Polícia Federal aponta indícios de vantagens indevidas recebidas por Jaques Wagner

A Polícia Federal (PF) enviou ao Supremo Tribunal Federal (STF) um relatório que aponta indícios de que o senador Jaques Wagner (PT-BA) teria recebido vantagens econômicas indevidas de gestores do antigo Banco Master. O documento, tornado público pelo ministro André Mendonça na última quinta-feira (30.jul.2026), detalha uma série de benefícios que, segundo os investigadores, estariam correlacionados à atuação parlamentar do senador em pautas de interesse da instituição financeira.

Os indícios preliminares sugerem que Jaques Wagner, diretamente ou por meio de familiares próximos, teria se beneficiado de Augusto Ferreira Lima, ex-CEO do Banco Master, e de Daniel Bueno Vorcaro, sócio da instituição. A PF classifica o conjunto de informações reunidas como “preliminar e indiciário”, destacando a complexidade das operações e a utilização de empresas, fundos de investimento e pessoas interpostas, ligadas aos investigados, para a suposta transferência dos valores.

As supostas vantagens econômicas detalhadas pela PF

O relatório da Polícia Federal elenca diversas vantagens econômicas que teriam sido atribuídas ao senador ou a integrantes de sua família. Entre os benefícios apontados, destacam-se:

  • Uso gratuito de aeronaves pertencentes aos controladores do Banco Master;
  • Ingressos para shows, com valores que superaram R$ 60.000;
  • Um apartamento no empreendimento Poème Horto, em Salvador (BA), avaliado em R$ 2,45 milhões;
  • Pagamentos à BN Financeira, uma empresa com ligações familiares a Wagner, que a PF afirma terem sido realizados sem a identificação de serviços correspondentes;
  • Presentes e vinhos, com valores estimados entre R$ 2.500 e R$ 5.300.

Os investigadores sustentam que parte dessas vantagens foi transferida por meio de empresas e fundos de investimento. No caso específico do apartamento em Salvador, a PF trabalha com a hipótese de que o imóvel foi adquirido por Augusto Lima a pedido e para usufruto de Jaques Wagner. Os recursos, conforme o relatório, teriam sido provenientes do Hockenheim Fundo de Investimento, administrado pela Reag, gestora descrita como parte do ecossistema financeiro utilizado pelos controladores do Master e ligada a João Carlos Fábio Mansur, apontado como um dos operadores financeiros do grupo. Do Hockenheim, os valores foram direcionados à Epítome S.A., empresa que formalmente adquiriu o apartamento.

A PF também indica que as negociações para a compra do imóvel continuaram mesmo após a prisão de Vorcaro em novembro de 2025, passando a ser conduzidas por “operadores” de Wagner e de Lima.

Aprofundando a relação de Jaques Wagner com Augusto Lima

A Polícia Federal afirma que a relação entre Jaques Wagner e Augusto Lima é de longa data, remontando a, pelo menos, 2019. Naquele período, enquanto secretário de Desenvolvimento Econômico da Bahia, o hoje senador tratou com o empresário sobre a privatização da EBAL (Empresa Baiana de Alimentos) e a operação do Credcesta, uma plataforma de crédito consignado oferecida a servidores estaduais. As investigações indicam que as carteiras do Credcesta foram um fator que levou Lima a se tornar sócio de Vorcaro no Banco Master no mesmo ano.

O relatório destaca que a partir de 2023, o vínculo entre as famílias de Jaques Wagner e Lima ganhou uma conotação de “proximidade e amizade”. Um exemplo citado é um convite para um encontro em outubro de 2023, aceito por Wagner e sua esposa, Maria de Fátima Carneiro de Mendonça. Dois dias depois, Lima encaminhou ao senador o prefixo de uma aeronave e o horário do deslocamento. A PF inferiu, a partir de mensagens e fotografias extraídas do celular de Lima, que o destino era a Ilha da Paixão, um imóvel que, embora não estivesse formalmente em nome do ex-sócio do Master, estaria sob sua posse e controle.

Após a viagem, a mulher de Wagner enviou mensagens de agradecimento, expressando “A gente ama vocês”. Lima respondeu com “Amamos vocês!! Bj no coração”. O relatório também menciona o envio de presentes a Jaques Wagner em dezembro de 2024, incluindo vinhos avaliados em R$ 2.500 a R$ 5.300. Nas embalagens das bebidas, a PF indicou a presença de bilhetes, um deles com “Para: Jaques” e “De: Guga” (apelido de Augusto Lima), e outro com “Para: Tio Guiga”, que os investigadores inferem ter sido destinado a Guilherme Sodré, enteado de Wagner e apontado como operador e pessoa de confiança do senador.

A conexão indireta com Daniel Vorcaro e a busca por discrição

O relatório da PF não apresenta mensagens diretas frequentes entre Jaques Wagner e Daniel Vorcaro, nem atribui aos dois uma relação pessoal tão próxima quanto a descrita entre o senador e Augusto Lima. Segundo a investigação, a aproximação de Wagner com Vorcaro se deu por intermédio do ex-sócio do Master. No entanto, os investigadores afirmam que o senador teria recebido vantagens econômicas de ambos, diretamente ou por meio de familiares, em aparente correlação com sua atuação em temas de interesse do banco.

Um dos episódios citados envolve um voo realizado em setembro de 2024. De acordo com a PF, Vorcaro acompanhou a logística do transporte de Jaques Wagner e de outros passageiros, orientando que a operação fosse conduzida com discrição. Em mensagens a um interlocutor, Vorcaro teria pedido que o avião fosse levado a um hangar “que ninguém conheça”, retirado rapidamente do local, e acrescentou a instrução para que a operação fosse discreta.

O relatório da Polícia Federal, que integra um inquérito em andamento no STF, reforça a natureza preliminar e indiciária das informações, indicando a continuidade das investigações sobre as supostas vantagens econômicas e a correlação com a atividade parlamentar do senador. A íntegra do documento pode ser consultada na Polícia Federal.

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