Renan Santos: candidato à Presidência revela leituras de Mark Fisher e critica o capitalismo
O cenário político brasileiro ganha novas nuances com as declarações do candidato à Presidência pelo Partido Missão, Renan Santos. Em entrevista concedida neste sábado (3.out) ao podcast “Iron Talks”, Santos surpreendeu ao revelar suas influências intelectuais, citando o teórico cultural britânico Mark Fisher (1968-2017), conhecido por suas análises críticas ao capitalismo e sua ligação com a esquerda.
A discussão central girou em torno de como o sistema econômico molda profundamente hábitos, relações sociais e a percepção individual do mundo. A menção a Fisher, um autor póstumo, ressalta a busca do candidato por referências que aprofundem o debate sobre as transformações contemporâneas.
A Influência de Mark Fisher e o Realismo Capitalista
Ao abordar o aceleracionismo, corrente de pensamento que explora a intensificação das mudanças tecnológicas e econômicas impulsionadas pelo capitalismo, Renan Santos elogiou Fisher. “De esquerda você tem o Mark Fisher, que morreu, grande autor, leio ele”, afirmou o candidato, destacando a relevância do pensador em sua formação.
Mark Fisher, que lecionou no departamento de Culturas Visuais da Goldsmiths, Universidade de Londres, ganhou notoriedade com seu blog k-punk. Nele, o autor explorava a intersecção entre política, música, cultura popular e teoria crítica. Seu trabalho mais influente é o livro de 2009, “Realismo Capitalista: É Mais Fácil Imaginar o Fim do Mundo do que o Fim do Capitalismo?”.
A tese central do Realismo Capitalista é que o sistema capitalista transcendeu sua condição de modelo econômico dominante para se tornar a única realidade concebível. Fisher argumentava que décadas de hegemonia capitalista limitaram a capacidade humana de conceber alternativas políticas e econômicas viáveis, definindo-o como a percepção de que o capitalismo é o único sistema “realista”.
Renan Santos demonstrou concordância com essa perspectiva, afirmando que a lógica capitalista se estende além da economia, impactando instituições, cultura, trabalho e até a interpretação de questões pessoais. O candidato exemplificou, dizendo que o capitalismo “acabou com o jantar em família”, ao redefinir as relações humanas em função do capital. Ele também expressou preocupação com o futuro, alertando que “o capitalismo vai nos levar para a IA e para substituição dos humanos”.
Outras Referências Intelectuais e o Aceleracionismo
Além de Fisher, Renan Santos mencionou outras figuras importantes no panorama filosófico. Ele citou o filósofo britânico Nick Land, associado a uma vertente de direita do aceleracionismo. Anteriormente, o candidato já havia feito referência aos franceses Gilles Deleuze e Félix Guattari, autores de obras como “O Anti-Édipo” e “Mil Platôs”, como fontes para compreender as transformações capitalistas nas relações sociais.
É interessante notar que, embora frequentemente ligado ao marxismo, a trajetória intelectual de Mark Fisher também se cruza com o aceleracionismo. Nos anos 1990, ele fez parte do CCRU (Cybernetic Culture Research Unit) na Universidade de Warwick, um grupo que contava com pesquisadores como Nick Land e se dedicava a explorar as complexas relações entre capitalismo, tecnologia e cultura.
Partido Missão e a Comparação com o PT
Em outro ponto da entrevista, Renan Santos, que é presidente do Partido Missão após ajudar a fundá-lo em 2025, traçou um paralelo entre a gênese de sua sigla e a do PT (Partido dos Trabalhadores), liderado por Luiz Inácio Lula da Silva. Apesar de suas reiteradas críticas ao PT, o candidato vê semelhanças na formação de um projeto político protagonizado por jovens, que busca se estabelecer como uma alternativa às forças já consolidadas.
“O PT foi o projeto da geração boomer no Brasil. O PT foi o sonho de uma juventude”, declarou Santos, sugerindo que as comparações entre ele e Lula, ou entre o Partido Missão e o “novo PT”, surgem da percepção de que o surgimento de ambos os partidos se deu de forma similar. Ele ressaltou que, embora discorde “fundamentalmente” das ideias petistas, reconhece que o PT nasceu como um projeto “otimista sobre o Brasil”, capaz de mobilizar parte da classe média e da classe média baixa.
Para Renan Santos, o PT representa “o projeto partidário mais estruturado da história do Brasil”. Ele enfatizou a importância de compreender a organização do adversário como um passo fundamental para o enfrentamento político eficaz.
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