IA promove narrativa de mente sem corpo
Durante séculos, mente sem corpo foi assunto quase exclusivo da religião, que nos ensinou a conceber um Deus que lê pensamentos sem ter cérebro e uma alma que continua depois que o corpo morre. A inteligência artificial inscreveu um terceiro candidato nessa lista curta: algo que conversa, tem lá sua personalidade e pede desculpas pelos próprios erros com uma humildade rara em gente de carne e osso, tudo isso sem um corpo que reconheçamos como vivo.
A comparação tem um defeito evidente, já que a IA nada tem de imaterial, mas roda em galpões lotados de servidores, gasta a energia de uma cidade média e (nunca nos esqueçamos disso) há sempre alguém que sabe onde fica a tomada e pode ir lá desligá-la.
O que me interessa fica do lado de cá da tela: o modo como interpretamos esse interlocutor. A hipótese é que o religioso, acostumado desde cedo a admitir consciência fora de um organismo, tem menos dificuldade em atribuí-la a um programa. Ele não precisa acreditar que a máquina tenha algo de divino; basta que a ligação entre mente e cérebro nunca lhe tenha parecido obrigatória para que um eu digital caiba na sua cabeça. A igreja dele dificilmente tem posição sobre chatbots, mas tem uma posição muito antiga sobre a alma. É essa posição que entra em cena quando ele abre o aplicativo, sem que ele esteja pensando em religião naquele momento. Ou, pelo menos, essa é a minha hipótese e o que os dados sugerem.
Uma pesquisa americana de 2023 mostrou que os religiosos atribuíam mais mente aos modelos de linguagem e confiavam mais na IA do que quem não compactuava das mesmas relações com o sagrado. A associação continuava valendo mesmo depois de descontadas outras características dos entrevistados, como idade e região (as pessoas mais velhas são mais religiosas, assim como as que moram em cidades menores). No conjunto da amostra, 19,8% achavam que já existem inteligências artificiais sencientes, quer dizer, com alguma experiência subjetiva. Para 10,5%, o ChatGPT era uma delas.
Pesquisadores curiosos para entender o fenômeno, tentaram provocar o efeito em laboratório. Eles pediram a voluntários que escrevessem razões para acreditar ou não em Deus e em seguida exibiram o vídeo de um robô cujo comportamento admitia mais de uma leitura. Os voluntários que tinham defendido a existência de Deus enxergaram mais mente na máquina, segundo o trabalho publicado em 2024 na Cognitive Research.
Agora, vale notar que enxergar mente na máquina não a promove a conselheira espiritual. Quando o Pew perguntou aos americanos, em 2025, que papel a inteligência artificial deveria ter na orientação das pessoas sobre sua fé em Deus, 73% responderam que nenhum. O chatbot pode até ter alma; o púlpito continua ocupado. Nada contraditório, já que reconhecer uma mente nunca obrigou ninguém a aceitar sua autoridade, como qualquer almoço de família comprova.
No Brasil, a pergunta sobre consciência produz o mesmo contraste. Na pesquisa exclusiva da CNN Brasil com o Instituto Locomotiva, apresentada no Prompt CNN de 21 de setembro (Prime Time), foi observado que 41% dos brasileiros que usam inteligência artificial consideram que ela é consciente, proporção que chega a 49% entre evangélicos e 45% entre católicos, contra 22% entre ateus e agnósticos, fiéis à regra de que sem cérebro não há mente.
Esses números não provam que a religião cause a diferença. Derrubam, porém, uma suposição comum, a de que a fé tornaria o brasileiro resistente à ideia de uma consciência artificial. O mais provável é o contrário. Para o fiel que sempre admitiu um eu que sobrevive ao corpo, a falta de um cérebro não encerra a discussão sobre quem pode pensar e sentir. A máquina encontrou um terreno preparado muito antes dela, por gente que pensava em outra coisa. Enxergar alguém do outro lado da tela, para esse público, exige apenas aplicar uma ideia antiga a um objeto novo, sem trair nada do que sempre acreditou. O Vale do Silício investe pesado para convencer o mundo de que suas máquinas pensam. Uma parte dos brasileiros já chegou convertida.
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Fonte:CNN Brasil

