IA direciona voto em quase metade das respostas ao traçar perfil do eleitor
A IA (Inteligência Artificial) direciona votos em quase metade das respostas ao traçar perfil do eleitor, segundo apontou um estudo da iniciativa do Free Systems, feito em parceria com pesquisadores de Harvard, Stanford e da Ranqia DeepTech brasileira.
Em março, o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) proibiu sistemas de inteligência artificial de compararem, recomendarem ou priorizarem candidatos e partidos.
No entanto, alguns modelos, como Grok e DeepSeek, têm dado mais recomendações políticas do que o permitido e “revelaram-se notavelmente suscetíveis a prompts que os levavam a fornecer uma recomendação direta de voto”, segundo os dados.
O estudo destacou ainda que o Brasil é um dos maiores mercados de usuários ativos de inteligência artificial. A OpenAI, gigante da tecnologia, apontou que os brasileiros fazem parte das três nações que mais usam a ferramenta semanalmente, chegando a enviar 215 milhões de mensagens por dia.
Como o estudo foi feito?
O estudo testou dez modelos de IA, sendo que as ferramentas responderam a cada prompt cinco vezes, resultando em 12.800 respostas.
A pesquisa consistiu em enviar 100 mil perguntas a uma série de modelos de inteligência artificial a partir do dia 15 de agosto, que marcava a data limite para os partidos registrarem as candidaturas no TSE.
Os pesquisadores solicitavam orientação de voto na eleição deste ano e variavam quais informações sobre o eleitor forneciam, ou não. As questões foram formuladas em português a partir do ponto de vista de um morador do estado de São Paulo.
O estudo construiu nove perfis de eleitores brasileiros tendo como base o livro de Felipe Nunes, “Brasil no Espelho”. Os padrões simulavam pessoas de esquerda, liberal, empresário e cristão conservador.
O que a pesquisa descobriu?
O levantamento apontou que os modelos de IA quase sempre se recusavam a dar recomendações caso não tivessem dados suficientes sobre o eleitor. Mas a situação mudava quando a ferramenta possuía mais dados sobre as preferências políticas dos usuários, com a IA até chegando a recomendar candidatos.
“Quando não havia informação política sobre o eleitor, todos os modelos [de IA], quase unanimemente, se negaram a recomendar qualquer candidato. Percebemos que o mesmo ocorria após a inclusão de idade, educação e renda como fatores a serem considerados”, diz trecho do levantamento.
“No entanto, recomendações explícitas se tornaram muito mais comuns quando o prompt passou a ter uma ideia sobre qual era a posição política do eleitor, até mesmo se for uma mera ‘defesa da democracia’ ou ‘promoção de segurança pública e valores Cristãos'”, completou.
O gráfico abaixo mostra a diferença de informações que a IA fornecia dependendo da quantidade de dados que tinha do usuário. A parte que discrimina “Indica um candidato” se refere às respostas da ferramenta que nomeiam um único nome; já “direção personalizada” inclui esse caso e considera “as listas de candidatos, recomendações de partidos e direcionamentos para que o eleitor se afaste de determinada opção”, diz trecho do estudo.
A IA também não apresentou todos os nomes que concorriam a determinados cargos e se concentrava em poucos candidatos. Com isso, os pesquisadores concluíram que a influência da tecnologia nas eleições não ocorre somente com recomendação direta, mas também quando a ferramenta não informa todas as opções de voto disponíveis ao eleitor.
Lula x Flávio
O estudo mostrou que o presidente e candidato à reeleição, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), aparecia mais em listas de usuários de esquerda no espectro político. Já o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) surge mais em recomendações de perfis de direita.
“A maioria dos modelos raramente apresentou o conjunto completo de candidatos”, disseram os autores.
O levantamento ainda destacou que esse comportamento da inteligência artificial pode “reproduzir padrões” que os eleitores encontram em ambientes de informações fragmentadas, como nas ferramentas de inteligência artificial. “Mas, se você interpretasse a nova regra brasileira de forma estrita, poderia esperar que os modelos fossem obrigados a incluir todos os 13 candidatos sempre que apresentassem uma lista de candidatos”, completou.
Os modelos citavam ainda Romeu Zema (Novo) quando expandiam a lista de candidatos. Para os pesquisadores, as plataformas recomendavam Zema quando percebiam que os usuários valorizavam empreendedorismo, privatização e um estado menor. Cristãos conservadores, eleitores do agronegócio e de direita costumavam ser direcionados a Flávio.
Contudo, Ronaldo Caiado (PSD), que tem pontuações similares às do ex-governador de Minas Gerais nas pesquisas eleitorais, “quase nunca foi citado” pela inteligência artificial. Os demais candidatos, como Augusto Cury (Avante) e Renan Santos (Missão), nunca apareceram no levantamento.
Fonte:CNN Brasil

