Mercado refaz as contas e põe eleição competitiva no preço
A reação dos mercados na quarta-feira (2) demonstrou que uma eleição mais concorrida ainda não estava no preço dos ativos brasileiros.
Mas já começa a entrar.
O empate técnico entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) levou o Ibovespa a subir 3,05%, aos 185.205 pontos, enquanto o dólar recuou 0,89%, para R$ 5,106.
Até cerca de três semanas atrás, o investidor atribuía poucas chances a Flávio. A divulgação do áudio em que o senador negociava com Daniel Vorcaro recursos para financiar um filme sobre Jair Bolsonaro aumentou o receio de novas revelações e reforçou a percepção de que sua candidatura era frágil. O mercado via dificuldades para que ele ampliasse o apoio além da base bolsonarista e sustentasse uma campanha competitiva até o segundo turno.
Essa visão começou a mudar.
Flávio apresentou uma melhora marginal nas pesquisas, não surgiram novas denúncias com capacidade de comprometer sua candidatura e Lula perdeu força entre os eleitores.
O movimento mais relevante veio da deterioração da posição do presidente, refletida no aumento da desaprovação e na redução de sua vantagem nas simulações de segundo turno.
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Estimar as probabilidades atribuídas pelo mercado a cada candidato não é uma tarefa simples, especialmente num momento em que tantos fatores de peso influenciam os ativos.
Ainda assim, analistas e gestores ouvidos pelo CNN Money calculam que, há cerca de três semanas, a chance de vitória de Lula estava próxima de 65%, contra 35% de Flávio. Agora, essa conta se aproxima de 50% para cada candidato.
A mudança mostra que o favoritismo mais amplo de Lula já estava incorporado às decisões de investimento. A possibilidade de uma disputa aberta começou a entrar nos preços apenas nas últimas semanas.
A Bolsa concentra o potencial de reprecificação
Entre os ativos brasileiros, a Bolsa tem hoje o maior potencial para refletir essa mudança de percepção. O motivo está no posicionamento técnico dos investidores.
Durante agosto, os estrangeiros reduziram fortemente a exposição ao mercado acionário brasileiro. A saída líquida chegou a R$ 23,2 bilhões no pior momento do mês.
Com o retorno de parte dos recursos na reta final, o saldo negativo recuou para R$ 18,4 bilhões até o dia 27. Ainda assim, a retirada reduziu a liquidez e pressionou o preço das ações.
O Ibovespa acumulou perda de 6,55% nos primeiros 11 pregões de agosto. Nos dez pregões seguintes, recuperou 6,66% e encerrou o mês com queda de 0,33%.
A retirada de recursos deixou muitos investidores com posições menores em ações brasileiras justamente quando começaram a surgir pesquisas apontando uma disputa mais equilibrada.
Ao mesmo tempo, representantes da Faria Lima abriram espaço para receber Flávio e ouvir suas propostas, um movimento que indicou uma nova disposição do mercado em relação à candidatura.
A combinação entre baixa exposição à Bolsa e mudança na percepção eleitoral criou espaço para a recomposição rápida das carteiras e ajuda a explicar a intensidade da alta desta quarta-feira.
Na avaliação dos profissionais ouvidos pelo CNN Money, a Bolsa apresenta uma assimetria importante. O potencial de alta em um cenário de vitória de Flávio é maior do que o espaço adicional de queda em caso de reeleição de Lula.
A continuidade do atual governo e da política fiscal já foi absorvida em boa medida pelos preços. Uma alternância de poder ganhou peso nas contas do mercado apenas nas últimas semanas. Se essa possibilidade crescer, a Bolsa poderá receber novos recursos e ampliar a valorização.
O que mudou nas pesquisas
A Quaest divulgada nesta quarta mostrou Lula com 42% das intenções de voto em uma simulação de segundo turno, contra 41% de Flávio. A diferença está dentro da margem de erro de dois pontos percentuais.
Em julho, Lula tinha 45% e Flávio, 37%. Em cerca de 45 dias, a vantagem do presidente caiu de oito para um ponto: Lula perdeu três pontos e Flávio avançou quatro.
No primeiro turno, a melhora de Flávio foi mais discreta. Ele passou de 28% em julho para 29% ou 30%, dependendo do cenário testado, uma oscilação dentro da margem de erro. Lula caiu de 40% para 37%.
A avaliação do governo também permanece desfavorável. A Quaest mostra 48% de desaprovação e 45% de aprovação. A oscilação mais recente está dentro da margem de erro, mas o nível de desaprovação, combinado à perda de intenção de voto, enfraqueceu a percepção de favoritismo do presidente.
As probabilidades calculadas por analistas e gestores funcionam como uma medida da percepção de risco. Elas orientam a exposição das carteiras ao Brasil e podem mudar rapidamente diante de uma nova pesquisa, de um indicador econômico ou de um fato político.
A expectativa de ajuste fiscal
O mercado reage positivamente ao aumento da competitividade de Flávio porque associa uma eventual vitória da oposição a uma probabilidade maior de ajuste fiscal, com contenção de despesas, revisão de gastos e medidas para estabilizar a dívida pública.
A política econômica atual mantém os gastos em nível elevado e não apresentou uma trajetória considerada segura para o endividamento do país. O crescimento da dívida aumenta o prêmio exigido pelos investidores para financiar o governo, pressiona os juros de longo prazo e encarece o crédito para empresas e famílias.
Esse processo reduz o valor presente das companhias negociadas na Bolsa, dificulta investimentos e enfraquece a atividade econômica. A perspectiva de uma condução fiscal mais restritiva favorece principalmente as empresas ligadas ao mercado doméstico e mais sensíveis à redução dos juros.
O mercado precifica neste momento a expectativa de mudança na política econômica. Quanto mais competitivo se torna Flávio, maior o peso atribuído à possibilidade de um ajuste a partir de 2027.
No dólar, a assimetria se inverte
No câmbio, a relação segue a direção oposta. O real já acumulou valorização relevante ao longo do ano, e o dólar chegou a ser negociado perto de R$ 4,90 em maio.
Esse ponto de partida reduz o espaço para uma nova queda expressiva da moeda americana diante do avanço de Flávio. Em um cenário de deterioração fiscal ou de reeleição de Lula sem uma sinalização de ajuste, o percurso de alta do dólar pode ser maior.
A Bolsa ainda tem espaço para precificar uma mudança de governo. O câmbio já incorporou uma parcela maior desse cenário favorável ao real.
Os outros componentes do preço
A eleição ganhou peso na formação dos preços, mas divide a atenção dos investidores com fatores econômicos capazes de reforçar ou interromper esse movimento.
Nos Estados Unidos, aumentou a possibilidade de o Federal Reserve elevar os juros diante da persistência da inflação. Juros americanos maiores fortalecem o dólar, aumentam o retorno dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos e reduzem a atratividade dos mercados emergentes.
No Brasil, os indicadores de atividade mostram perda de ritmo. O consumo das famílias recuou no segundo trimestre, os investimentos desaceleraram e os setores mais dependentes de crédito sentem os efeitos da Selic elevada. Uma desaceleração mais intensa pode prejudicar os resultados das empresas e limitar a valorização das ações.
A política monetária brasileira completa esse quadro. O comportamento da inflação, a velocidade dos próximos cortes da Selic e a trajetória dos juros futuros terão efeito direto sobre o câmbio e sobre as ações de bancos, varejistas, construtoras e companhias endividadas.
A eleição deixou de ser precificada como uma disputa com amplo favoritismo de Lula e passou a ser tratada como uma corrida aberta. Como a possibilidade de uma vitória de Flávio ainda começa a entrar nos preços, a Bolsa reúne hoje o maior potencial para refletir essa mudança.
Fonte:CNN Brasil

