PIB surpreende, mas peso dos juros mostra perda de força, dizem analistas
O PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro cresceu 0,5% no segundo trimestre, na comparação com os três meses anteriores, segundo dados divulgados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) nesta terça-feira (1º).
O resultado veio acima das expectativas do mercado, que projetavam alta entre 0,3% e 0,4%.
Apesar da surpresa positiva, a composição do PIB mostra sinais de perda de ritmo da economia, especialmente entre os setores mais sensíveis à política monetária, apontam analistas ouvidos pelo CNN Money.
O cenário ocorre em meio a uma política de juros ainda restritiva, que encarece o crédito e limita decisões de consumo e investimento.
Embora o Banco Central tenha iniciado um ciclo de flexibilização monetária, a Selic permanece em 14% ao ano, em um ambiente marcado pelo elevado endividamento das famílias – que em julho alcançou 82%, segundo a CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo), maior nível pelo sexto mês seguido.
O consumo das famílias, um dos principais motores da atividade econômica, recuou 0,4% no segundo trimestre. A indústria também perdeu força: avançou apenas 0,1%, ante crescimento de 1,2% nos três primeiros meses do ano.
Nos serviços, setor que responde por cerca de 70% da economia brasileira, a expansão foi de 0,2%, abaixo da alta de 0,4% registrada no trimestre anterior.
“Quando a gente olha a composição do PIB, isso fica bastante evidente. O consumo das famílias, que tem tido um crescimento resiliente ao longo do tempo, mostra que as condições financeiras podem estar afetando esse componente”, afirma Juliana Trece, coordenadora de Contas Nacionais do FGV Ibre.
Para a economista, os dados reforçam a percepção de que a economia brasileira entrou em uma trajetória de desaceleração e evidenciam a maior sensibilidade do consumo ao ambiente de juros elevados, que deve continuar pressionando a atividade ao longo dos próximos meses.
Segundo o Boletim Focus divulgado na segunda-feira (31), a expectativa do mercado é de que a Selic termine o ano em 13,75%. A projeção considera um novo corte de 0,25 ponto percentual na reunião do Copom (Comitê de Política Monetária) de setembro.
Analistas avaliam ainda que a atividade econômica conta com fatores capazes de limitar uma desaceleração mais intensa no segundo semestre.
O mercado de trabalho aquecido e o crescimento da renda devem continuar sustentando parte da demanda.
Ao mesmo tempo, fatores externos e domésticos podem adicionar incerteza ao cenário de inflação e atividade, como as eleições presidenciais de outubro, a possibilidade de um El Niño de maior intensidade, a continuidade dos conflitos no Oriente Médio e as tarifas impostas pelos Estados Unidos.
Pelo lado da produção, a agropecuária foi o principal destaque do trimestre, com crescimento de 2,8%, acima da alta de 2,3% registrada no primeiro trimestre. Foi o melhor desempenho do setor desde os três meses encerrados em março de 2025.
O impulso, no entanto, tende a perder força nos próximos meses, contribuindo para uma expansão mais moderada do PIB.
“Nossa expectativa é que esses efeitos da agro diminuam no terceiro trimestre, o efeito do aperto monetário continue se espalhando pela economia, e você tem um terceiro trimestre crescendo, mas em ritmo menor”, avaliou Roberto Padovani, economista-chefe do banco BV.
Padovani projeta crescimento de 0,2% do PIB no terceiro trimestre e de 1,9% em 2026.
Antônio Ricciardi, economista do Banco Daycoval, também espera continuidade da desaceleração, principalmente nos setores considerados cíclicos, que respondem de forma mais rápida às condições de crédito e à política monetária.
“Os itens cíclicos devem continuar esse processo de desaceleração, principalmente diante de uma massa salarial que desacelerou fortemente do segundo para o terceiro trimestre e deve continuar em patamares mais moderados até o final do ano.”
Ricciardi projeta, por enquanto, crescimento entre 0,15% e 0,20% para a economia brasileira no segundo semestre.
Fonte:CNN Brasil

