Um casal acusado de envenenar e matar duas pessoas com cocaína diluída em uma garrafa de vinho em um bar no bairro Pici, em Fortaleza, em novembro do ano passado, teve a prisão preventiva mantida pela Justiça do Ceará, em decisão no último dia 11 de setembro. Antônio Gedean de Sousa Barbosa e Fabrícia Ferreira de Sousa foram pronunciados, ou seja, serão levados ao Tribunal do Júri, em agosto, em julgamento que ainda terá data marcada.
As mortes aconteceram no dia 3 de novembro e chegaram a ser investigadas como suspeita de intoxicação por metanol. Entretanto, dias depois, um laudo da Perícia Forense do Estado do Ceará (Pefoce) constatou uma alta concentração de cocaína na bebida.
Segundo o documento ao qual o Diário do Nordeste obteve acesso, a perícia no sangue das vítimas identificou uma quantidade 15 a 20 vezes maior do que o necessário para causar uma overdose fatal. Um único gole já poderia levar um adulto à morte. Uma das vítimas faleceu instantes após consumir a bebida e começar a passar mal. Antônio dos Anjos Mendes, o ‘Gasolina’, tentou ir embora empurrando seu carrinho de reciclagem, mas colapsou e tombou já morto em uma via pública.
A segunda pessoa, Raimundo Nonato Marques, o Neto, foi socorrida, mas chegou ao hospital sem vida. Outras duas vítimas haviam consumido da mesma garrafa, mas sobreviveram, apesar de passarem mal e serem internadas.
A morte das vítimas aconteceu por intoxicação por cocaetileno, que é a mistura do álcool com a cocaína, uma produção altamente tóxica. Os réus foram denunciados por dois homicídios triplamente qualificados e duas tentativas de homicídio também com tripla qualificação.
O Ministério Público do Ceará (MPCE) pontuou na denúncia as qualificadoras de emprego de veneno, dissimulação e motivo torpe.
O Diário do Nordeste tentou contato com a defesa de Fabrícia, mas não obteve resposta até o fechamento desta matéria. A defesa de Gedean não foi localizada. Ciúme e vingança
Segundo exposto na investigação da Polícia Civil e do MPCE, uma das motivações do envenenamento foi “ciúme doentio”, pois Gedean, o homem preso, tinha ciúmes da esposa, Fabrícia, também presa.
O homem estaria enciumado de Raimundo, uma das vítimas mortas, em razão de uma “suposta aproximação” dele com a companheira.
Outra situação que foi crucial nas apurações foi uma briga do casal no dia anterior ao envenenamento, em que Fabrício teria agredido a mulher. Raimundo e outras pessoas intervieram na discussão e agrediram Gedean, que teria deixado o bar “proferindo ameaças”.
A vingança veio no dia do crime: Fabrícia, que, segundo o MPCE, agiu em acordo com o marido e entregou a garrafa envenenada para uma vítima sobrevivente, “a fim de não chamar atenção” ao dar o líquido diretamente para o alvo, que seria Raimundo.
A acusação pontuou que “a entrega foi estrategicamente pensada”, pois o alvo principal, Raimundo, sempre se juntava com o grupo do sobrevivente para beber.
Cientes disso, os réus agiram claramente assumindo o risco de que outras pessoas também viessem a ingerir a substância envenenada e eventualmente viessem a óbito, como de fato veio a ocorrer.
MPCE
Em denúncia
As investigações policiais reuniram imagens de câmeras de videomonitoramento que registraram a movimentação de Gedean e Fabrícia no entorno do bar entre 12h54 e 13h46 no dia dos fatos.
Nos registros, Fabrícia aparece carregando uma bolsa no ombro, utilizada possivelmente para transportar a garrafa adulterada, além de conversar de forma enérgica com Gedean em uma esquina próxima antes da entrega da bebida.
Casal fugiu de casa
O casal teria fugido da residência onde morava logo após o ocorrido. Contudo, após diligências da Polícia Civil, ambos foram localizados e presos preventivamente no dia 5 de novembro de 2025.
No momento da captura, Gedean usava o mesmo boné vermelho de aba reta identificado nas imagens gravadas no dia do crime.
Em interrogatório judicial, a acusada negou o crime, e o marido se manteve em silêncio, segundo consta na sentença que pronunciou e encaminhou o casal ao Tribunal do Júri.
Fabrícia negou envolvimento no crime e disse que a garrafa envenenada veio do bar, que era um estabelecimento onde o consumo de drogas e prostituição eram comuns. Sobre eles terem deixado o imóvel onde moravam, que era uma kitnet que ficava em cima do bar, a ré alegou que foi motivada por ameaças sofridas.
“Afirmou que somente tomou conhecimento das mortes na manhã seguinte, quando já se encontrava no trabalho, ocasião em que soube que seu nome estava sendo associado ao envenenamento. Sustentou que, se tivesse permanecido no local, também poderia ter ingerido a bebida”, disse a 2ª Vara do Júri.
Fonte: Diário do Nordeste

