Documentário usou laudo falso para atacar ativista Maria da Penha, diz MP

Ex-marido da ativista, influenciador e outros dois homens viraram réus na Justiça por campanha de ódio contra a farmacêutica que sobreviveu a tentativa de homicídio.

O documentário “A Investigação Paralela: o Caso Maria da Penha”, produzido pela Brasil Paralelo S/A, usou um laudo adulterado de um exame de corpo de delito de Marco Antônio Heredia Viveiros, ex-marido de Maria da Penha, para atacar a honra e descredibilizar a lei que leva o nome da ativista cearense.

A informação consta na denúncia do Ministério Público do Ceará, que foi aceita pela Justiça nesta segunda-feira (9). Com isso, Marco Heredia e outros três homens que participaram da campanha de ódio na internet contra a ativista viraram réus no processo. A defesa dos suspeitos não foi localizada.

Os denunciados são:

  • Marco Antônio Heredia Viveiros – ex-marido da ativista e já condenado por tentativa de homicídio contra ela, denunciado por falsificação de documento público;
  • Alexandre Gonçalves de Paiva – influenciador, denunciado por intimidação sistemática virtual (“cyberbullying”) e perseguição (“stalking”);
  • Marcus Vinícius Mantovanelli – produtor do documentário, denunciado por uso de documento falso e
    Henrique Barros Lesina Zingano – editor e apresentador da produção audiovisual, denunciado por uso de documento falso.

Maria da Penha, ativista e farmacêutica cearense que deu nome à Lei Maria da Penha, foi alvo de ataques de ódio na internet. — Foto: Divulgação/Instituto Maria da Penha

Conforme o Ministério Público, o documentário sugeria que Marco Antônio Heredia era inocente.

Na produção audiovisual, Heredia alegava que o casal tinha sido vítima de assaltantes, e que a luta corporal com os prováveis bandidos teria provocado o disparo de tiro em Maria da Penha e lesões no queixo, mão e no pescoço dele.

Também foram difundidas no documentário informações sobre uma suposta fraude processual no caso que condenou o ex-marido da ativista, com a apresentação do laudo adulterado de um exame de corpo de delito do homem.

Perícia da Pefoce comprovou que o laudo apresentado em documentário contra ativista Maria da Penha é falsificado. — Foto: MPCE/ Divulgação

Para sustentar essa versão, em maio de 2023, Marco Heredia ajuizou uma Ação Cautelar de Produção Antecipada de Provas para incluir nos autos do processo o documento “Auto de Exame de Corpo de Delito (Lesão Corporal) – Segunda Via”.

O material foi submetido à análise da Perícia Forense do Ceará, que concluiu que o documento passou por uma montagem.

“O laudo falsificado incluía novas informações sobre lesões no pescoço e braço de Marco Heredia, que não estavam no documento original, diferenças nas assinaturas dos peritos e marcas de carimbos, numerais e rubricas compatíveis com montagem”.

Alterações encontradas pela Perícia Forense em laudo apresentado por ex-marido de Maria da Penha, que era difundido por grupos. — Foto: MPCE/ Divulgação

Ainda segundo a denúncia, a campanha de ódio contra a ativista cearense utilizou conteúdo ofensivo e de natureza caluniosa, configurando crimes de intimidação sistemática virtual (“cyberbullying”) e perseguição (“stalking”/”cyberstalking”).

“Os quatro homens atuaram de forma organizada para atacar a honra da ativista e descredibilizar a lei que leva o nome dela, utilizando perseguições virtuais, notícias falsas e um laudo de exame de corpo de delito forjado para sustentar a inocência de Marco Antônio Heredia, já condenado por tentativa de homicídio”, diz um trecho da denúncia formulada pelo Núcleo de Investigação Criminal (Nuinc).
Para o Ministério Público, os riscos foram além das redes sociais, pois o influenciador Alexandre Paiva se deslocou até a antiga residência de Maria da Penha, em Fortaleza, onde gravou vídeos e divulgou o conteúdo nas redes.

“Os conteúdos caracterizam misoginia (ódio, desprezo ou preconceito contra mulheres ou meninas), deturpam informações e atacam a farmacêutica Maria da Penha, a história da ativista e a Lei nº 11.340/2006 (Lei Maria da Penha)”, afirmou a denúncia.