente emocionada, Luizianne relembrou a trajetória de 37 anos no PT até hoje e comparou a possível saída do partido a uma separação depois de um longo casamento.
“É natural que isso aconteça quando a gente não está…A gente tem que estar num canto em que a gente esteja querido. Eu tô há 37 anos no PT. (…) Então, assim, não é fácil. É que nem você fosse se separar depois de um casamento de mais de 30 anos. É doído, doloroso, mas, às vezes, é necessário, né? Então, assim, agora é um debate, não tem nada definitivo, mas eu estou aberta para ouvir. Faz parte”.
E seguiu: “O que você tá vendo aqui é exatamente a dor de uma pessoa que passou 37 anos construindo o PT e que agora tá discutindo a possibilidade de uma saída concretamente. Não adianta eu mentir. Porque assim, o povo precisa entender. E, assim, não é aquele casamento que você passou alguns aninhos e já tá querendo desistir, não. Foi muito tempo apostando. É discussão, é muito debate”.
O Estado: Sobre essa questão do PT, você está conversando para realmente sair do partido?
Luizianne Lins: Na verdade, o que a gente está fazendo, a gente teve convite da Federação (Psol-Rede) e nós estamos conversando porque a minha vida não tá simples, político partidariamente não tem sido simples no último período, principalmente nos dois últimos anos. Então, a gente tá escutando…
OE: Então, realmente existe a possibilidade de você acabar saindo do PT?
LL: É, eu tô conversando com os partidos, assim, eu tenho muita admiração pela Federação, tenho muito respeito pelos companheiros do Psol, o partido que veio do PT, do nosso grupo político. O Pedro Ivo Batista hoje é um dos quadros nacionais da Rede foi meu primeiro secretário de Meio Ambiente aqui. Então, temos conversado muito em Brasília. A ex-senadora e hoje deputada Heloísa Helena também é uma companheira de 20 anos atrás… Então, assim, são novas perspectivas que estão se colocando e eu estou escutando. Essa é a ideia.
OE: Mas tem um prazo para decidir, certo?
LL: Dia 4 de abril, é o prazo da janela partidária. Então, a gente tá conversando com as pessoas, sabe? É natural que isso aconteça quando a gente não tá… A gente tem que estar num canto em que a gente esteja querido.
Eu tô há 37 anos no PT. Fui 30 anos do diretório nacional. Fui da Executiva Nacional quando o Lula passou a pior provação que foi a prisão política. Eu fui secretária de Juventude, a primeira, eu fui secretária de Mulheres, a primeira do partido, eu fui presidente do PT de Fortaleza, eu fui presidente do PT do Estado do Ceará, do Diretório Nacional por 30 anos, como eu falei. Sem falar dos cargos…vereadora duas vezes, deputada estadual, prefeita eleita e reeleita, deputada federal. Então, assim, não é fácil.
É que nem você fosse se separar depois de um casamento de mais de 30 anos. É doído, doloroso, mas às vezes é necessário, né? Então, assim, agora é um debate, não tem nada definitivo, mas eu tô aberta para ouvir.
OE: Tem outros partidos também que fizeram convites a você?
LL: Sim, mas eu acho que todo mundo sabe da minha posição político-ideológica e tal e eu acho que isso daí é o que vai pesar. Mas o que é mais importante é que, assim, eu nunca caminhei separado, sempre caminhei junto. Então, tem muita gente para ouvir, para conversar, essa coisa toda.
Não tem nada definitivo por isso, porque eu tenho que conversar com muita gente que está junto há muito tempo. Faz 30 anos da nossa primeira eleição vitoriosa para vereadora. Imagina o quê que é isso, né? Quanta gente está nessa caminhada.
OE: No PT, você chegou a levar essa proposta, de ser candidata ao Senado? Você chegou a conversar com alguém?
LL: Não, não, não. Até porque essa questão do Senado não foi uma decisão pessoal minha, que eu estou colocando. Isso veio muito mais da base do partido e da sociedade civil do que propriamente de uma ingerência no partido. Então, não tem essa perspectiva colocada, mas acho que, independente de para onde eu vou, eu não vou sair do PT porque só porque eu vou ser candidata a isso ou aquilo em outro partido. Não. Eu vou, se eu seguir outro caminho partidário vai ser porque eu não me sinto mais à vontade dentro do PT.
OE: Existem também outras insatisfações, certo?
LL: Sim, sim, sim e outra coisa, eu tenho que estar no espaço onde eu acredito que seja construída a boa política. Então, assim, nada tá definitivo, nada tá também construído objetivamente, tudo é um processo de debate, né? Mas, assim, não é simples e é complexo, como a vida é complexa.
Eu não sou política tradicional, nunca fui, graças a Deus. Nem sei como é que eu sobrevivi até hoje. Eu falo o que eu penso, pago um preço altíssimo por isso, mas eu falo o que eu acredito, ou seja, minha verdade, a verdade. Procuro fazer isso. Então, eu podia estar aqui fazendo mil falsetes, cheio de interpretação, cheio de retórica, não faz parte da minha da minha personalidade fazer isso.
Então, o que você está vendo aqui é exatamente a dor de uma pessoa que passou 37 anos construindo o PT e que agora está discutindo a possibilidade de uma saída concretamente. Não adianta também eu mentir, porque assim, o povo precisa entender.
E assim, não é aquele casamento momento que você passou alguns aninhos e já tá querendo desistir. Não. Olhe, foi muito tempo apostando. É discussão, é muito debate. Ninguém se separa rindo, né? O fato é esse. Mesmo que você não esteja mais satisfeito com o casamento, ninguém se separa rindo.
Fonte: O Estado

