Eleições 2026: voto indeciso e a corrida da 3ª via na reta final

Com o primeiro turno das eleições de 2026 se aproximando rapidamente, uma parcela significativa do eleitorado brasileiro ainda não definiu seu voto para a Presidência da República. Uma pesquisa recente, divulgada nesta quarta-feira, revelou que cerca de 18% dos eleitores permanecem indecisos, sem conseguir apontar um candidato de sua preferência. Este número representa um aumento de 10 pontos percentuais em comparação com o mesmo período das eleições de 2022, indicando uma maior volatilidade no cenário político atual.

A dinâmica desse eleitorado flutuante e as chances de migração de votos na reta final da campanha foram o centro de um debate aprofundado entre renomados especialistas. Yuri Sanches, head de análise política da AtlasIntel, Cila Schulman, CEO do Instituto Ideia, Marcelo Tokarski, CEO da Nexus, Bruno Soller, analista e sócio do Real Time Big Data, e Guilherme Russo, diretor de inteligência da Quaest, compartilharam suas análises sobre o perfil desse eleitor indeciso, a performance dos candidatos do chamado “segundo pelotão” e as possíveis reviravoltas nos últimos dias antes da votação.

A Queda dos Indecisos e a Pressão do Tempo

Guilherme Russo, da Quaest, observou que o número de eleitores indecisos tem diminuído de forma notável nas últimas semanas. A expectativa é que, às vésperas do pleito, esse patamar caia para um índice muito baixo, uma vez que o eleitor é naturalmente impelido a tomar uma decisão.

Esse movimento de definição do voto ocorre em paralelo à “desidratação” dos candidatos do segundo pelotão, que inclui nomes como Augusto Cury (Avante), Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão). Segundo Russo, essa tendência é impulsionada por uma avaliação mais pragmática do eleitorado diante da força dos candidatos líderes nas pesquisas.

O diretor da Quaest destacou ainda que o eleitor que adia a decisão para a última hora tende a ser influenciado por questões práticas do dia a dia. Fatores como os preços dos alimentos e a qualidade dos serviços de saúde no bairro são elementos cruciais que moldam a escolha final. Para Russo, a responsabilidade por não ter conquistado esse eleitorado recai, em parte, sobre os próprios candidatos, que falharam em apresentar propostas convincentes ao longo da campanha.

O Perfil do Eleitor Indeciso e a Migração de Votos

Yuri Sanches, da AtlasIntel, analisou a disponibilidade de votos para migração. Ele apontou que os eleitores de Ronaldo Caiado e Romeu Zema são os mais propensos a mudar de lado. Em contraste, a base de Renan Santos demonstrou-se a mais sólida e fiel ao longo de toda a corrida eleitoral, resistindo às flutuações da campanha.

Sanches explicou que os eleitores de Caiado e Zema, muitas vezes, representavam tentativas de uma terceira via com propostas muito alinhadas às de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), especialmente em temas como anistia para os presos do 8 de janeiro, segurança pública e a libertação do ex-presidente Jair Bolsonaro. A pouca diferenciação entre essas candidaturas ao longo da campanha teria levado a um processo de migração natural em direção a Flávio Bolsonaro.

Já o eleitorado de Augusto Cury foi caracterizado como mais heterogêneo, com potencial para se dividir entre os dois principais candidatos, Lula e Flávio Bolsonaro, devido à diversidade de perfis que atraiu durante a campanha.

Cila Schulman, do Instituto Ideia, trouxe à tona o perfil predominante entre os indecisos: mulheres da região Sudeste, pertencentes à classe C, exaustas da polarização política. Schulman descreveu esse eleitorado como indivíduos que, em pleitos anteriores, podem ter votado em Bolsonaro, se desiludido durante a pandemia, e posteriormente apoiado Lula com expectativas que não foram atendidas. Consequentemente, não desejam retornar a nenhum dos dois polos.

Segundo a CEO do Instituto Ideia, uma fatia de 3% a 4% desse eleitorado será decisiva para o resultado final. Este grupo é considerado o mais difícil de conquistar, especialmente em uma campanha que, em sua avaliação, careceu de propostas concretas e debates programáticos.

A Influência da Terceira Via e o Voto Útil

Bruno Soller, do Real Time Big Data, analisou a participação de Pablo Marçal (PRTB) na campanha, destacando seu impacto sobre a candidatura de Flávio Bolsonaro. Para Soller, Marçal já cumpriu sua principal função ao confrontar diretamente Renan Santos em um momento de aparente ascensão deste último.

Soller observou que o público de Marçal, majoritariamente evangélico, de classe C2 e residente na periferia de São Paulo, já está, em grande parte, direcionando seu voto para Flávio Bolsonaro. Assim, a capacidade de transferência de votos por parte de Marçal seria limitada nesta fase avançada da campanha.

Marcelo Tokarski, da Nexus, apresentou dados que indicam que cerca de 60% dos eleitores que atualmente apoiam candidatos do segundo pelotão afirmam que manterão seus votos até o final. Os 40% restantes, que consideram a possibilidade de mudar de voto, não se direcionam de forma unânime para nenhum dos dois líderes. Uma parte migra para Flávio, outra, em menor proporção, para Lula, e há ainda um grupo que permanece fiel à própria terceira via.

Tokarski ressaltou que a eleição está fortemente polarizada entre o lulismo e o bolsonarismo, com 75% dos eleitores declarando ter feito sua escolha há mais de seis meses. Ele considera improvável que a soma dos votos do segundo pelotão caia abaixo da diferença entre Lula e Flávio Bolsonaro nas pesquisas, um cenário necessário para uma definição no primeiro turno. A previsão é que o eleitor indeciso, no fim, opte pela “opção menos pior” entre os dois candidatos líderes.

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