‘Acreditava que era ódio isolado’: mulheres vítimas de violência podem levar mais de 10 anos para sair de relacionamentos abusivos

“Acreditava que era um episódio de ódio isolado e que eu poderia ser feliz e que isso nunca mais iria acontecer.” A frase é da dentista Giullia Falcão, de 27 anos, que denunciou o ex-marido, na última semana, após sofrer uma série de agressões.

O caso ajuda a explicar por que, para muitas mulheres, romper um relacionamento violento não é uma decisão simples nem imediata. Em alguns casos, pode levar meses ou até anos.

“Com certeza, ele falava que ia me matar”, afirma. O homem acusado por ela é o empresário do setor financeiro Ivo Vel Kos, de 48 anos, com quem se casou dois anos antes dos fatos denunciados.

Segundo especialistas que trabalham com vítimas de violência doméstica, os abusos costumam acontecer dentro de um ciclo que se repete e se intensifica com o tempo. A mulher pode passar por períodos de tensão, agressão e, depois, de aparente arrependimento do agressor. Essa dinâmica pode dificultar o rompimento e fazer com que a vítima permaneça na relação mesmo depois dos primeiros episódios de violência.

Uma em cada cinco mulheres vítimas de violência demora mais de dez anos para pedir ajuda, segundo os dados do Mapa do Acolhimento, ONG que trabalha para garantir às mulheres um atendimento humanizado e efetivo.

O tempo necessário para romper varia de acordo com a situação de cada vítima e pode ser influenciado por fatores como dependência financeira, isolamento, ameaças, perseguição e medo de que a violência aumente.

Como funciona o ciclo da violência

“A primeira dessas fases, ela é voltada para uma fase de tensionamento. Ele começa a dar indícios de que ele quer controlar essa mulher, ele começa a insultar ela. O problema é que quando se entra na segunda fase, que é a fase que a gente chama de explosão, é quando essa violência ela chega no seu auge”, explica Ana El Kadri, co-diretora do Mapa do Acolhimento.
Segundo Ana, logo após a fase de “explosão”, vem o momento em que a especialista chama de “lua de mel”, que é quando o agressor percebe que pode “perder a mulher, começa a pedir desculpas, mostrar um comportamento de remorso”, explica Ana.

Na terceira fase, conhecida como “lua de mel”, o agressor percebe que pode perder a mulher e muda temporariamente de comportamento. Ele pode pedir desculpas, demonstrar arrependimento, prometer que não vai repetir as agressões e tentar reconstruir a relação.

O problema é que o ciclo tende a se repetir. Com o tempo, os intervalos entre os episódios de violência podem
ficar menores.

“O ciclo da violência vai se tornando cada vez mais recorrente e menos espaçado. E o que os dados apontam é que, quando essa recorrência diminui, essa mulher está em risco de vida”, afirma a especialista.

Ficava longe dele e ele ia ao meu encontro’

Giullia contou que tentou terminar o relacionamento diversas vezes. Segundo ela, o ex-marido a perseguia quando os dois se afastavam.

“Eu ficava longe dele e ele ia ao meu encontro. Ele me perseguia. Ele ligava 60 vezes, ele ia na minha casa, ele mandava flores, ele mandava presente, ele chorava”, relatou.
Para ela, a insistência do agressor contribuía para que a situação parecesse diferente depois de cada episódio. “Era uma loucura assim, você ficar totalmente cega”, disse.

Antes do episódio mais recente, Giullia já havia denunciado uma agressão física. Segundo ela, o ex-marido havia dado um tapa em seu rosto uma semana antes do casamento.“Eu confesso que eu cheguei a ficar até acostumada. Só que agora foi diferente”, contou.

Ela também relatou episódios de violência psicológica e sexual. Disse que o ex-marido a fazia parar de trabalhar e a chamava de “inútil” e “burra”. “Fica quieta, obedece que você só tem a ganhar”, afirmou que ele dizia.

A violência não é apenas física

A violência doméstica pode assumir diferentes formas. Além da agressão física, a vítima pode sofrer violência psicológica, sexual, patrimonial e moral, entre outras.

No caso de Giullia, segundo o relato dela, o controle também envolvia sua vida profissional. Ela afirmou que foi impedida de trabalhar e que passou a depender do marido.A violência sexual também pode ocorrer dentro do casamento. O fato de a vítima estar casada com o agressor não significa que ela tenha obrigação de manter relações sexuais.

“Não importa se eu estiver casada com uma pessoa há 60 anos. A gente tem que concordar que ambas as partes querem ter aquela relação sexual”, afirmou a especialista.

A violência patrimonial também aparece em casos de relacionamentos abusivos. Ela ocorre quando o agressor controla, retém ou destrói bens, dinheiro, documentos ou outros recursos da vítima como forma de controle.

Fonte: G1 CE