IBGE aponta mais de 126 mil pessoas com Autismo no Ceará; escassez de especialistas trava tratamentos

O Ceará possui hoje 126.548 pessoas diagnosticadas com o Transtorno do Espectro Autista (TEA). Os dados inéditos são do Censo Demográfico de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que revelam que o estado concentra a terceira maior proporção do país, com 1,4% de sua população no espectro. Esse volume expressivo escancara um desafio urgente na saúde pública e suplementar do estado: a disparidade entre a crescente demanda mapeada e a falta de profissionais especializados para garantir o tratamento contínuo.

Com mais da metade (52%) do público autista cearense formado por crianças e adolescentes, segundo o próprio IBGE, a necessidade de intervenção precoce colide de frente com a escassez de médicos e terapeutas. O reflexo desse contingente é sentido diariamente nas filas de espera do sistema de saúde.

Em Fortaleza, capital cearense, a gestão municipal revelou recentemente que a fila por diagnóstico e terapias reúne cerca de 40 mil pessoas, englobando demandas que se cruzam nas regulações municipais, estaduais e federais. O gargalo do sistema concentra-se na dificuldade de contratar e reter neuropediatras, terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogos e psicólogos focados em intervenções baseadas em evidências.

O Relato de Quem Aguarda
Para as famílias cearenses, a estatística do IBGE se traduz na prática em meses de espera e angústia. A servidora pública Joyce Venâncio, mãe de uma criança neurodivergente, vivencia esse cenário na rede pública. Durante a inauguração de um equipamento de apoio em Fortaleza, ela resumiu o desafio após a descoberta do transtorno:

“Isso me fez ir atrás de um laudo para buscar tratamento. Até hoje, ele está em fila de espera”, relatou.

A dificuldade estrutural não poupa os usuários que pagam por planos de saúde. Suliane Peixoto, presidente de uma comissão de mães que denunciou a desassistência na rede suplementar do Ceará, alerta para as consequências da demora nos consultórios privados:

“É uma luta muito árdua. Diversas famílias alegam dificuldade na marcação de consultas e enfrentam fila de espera para tratamento com as terapias multidisciplinares. A falta dessas terapias pode gerar danos irreversíveis”, afirmou durante audiência pública.

O Gargalo no Interior e a Intervenção da Justiça
Fora da Região Metropolitana de Fortaleza, a dificuldade de fixar profissionais de saúde agrava a situação, transformando o acesso a um direito básico em uma questão judicial. No Cariri, famílias atípicas de Juazeiro do Norte realizaram protestos recentes após crianças ficarem sem acesso a terapias devido à suspensão de contratos com clínicas conveniadas ao município.

A falta de assistência contínua tem levado o Ministério Público do Estado do Ceará (MPCE) a intervir diretamente. Em municípios como Santa Quitéria e Russas, a promotoria precisou acionar a Justiça e firmar Termos de Ajustamento de Conduta (TAC) para obrigar as prefeituras a ampliarem o atendimento multiprofissional.

Perspectivas e Movimentações Públicas
O cenário estadual tem exigido a aceleração de novas políticas de atendimento. O Governo do Ceará avança com o Ceará TEAcolhe, programa que busca fortalecer entidades parceiras e regionalizar os atendimentos. Em paralelo, a Prefeitura de Fortaleza iniciou a implantação de unidades do “Espaço Girassol”, focadas em triagem e acompanhamento multidisciplinar para tentar desafogar o sistema.

Apesar das medidas em andamento, gestores da área da saúde apontam que o tratamento do TEA continuará sendo um desafio complexo até que haja um fomento contínuo na formação de novos especialistas no Ceará. Os novos dados do IBGE provam que o autismo não é uma questão de nicho, mas uma realidade demográfica que exige planejamento a longo prazo.