Análise: Desmatamento é pauta econômica para quem vencer a eleição
O Brasil reduziu o desmatamento e, ainda assim, viu o tema entrar numa sanção comercial. Para quem assumir o governo em 2027, a questão deixa uma agenda econômica concreta: sustentar os resultados ambientais, dar credibilidade à fiscalização e comprovar a origem da produção.
O Prodes consolidado do Inpe registrou 5.731 km² desmatados na Amazônia em 2025, queda de 12,1% sobre 2024. No ciclo seguinte, a área sob alerta do Deter caiu 36% na Amazônia; no Cerrado, apenas 7,8%.
O desmatamento cria uma externalidade. O ganho obtido ao abrir uma área de vegetação nativa para produção pode ficar concentrado; já a perda de mercados e o aumento das exigências podem se estender a todo um setor. Isso vale para o desmatamento ilegal e, diante de determinadas regras externas, até para conversões permitidas pela legislação brasileira.
Nos Estados Unidos, a investigação da Seção 301 incluiu o desmatamento ilegal entre seis temas e terminou, em julho, com tarifa adicional de 25%. Segundo a CNA, 36,5% das vendas do agro aos EUA, cerca de US$ 4,6 bilhões em 2025, ficaram sujeitas à sobretaxa. O Brasil contestou a avaliação e apontou a queda do desmatamento e o reforço da fiscalização. Dados confiáveis fortalecem a defesa brasileira, mas não eliminam uma decisão de natureza política.
Na União Europeia, a relação é mais direta. O bloco comprou US$ 25,2 bilhões do agro brasileiro em 2025. A partir de 30 de dezembro de 2026, produtos abrangidos pelo regulamento europeu contra o desmatamento precisarão comprovar origem, legalidade e ausência de conversão de floresta após 31 de dezembro de 2020.
O Brasil permanece classificado como país de risco padrão. Nessa categoria, autoridades europeias devem verificar ao menos 3% dos operadores, ante 1% nos países de baixo risco. A Comissão havia previsto uma revisão das classificações em 2026; até agora, o Brasil permanece na mesma categoria. A próxima avaliação poderá, portanto, alcançar já o governo que tomar posse em janeiro.
O desempenho ambiental brasileiro pode afetar custos de acesso ao mercado também para empresas sem relação direta com um desmatamento específico.
O Cerrado acrescenta outro dilema. Uma conversão pode ser legal no Brasil e ainda tornar determinada produção incompatível com a regra europeia. Fiscalização, Cadastro Ambiental Rural e rastreabilidade identificam origem e legalidade, mas não eliminam essa diferença entre o que a legislação brasileira permite e o que alguns compradores aceitam.
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Preservar além do mínimo legal tem custo. Pagamento por serviços ambientais, crédito diferenciado ou prêmio comercial podem ajudar a remunerá-lo.
A China, que comprou US$ 55,3 bilhões do agro brasileiro em 2025, não aplica regra ambiental ampla equivalente. Há espaço para segmentação, embora tradings globais precisem administrar cadeias submetidas a padrões distintos.
A Moratória da Soja, acordo privado que vetava a compra de soja cultivada em áreas da Amazônia desmatadas após 2008, mostrou essa tensão. Após Mato Grosso condicionar incentivos fiscais à não participação em acordos privados que restrinjam produção legalmente autorizada, a Abiove e grandes tradings deixaram o pacto coletivo, afirmando que manteriam políticas ambientais próprias.
Treze varejistas europeus cobraram garantias adicionais e disseram que seus critérios permaneceriam. Entre as empresas acionadas estava a Cofco International, controlada pelo grupo estatal chinês Cofco. O próximo governo terá diante de si uma escolha econômica mais ampla do que simplesmente fiscalizar melhor. Será preciso sustentar a queda do desmatamento, melhorar a prova de origem e decidir como remunerar conservação além do mínimo legal — ou admitir que parte da produção terá menos mercados disponíveis.
O segundo turno de 25 de outubro definirá quem administrará essa agenda a partir de 2027. Num comércio cada vez mais condicionado por critérios ambientais, reduzir o desmatamento e comprovar a origem da produção passaram a fazer parte da própria estratégia de acesso a mercados.
Fonte:CNN Brasil

