Estudo da UFC identifica substâncias tóxicas de plásticos em caranguejos do Ceará
O caranguejo, crustáceo conhecido por sua forte tradição cultural, econômica e gastronômica no Ceará e por desempenhar um papel ecológico importante nos manguezais, pode estar sendo contaminado por compostos químicos industriais tóxicos e com potencial de desregular o sistema hormonal de humanos.
É o que aponta um estudo inédito desenvolvido por pesquisadores da Universidade Federal do Ceará (UFC) e publicado nesta quarta-feira, 2, na revista internacional Marine Environmental Research.
Os resultados, considerados “preocupantes” pelos autores, indicam que caranguejos coletados no litoral de Fortim, no litoral leste do Ceará, a cerca de 118 quilômetros de Fortaleza, apresentaram concentrações elevadas de análogos do bisfenol A (BPA) — uma família de compostos químicos amplamente utilizada na fabricação de plásticos, resinas e embalagens de uso cotidiano.
Caranguejos podem indicar contaminação dos manguezais
Os caranguejos possuem características biológicas que os tornam importantes biomonitores da qualidade ambiental. Como nascem, vivem e cavam suas tocas diretamente no sedimento dos manguezais — ambiente onde poluentes transportados pelos rios tendem a se acumular —, esses crustáceos permanecem em contato constante com potenciais agentes contaminantes.
Em entrevista ao O POVO, o coordenador da pesquisa e professor do Instituto de Ciências do Mar (Labomar-UFC), Rivelino Martins Cavalcante, explica que a escassez de dados científicos sobre esse tipo de contaminação foi um dos principais fatores que motivaram o início do estudo.Para o pesquisador, a presença das substâncias químicas nos tecidos dos animais pode estar relacionada ao descarte inadequado de materiais plásticos e à insuficiência no tratamento de efluentes domésticos e industriais nas cidades.
“O resultado mostra que aquilo que descartamos nas cidades e nas bacias hidrográficas não necessariamente fica restrito ao local de descarte: pode chegar aos rios, aos manguezais e, finalmente, à biota”, adverte Cavalcante.
Conforme a pesquisa, entre os materiais descartados de forma irregular estão papéis térmicos, como comprovantes de cartão, recibos de caixas de supermercado e senhas de atendimento, que podem conter derivados de bisfenol e contribuir para a contaminação.O bisfenol A (BPA) é o composto mais conhecido dessa família, mas existem outros análogos, como BPF, BPS e BPC, alguns utilizados inclusive como substitutos do BPA.
“Esses compostos são considerados de preocupação ambiental e toxicológica porque alguns apresentam atividade de desregulação endócrina e podem provocar outros efeitos adversos nos organismos”, explica o pesquisador.
Rio Jaguaribe pode transportar contaminantes até o manguezal
Embora o estudo não tenha realizado o rastreamento específico das fontes industriais ou urbanas de poluição, a equipe de cientistas aponta que uma possível explicação está na influência da bacia hidrográfica do rio Jaguaribe, onde Fortim está localizado.
A região recebe influência de atividades urbanas e agropecuárias, da carcinicultura e do turismo. O rio atravessa dezenas de municípios cearenses antes de desaguar em Fortim, transportando resíduos provenientes de áreas urbanas e agrícolas.A disposição inadequada de lixo em lixões e as deficiências no tratamento de esgoto no interior do Estado podem facilitar o transporte desses compostos pelos rios e, posteriormente, sua chegada aos manguezais.
Pesquisa usa método que não exige sacrifício dos caranguejos
Um dos pontos de destaque da pesquisa foi a comparação entre diferentes áreas. As amostras dos caranguejos foram coletadas em 2025, nos municípios de Fortim e Itapissuma, em Pernambuco, que abrigam importantes manguezais do Nordeste, mas apresentam características e diferentes níveis de pressão ambiental.O estudo também apresenta uma inovação metodológica ao analisar, pela primeira vez, a presença dessas substâncias em caranguejos por meio da urina e da hemolinfa — líquido equivalente ao “sangue” dos crustáceos — utilizando um método de alta sensibilidade que não exige o sacrifício dos animais.
“Isso abre uma possibilidade muito interessante para o monitoramento ambiental, pois podemos avaliar a exposição dos organismos aos contaminantes de forma não destrutiva, utilizando uma abordagem relativamente simples e acessível”, completa.
A técnica já está sendo ampliada para uma análise em 17 áreas costeiras, que reúne cerca de 300 caranguejos das regiões Norte e Nordeste. A iniciativa, segundo os pesquisadores, está alinhada a parâmetros internacionais de Saúde Ecossistêmica (Ecosystem Health) promovidos pela UNESCO para a conservação dos oceanos.
Bisfenóis são encontrados no organismo dos animais
De acordo com Rivelino Cavalcante, foram encontradas substâncias da família dos bisfenóis nos dois líquidos analisados. As concentrações, porém, foram significativamente maiores na hemolinfa e, principalmente, nos caranguejos coletados em Fortim.
Os resultados indicam que os contaminantes estão presentes no organismo dos crustáceos. A hemolinfa, por circular internamente pelo animal, permite avaliar a exposição interna aos compostos, enquanto a urina representa principalmente uma das vias de eliminação dessas substâncias.
A presença dos contaminantes também pode indicar um processo de bioacumulação, no qual determinadas substâncias químicas são absorvidas e podem se acumular nos tecidos dos organismos ao longo do tempo.
Contaminação é investigada em outras áreas
Novos levantamentos apontam ainda a presença de bisfenóis em todos os manguezais estudados no Norte e Nordeste brasileiros. Os resultados dessas outras regiões, contudo, ainda estão em fase de análise e publicação.“O que podemos dizer neste momento é que os dados preliminares reforçam a importância de investigar os bisfenóis em uma escala geográfica maior e mostram que essa não deve ser tratada apenas como uma questão local de Fortim, e sim de locais com déficit no gerenciamento de resíduos sólidos e líquidos”, pontua.
Consumo do caranguejo levanta dúvidas sobre exposição humana
Um hábito comum da gastronomia cearense é consumir o caranguejo inteiro e utilizar, por exemplo, a água do cozimento no preparo de pirões e molhos. Diante disso, o estudo chama atenção não apenas para os possíveis impactos dos compostos nos organismos marinhos, mas também para questões relacionadas à exposição dos consumidores.
Como os bisfenóis foram detectados nos fluidos internos dos animais, existe, em tese, a possibilidade de que parte desses compostos seja transferida para a água durante o cozimento.A pesquisa teve como foco duas espécies nativas de grande relevância ecológica e comercial: o caranguejo-uçá (Ucides cordatus) e o guaiamum (Cardisoma guanhumi).
O que diz a legislação sobre o bisfenol A?
A legislação brasileira atualmente estabelece restrições específicas para o bisfenol A (BPA) em mamadeiras e utensílios destinados à alimentação de lactentes e crianças de até 3 anos. Para os demais usos, a utilização da substância é permitida dentro dos limites máximos estabelecidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
O BPA é uma substância capaz de interferir no funcionamento do sistema endócrino. Estudos científicos relacionam a exposição ao composto a alterações no sistema imunológico, problemas reprodutivos e distúrbios metabólicos e neurológicos, além de possíveis associações com alguns tipos de câncer, incluindo os de próstata e mama.
“Isso é preocupante, porque o BPF vem sendo utilizado como substituto do BPA em diversos produtos, mas estudos científicos já indicam que ele também apresenta atividade de desregulação endócrina e pode causar efeitos tóxicos semelhantes. O estudo reforça justamente que substituir o BPA por outros bisfenóis não significa, necessariamente, eliminar o risco ambiental ou para a saúde”, analisa.
Pesquisador diz que não é preciso deixar de consumir caranguejo
O professor Rivelino Cavalcante enfatiza que não há recomendação para que a população deixe de consumir o crustáceo. Segundo ele, os resultados indicam a necessidade de aprofundar as investigações sobre a exposição associada ao consumo frequente desses organismos.“Isso é um sinal de atenção, mas não significa que uma pessoa terá um problema de saúde ao consumir um caranguejo. Nosso estudo também não avaliou diretamente efeitos em seres humanos”, esclarece.
O pesquisador reforça que a exposição estimada a partir desses crustáceos pode ultrapassar limites considerados seguros por órgãos internacionais. Novos estudos experimentais, porém, ainda são necessários para avaliar diretamente o alimento preparado, simulando os modos tradicionais de consumo no Ceará.“O caranguejo continua sendo um alimento importante para a cultura, a economia e a segurança alimentar de muitas comunidades. Os resultados do estudo servem como um alerta para que o poder público invista na redução da poluição que chega aos rios e manguezais”, afirma.
Cavalcante também destaca a importância da participação das comunidades pesqueiras na conservação dos manguezais, tanto para a proteção dos ecossistemas quanto para a manutenção de suas fontes de alimento e renda.Para os consumidores, a orientação é acompanhar as recomendações dos órgãos de vigilância sanitária e ambientais enquanto novas pesquisas ampliam o conhecimento sobre a exposição a esses contaminantes e seus possíveis efeitos ao longo do tempo.
Fonte: O Povo

