Amorim abre as portas à cooperação, mas fecha para intervenção após EUA classificarem facções.

O assessor especial para assuntos internacionais da Presidência da República, Celso Amorim, fez uma declaração contundente nesta quinta-feira (28), enfatizando que a cooperação internacional é um pilar fundamental, mas que qualquer pretexto para intervenção em assuntos internos é inaceitável. A manifestação ocorre horas após o governo dos Estados Unidos anunciar a classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas.

A posição brasileira, articulada por Amorim, sublinha a complexidade da segurança pública e o combate ao crime organizado, temas cruciais para o desenvolvimento socioeconômico do país. O governo brasileiro, por meio de seu assessor, sinaliza uma postura de abertura para parcerias globais, mas com salvaguardas claras em relação à soberania nacional.

Posicionamento Brasileiro sobre o Crime Organizado

Em suas declarações, Celso Amorim reforçou que o crime organizado representa um desafio que deve ser enfrentado com determinação. Ele destacou que a cooperação internacional é particularmente bem-vinda em áreas como a lavagem de dinheiro e o contrabando de armas, onde a colaboração transnacional é essencial para a efetividade das ações. Contudo, o assessor foi categórico ao afirmar que a utilização de tais contextos como pretexto para intervenção é uma linha vermelha para o Brasil.

Amorim já havia se manifestado em um encontro internacional sobre segurança, antes mesmo do anúncio americano, onde argumentou que, embora o crime organizado deva ser combatido energicamente, equipará-lo ao terrorismo “não ajuda”. Ele enfatizou a necessidade de compreender as motivações por trás desses fenômenos criminosos para que a luta contra eles seja verdadeiramente eficaz.

A Decisão dos Estados Unidos e o Contexto Político

A decisão dos Estados Unidos de classificar o PCC e o CV como organizações terroristas foi anunciada pelo Departamento de Estado americano, que as descreveu como duas das maiores e mais violentas organizações criminosas. Segundo o órgão, esses grupos comandam milhares de membros e são responsáveis por ataques brutais contra policiais, servidores públicos e civis, com sua influência e atos ilícitos ultrapassando as fronteiras brasileiras.

O anúncio americano gerou repercussão imediata, especialmente por ter ocorrido dois dias após o senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato à presidência, ter visitado o então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na Casa Branca. Na ocasião, Bolsonaro teria feito um pedido formal para que as facções brasileiras fossem classificadas como terroristas, reiterando o pleito um dia depois em reunião com o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, que se mostrou favorável à ideia.

Reação do Itamaraty e Análise de Impactos

Até o momento da declaração de Amorim, o Itamaraty, o Ministério das Relações Exteriores do Brasil, não havia recebido nenhuma comunicação formal do governo americano sobre a decisão. Da mesma forma, não houve uma manifestação oficial do governo brasileiro sobre o assunto. Fontes diplomáticas indicam que o plano é aguardar o conteúdo detalhado da decisão para estudar seus impactos e efeitos práticos, baseando-se em precedentes de outros países onde os Estados Unidos adotaram medidas semelhantes.

Diplomatas brasileiros reforçam que o Brasil manterá sua estratégia de diálogo e cooperação internacional no combate ao crime. Essa abordagem é considerada a via mais eficaz para enfrentar os desafios impostos pelo crime organizado, sem comprometer a autonomia do país. A monitorização da decisão americana já estava em curso pelo MRE, indicando a atenção do governo brasileiro ao tema.

Defesa Nacional e Soberania em Destaque

Amorim também aproveitou a oportunidade para ressaltar a importância da política de defesa do Brasil. Ele afirmou que o governo tem dedicado “cada vez mais atenção” a essa área, investindo no aumento das competências tecnológicas e na modernização de equipamentos. O objetivo é assegurar uma “capacidade de dissuasão” robusta, essencial para um país que busca manter sua soberania em um cenário global complexo.

O assessor presidencial alertou para os perigos de um “mundo sem regras no qual o unilateralismo prevalece”, reforçando a postura brasileira de defesa da multilateralidade e do respeito às normas internacionais. Essa visão se alinha à percepção de que, embora a segurança e o bem-estar da população sejam prioridades, a resposta a ameaças deve ser equilibrada e respeitar os princípios do direito internacional.

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