Ex-presidente da Sharp critica perda de foco em década com a Foxconn

Dez anos após a emblemática aquisição da gigante japonesa de eletrônicos Sharp pela taiwanesa Foxconn, uma voz influente emerge para reavaliar o impacto dessa união. Katsuhiko Machida, ex-presidente da Sharp, que liderou a empresa em seu auge, expressa uma visão crítica sobre a década sob nova gestão, apontando para um distanciamento do foco histórico da companhia em produtos inovadores e exclusivos.

A análise de Machida, compartilhada em uma entrevista ao “Nikkei Asia” por ocasião do aniversário da aquisição, oferece um panorama detalhado dos bastidores da transação e das transformações que moldaram a Sharp. Sua perspectiva é crucial para entender os desafios enfrentados por empresas tradicionais em um mercado global cada vez mais competitivo e dominado por diferentes filosofias de negócio.

O Início da Parceria: Necessidade e Estratégia da Sharp

O primeiro contato entre Sharp e Foxconn, segundo Machida, ocorreu por volta de 2011, em Hong Kong. Naquele momento, ele, então presidente do conselho da Sharp, propôs a Terry Gou, presidente do conselho da Foxconn, a terceirização do negócio de painéis LCD de grande porte.

Essa iniciativa surgiu em um período desafiador para a Sharp. Após atingir seu pico financeiro no ano fiscal de 2007, a empresa foi duramente impactada pela crise financeira global, pela valorização do iene e pelo Grande Terremoto do Leste do Japão em março de 2011. A busca por uma solução para o futuro do negócio de LCDs de grande porte era premente.

A Foxconn, por sua vez, demonstrou interesse em adquirir uma participação na operadora da fábrica de painéis LCD da Sharp em Sakai, em 2012. Para Machida, o principal atrativo para a Foxconn não era apenas a tecnologia, mas sim a capacidade de obter componentes internamente. Como montadora, a Foxconn visava integrar peças-chave, como os painéis LCD, essenciais para televisores e computadores pessoais, facilitando a competição em termos de custos.

A Aquisição Completa e a Visão de Machida

A aquisição total da Sharp pela Foxconn concretizou-se em 2016. Embora Machida já tivesse deixado o cargo de presidente do conselho, ele relembrou discussões prévias que antecederam o negócio. No final de 2015, Terry Gou contatou a Sharp em meio a propostas de reestruturação que incluíam a divisão da empresa e a integração de sua divisão de LCD à Japan Display.

Gou ofereceu os recursos para comprar a Sharp integralmente. A reação de Machida à proposta de aquisição foi de ceticismo. Ele expressou que a Foxconn poderia adquirir a divisão de LCD, mas que gerenciar a Sharp como um todo seria um desafio complexo.

A Foxconn, com sua longa experiência em fabricação sob contrato, possuía uma mentalidade diferente de uma empresa que lida com planejamento de produtos, design, desenvolvimento e vendas. Machida acreditava que seria difícil para eles abranger todas essas áreas. O resultado final, segundo ele, divergiu significativamente do que havia imaginado inicialmente.

O Legado da Inovação e o Cenário Atual da Sharp Foxconn

Ao avaliar a aquisição pela Foxconn, Machida a classifica como “negativa”. Ele enfatiza a dificuldade de criar produtos, que exige compreensão do cliente, design, desenvolvimento e vendas, indo muito além da simples fabricação. A diferença de mentalidade entre uma empresa focada em montagem e uma focada em planejamento de produtos, como a Sharp, é, para ele, fundamental na forma como concebem a inovação.

Durante sua presidência, Machida concentrou-se na criação de produtos singulares e exclusivos da Sharp. Ele cita tecnologias como os íons Plasmacluster e os fornos a vapor Healsio como exemplos de pilares que ainda sustentam a empresa. No entanto, ao observar os últimos dez anos, ele lamenta a ausência de novos produtos com o mesmo caráter inovador e exclusivo.

Olhando para o Futuro: Novas Fronteiras Tecnológicas

Apesar de sua avaliação crítica sobre o passado recente, Katsuhiko Machida mantém um olhar atento para o futuro da tecnologia. Ele revela que há muito tempo deposita grandes esperanças nas células solares, imaginando cenários como a geração de energia no espaço para uso na Terra.

Recentemente, a ideia de posicionar data centers no espaço capturou sua atenção, levando-o a uma epifania sobre as possibilidades futuras. Machida prevê um dia em que os dados residirão na nuvem, e dispositivos como smartphones e PCs se tornarão meras telas. Ele ressalta a rapidez das mudanças e a necessidade constante de antecipar “o que virá depois do smartphone”, um desafio que ecoa a essência da inovação que ele tanto valoriza.

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