América do Sul precisa de união estratégica para se firmar no cenário global
A América do Sul, apesar de suas vastas vantagens econômicas, não conseguiu consolidar um projeto comum para sua inserção no cenário mundial. Essa é a análise de Alberto Pfeifer, coordenador-geral do grupo de Defesa, Segurança e Inteligência da USP (Universidade de São Paulo), que aponta a falta de uma agenda coesa de integração regional como o principal entrave para que os países do continente ganhem peso estratégico internacional.
Segundo o especialista, a região se especializou na exploração de recursos naturais, energia, petróleo, gás, minérios e agricultura, onde possui vantagens comparativas significativas. Exemplos claros são o minério de ferro no Brasil e o cobre no Chile e Peru, que impulsionam suas economias. Contudo, essa especialização, embora economicamente vantajosa, não se traduziu em uma força política e estratégica unificada capaz de projetar a região globalmente.
Vantagens econômicas versus desafios estratégicos
O Brasil, em particular, foi além das vantagens comparativas e desenvolveu vantagens competitivas, dominando a chamada “tecnologia tropical” e se tornando o principal exportador de commodities do planeta. Para Pfeifer, do ponto de vista da racionalidade econômica, a região agiu corretamente ao focar em suas forças e desenvolver esses setores.
Contudo, o problema reside na dimensão político-estratégica. “Ficou faltando a concepção de um plano de inserção e um plano de integração. Já que todos têm vantagens em commodities, vamos nos unir e jogar isso em relação ao mundo”, explica o coordenador. Sem essa união, a América do Sul permanece vulnerável e dependente de lógicas tecnológicas que não lhe são favoráveis. Os países sul-americanos são, em sua maioria, importadores de tecnologia, de produtos de alto conteúdo tecnológico, de manufaturas e de serviços, o que aprofunda sua defasagem global, especialmente em um cenário onde a escalada dos preços das commodities perdeu força.
Histórico de tentativas de integração regional
A busca por uma integração regional não é recente, mas as iniciativas realizadas ao longo de mais de 50 anos não produziram os resultados esperados para uma inserção global efetiva. Alberto Pfeifer relembra que o Mercosul, por exemplo, teve um período de funcionamento eficaz por cerca de dez anos, na década de 1990, mas não conseguiu sustentar seu ímpeto e se aprofundar em uma agenda estratégica comum.
Outra tentativa foi a Aliança do Pacífico, uma resposta de países como México, Chile, Peru e Colômbia, mais alinhados aos Estados Unidos e à Ásia, que buscavam maior interlocução com o continente asiático. Essa iniciativa também não prosperou como esperado, na avaliação do especialista, demonstrando a complexidade de se estabelecer e manter blocos regionais coesos na região.
Alternância de poder e a busca por um fio condutor
A principal causa para a falha nas tentativas de integração, segundo Pfeifer, é a constante alternância de poder e de visões políticas dentro de cada país. “Representa seccionamento de encaminhamento estratégico. Nós não temos um fio condutor”, afirma, destacando a dificuldade em manter uma visão de longo prazo e um projeto contínuo que transcenda governos e ideologias.
Como um possível caminho para superar essa fragmentação, o coordenador aponta a segurança como um “fio condutor”, embora reconheça que sua natureza é mais defensiva. Ele explica que essa pauta é “mais negativa do que positiva, porque nós não estamos propondo uma agenda de criação de valor, estamos propondo uma agenda de contenção de destruição de valor”. No entanto, a segurança pode se tornar uma agenda positiva e unificadora se responder ao anseio comum das populações da região, resultando no combate e eliminação do crime organizado transnacional, o que poderia, de fato, unir os países em um propósito comum e fortalecer sua posição no cenário internacional.
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