Petróleo: AIE projeta queda acentuada na demanda global e alerta para oferta frágil em 2026

A demanda global por petróleo deve enfrentar uma retração mais acentuada do que o previsto em 2026, conforme alertado pela AIE (Agência Internacional de Energia). O cenário é complexo, influenciado por fatores como o conflito com o Irã, o encarecimento dos combustíveis e a deterioração das perspectivas econômicas globais. Essas pressões combinadas criam um ambiente de incerteza para o mercado energético, com impactos que se estendem por toda a cadeia de suprimentos.

Em seu relatório mensal mais recente, divulgado nesta quarta-feira, a AIE revisou suas projeções, estimando agora uma queda média de 2,6 milhões de barris por dia (bpd) no consumo global para este ano. A estimativa anterior apontava para uma retração de 2,5 milhões de bpd, indicando um agravamento das expectativas. Para o quarto trimestre, a agência prevê um recuo de 2,5 milhões de bpd em comparação com o mesmo período do ano anterior, sinalizando um período de menor consumo.

Projeções de demanda: um cenário desafiador para 2026

Mesmo com a expectativa de queda na demanda, o mercado de petróleo deve permanecer em déficit até o final do ano. Essa situação é impulsionada principalmente por restrições na oferta de derivados médios, com destaque para o diesel, um combustível essencial para diversos setores da economia global, desde o transporte de cargas até a geração de energia em áreas remotas.

A AIE enfatiza que o diesel será responsável por aproximadamente 25% da queda total da demanda em 2026. A disponibilidade global do produto continua sob forte pressão, o que pode gerar impactos significativos em cadeias de suprimentos e custos de transporte em todo o mundo. A escassez e o aumento dos preços do diesel são reflexos diretos das dinâmicas atuais do mercado, agravadas por gargalos na produção e distribuição.

Oferta global sob pressão e o papel dos conflitos

No que diz respeito à oferta, a AIE descreve a recuperação como “frágil”. Novos ataques à infraestrutura energética e ao tráfego de petroleiros no Golfo Pérsico continuam a gerar instabilidade e a ameaçar a capacidade de produção e distribuição. Esses incidentes geopolíticos adicionam uma camada de risco considerável ao panorama global de energia, afetando a confiança dos investidores e a estabilidade dos preços.

Apesar da fragilidade, a oferta global registrou um aumento de 2,5 milhões de bpd em setembro em relação a agosto, atingindo 102,3 milhões de bpd. Esse crescimento foi impulsionado principalmente por produtores do Golfo. Os países da Opep+ contribuíram com ganhos de 2,1 milhões de bpd, liderados pela Arábia Saudita, enquanto os Emirados Árabes Unidos foram os principais responsáveis pelo aumento entre os produtores fora do cartel, demonstrando a capacidade de resposta de alguns players em meio à crise.

Contudo, a projeção para a média de 2026 indica uma queda na oferta global de 5,8 milhões de bpd, para 100,7 milhões de bpd. A expectativa é de que a oferta só volte a crescer em 2027, com um avanço de 7,7 milhões de bpd. A agência prevê apenas uma recuperação parcial da demanda no próximo ano, de cerca de 2 milhões de bpd, o que deixaria o consumo global em 2027 ainda 620 mil bpd (0,6%) abaixo do nível de 2025, evidenciando uma recuperação lenta e gradual.

Estoques em baixa e a turbulência nos preços

O relatório da AIE também aponta para um aperto nos estoques globais. Em setembro, os estoques observados recuaram 10 milhões de barris (mb), com uma queda de 113 mb nas reservas em terra, parcialmente compensada por um aumento no petróleo armazenado no mar. Ao final de setembro, os estoques globais estavam 509 mb abaixo dos níveis pré-guerra, e as reservas em terra atingiram os menores patamares desde pelo menos 2016, um sinal preocupante para a segurança energética.

No setor de refino, a AIE projeta que a carga global das refinarias atinja uma mínima sazonal de 81,3 milhões de bpd em outubro, antes de se recuperar para 84,6 milhões de bpd até o final do ano. Custos recordes de frete e do próprio petróleo têm comprimido as margens de refino na Europa e na Ásia, impactando a lucratividade das operações. Em contraste, nos Estados Unidos, a utilização de matérias-primas com desconto impulsionou as margens a níveis inéditos, criando uma disparidade regional.

O documento destaca ainda a disparada dos preços no mercado físico, com o Dated Brent, referência do Brent no mercado spot, avançando US$ 26,17 por barril em setembro, para US$ 116,89. Esse aumento foi uma resposta direta à retomada das hostilidades no Oriente Médio e às compras aceleradas por refinarias asiáticas. A AIE avalia que, sem uma solução para os conflitos, o mercado pode enfrentar mais turbulência nos próximos meses, antes que um eventual superávit se materialize em 2027, mantendo a volatilidade como característica dominante.

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