Guerra de facções: homem é réu por 9 homicídios na Grande Messejana

Um homem apontado como integrante da facção criminosa Massa Carcerária é réu acusado de envolvimento em, pelo menos, nove homicídios ocorridos entre dezembro de 2025 e março de 2026 nos bairros Curió, José de Alencar, Lagoa Redonda e Messejana, em Fortaleza.

A defesa de Filipe Moreira de Oliveira, o “Donatello”, de 22 anos, ressalta que as acusações ainda estão sendo apreciadas pela Justiça. As advogadas Maria Mota e Sara Freitas também questionam o procedimento pelo qual testemunhas o reconheceram, afirmando que ele não é equivalente ao previsto no Código de Processo Penal.

No último dia 9 de setembro, Filipe foi pronunciado pelo assassinato de Francisco Carlos de Araújo, conhecido como “Neto”, crime ocorrido em 27 de janeiro deste ano, em frente a uma loja de açaí na avenida Odilon Guimarães, na Lagoa Redonda.Conforme a denúncia do Ministério Público do Estado (MPCE), Filipe estava na garupa de uma motocicleta e efetuou diversos disparos contra a vítima. A motivação estaria ligada ao fato de Francisco Carlos ter amigos integrantes do Comando Vermelho (CV), embora ele próprio não pertencesse à facção.

Os demais assassinatos atribuídos a Filipe também se inserem no contexto da rivalidade entre CV e Massa. Confira a lista de mortes pelas quais ele foi denunciado:

-Darlan Ferreira Duarte, morto em 25 de outubro de 2025 no Curió;

-Samile Rodrigues da Silva, morta em 30 de dezembro de 2025;

-Alezsandro Lima Silva, morta em 30 de dezembro de 2025;

-Francisco Fábio da Costa Holanda Júnior e José Leandro de Oliveira Nunes, mortos em 23 de janeiro de 2026 no Curió;

-Francisco Carlos de Araújo, morto em 27 de janeiro de 2026 na Lagoa Redonda;

-Carlos Eduardo Nascimento Santos e Davi Nunes Alves, mortos em 7 de março na Lagoa Redonda;

-Welington Fernandes Maciel, morto em 26 de março de 2026 no José de Alencar.

As vítimas se confraternizavam na calçada quando foram surpreendidos por quatro homens em duas motocicletas. Dezenas de disparos foram efetuados — no local, a foram recolhidas 38 cápsulas de munição.O socorro chegou a ser acionado, mas Carlos Eduardo Nascimento Santos e Davi Nunes Alves não resistiram. O MPCE apontou que os alvos foram escolhidos de forma aleatória, unicamente por morarem em uma área sob influência do CV.

Suposto comparsa é acusado por oito homicídios na Grande Messejana
Outro acusado de participação nesse duplo homicídio é Derromisson Rodrigues Barbosa, o “Caverinha”, de 27 anos. Ao todo, O POVO localizou seis ações penais em que Derromisson é acusado por assassinatos na Grande Messejana.

Desses crimes — que, ao todo, vitimaram oito pessoas — somente em um Filipe também não foi denunciado: o que ceifou a vida de Benedito Saboia de Brito Filho, morto a tiros em 8 de fevereiro no bairro José de Alencar.

Confira os homicídios na Grande Messejana pelos quais Derromisson é réu:

Darlan Ferreira Duarte, morto em 25 de outubro de 2025 no Curió;

Samile Rodrigues da Silva, morta em 30 de dezembro de 2025;

Alezsandro Lima Silva, morta em 30 de dezembro de 2025;

Francisco Fábio da Costa Holanda Júnior e José Leandro de Oliveira Nunes, mortos em 23 de janeiro de 2026 no Curió;

Carlos Eduardo Nascimento Santos e Davi Nunes Alves, mortos em 7 de março na Lagoa Redonda;

Benedito Saboia de Brito Filho, morto em 8 de fevereiro no José de Alencar.

Duplo ataque no mesmo dia
Em 30 de dezembro de 2025, Filipe e Derromisson teriam realizado dois ataques distintos em um intervalo de poucos minutos no bairro Curió. De acordo com o MPCE, por volta das 17h20min, a dupla matou Alezsandro Lima Silva a tiros.

Cerca de dez minutos depois, a 550 metros do primeiro local, os dois teriam executaram Samile Rodrigues da Silva na rua José Galdêncio Moreira. Em ambos os casos, as vítimas foram mortas, conforme a investigação, por residirem em um território controlado pelo CV.Derromisson foi preso em 21 de março deste ano. O advogado dele, que pediu para não ter a identidade divulgada, informou a O POVO que se manifestará apenas nos autos do processo.

Já Filipe foi capturado em 2 de abril no município de Beberibe, no Litoral Leste do Ceará. Na ocasião, a Polícia Civil prendeu outro suspeito e apreendeu três armas de fogo. Confira a íntegra da nota enviadas pelas advogadas de Filipe:

Neste momento, é importante fazer algumas ponderações. Primeiramente, sobre o Sr. Filipe Moreira de Oliveira recai o princípio constitucional da presunção de inocência, considerando que ele não foi condenado em nenhum dos processos aos quais esteja respondendo, de modo que não se pode tratar acusações ou elementos ainda submetidos à apreciação judicial como se fossem fatos definitivamente estabelecidos.

A defesa técnica, composta por Maria Mota e Sara Freitas, vem atuando regularmente nos processos, sempre em observância à legislação e às garantias constitucionais do assistido. Por essa razão, não iremos comentar especificamente os elementos de cada caso, inclusive em respeito ao sigilo que envolve os autos.

Sobre a informação de que, em alguns casos, ele teria sido reconhecido por testemunhas como autor dos crimes, há uma questão técnica que merece atenção. Temos identificado, em investigações no Estado do Ceará, a utilização de expedientes denominados “termo de qualificação de pessoa previamente identificada”, procedimento que, a nosso ver, não pode ser equiparado ao reconhecimento formal de pessoa previsto no art. 226 do Código de Processo Penal.

Trata-se de questão que possui relevantes implicações probatórias, especialmente diante do entendimento consolidado pelo Superior Tribunal de Justiça (Tema 1258) acerca da observância das formalidades legais para o reconhecimento de pessoas, bem como dos estudos relacionados à psicologia do testemunho e, nesse escopo, à possibilidade de contaminação da memória.

Portanto, um simples apontamento ou uma qualificação realizada em sede policial não pode ser tratado, por si só, como prova inequívoca de autoria. A validade e a força probatória desse elemento precisam ser analisadas à luz das circunstâncias em que foi produzido e do conjunto probatório de cada processo.

Por fim, especificamente quanto à informação de que haveria comparação balística vinculando o Sr. Filipe aos fatos mencionados, essa informação não procede nos termos em que foi apresentada, segundo os elementos de que a defesa dispõe.

A defesa seguirá exercendo seu papel técnico dentro dos processos, utilizando os instrumentos previstos em lei para assegurar o respeito ao devido processo legal, ao contraditório, à ampla defesa e à presunção de inocência.

Guerra entre CV e Massa é travada na Grande Messejana desde 2021

A região que engloba os bairros Curió, José de Alencar, Messejana e Lagoa Redonda segue sendo a mais violenta de Fortaleza em 2026 no rastro da disputa entre as facções criminosas Comando Vermelho (CV) e Massa Carcerária. Somente entre as últimas segunda, 14, e quinta-feira, 17, três pessoas foram assassinadas na Grande Messejana.

Conforme dados da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS), em setembro, dos 12 homicídios registrados até o dia 18 na Capital, sete foram registrados na Área Integrada de Segurança (AIS) 16 , onde estão localizados Curió, Messejana e Lagoa Redonda.

Em todo o ano, a AIS 16 corresponde a 34,8% dos assassinatos registrados em Fortaleza — 71 dos 204 homicídios registrados até a última sexta-feira, 18.

Juntando os números da AIS 16 com os da AIS 19 — onde ficam Cajazeiras, Cambeba, José de Alencar e outros 13 bairros

— mais da metade (112) dos homicídios ocorridos na Capital foram registrados nessas duas regiões — ao todo, Fortaleza é dividida em 10 AIS.

CV e Massa estão em guerra nas AIS 16 e 19 desde 2021

Naquele ano, integrantes da facção carioca insatisfeitos com a cúpula da organização criminosa decidiram deixar o grupo, passando a se considerar “neutros” ou parte da “massa carcerária” — como são conhecidos os internos do sistema prisional que não aderem a facções.

Erramos: o levantamento identificou que Filipe Moreira de Oliveira é acusado por nove homicídios e não oito, como anteriormente publicado, enquanto Derromisson é acusado de oito assassinatos.

 

Fonte: O Povo