Curta cearense sobre fim da escala 6×1 volta a repercutir após aprovação: ‘Filme-profecia’

Gravado em três dias, sem recursos de editais e construído de maneira coletiva e urgente, o curta-metragem cearense “6X1”, do cineasta Wes Maria, foi disponibilizado gratuitamente no YouTube em maio deste ano, em meio a manifestações a favor da pauta que previa duas folgas semanais ao trabalhador.

Cinco meses depois, com a aprovação da Proposta de Emenda à Constituição que concede mais descanso e reduz a jornada de trabalho, o que era “filme-manifesto” se converteu em “filme-profecia”, redefine o diretor, roteirista, produtor e montador da obra.

Desde a disponibilização inicial, o curta já ultrapassou 100 mil visualizações em diferentes plataformas e chegou ao conhecimento da ministra da Cultura Margareth Menezes. Pela sinopse oficial, o filme acompanha Silva, que passa a ter delírios frutos da fadiga física e mental causadas pela escala 6×1.

CURTA É FRUTO DE PROJETO AINDA EM DESENVOLVIMENTO
O assunto já estava no escopo de interesses de Wes porque um dos projetos futuros dele é o curta “Troca de Turno”, que encerrará uma trilogia iniciada com “Aquele que Veio do Oeste” (2022) e “Ponte Metálica” (2024).

“Decidi escrever o roteiro de ‘6X1’ a partir de questões que já seriam abordadas em ‘Troca de Turno’, especialmente a exaustão provocada pela jornada de trabalho 6×1, o burnout e outras complexidades que atravessam a vida dos trabalhadores”, aponta.

O filme-manifesto, então, se configura como “obra que nasce de um projeto ficcional ainda em desenvolvimento, encontra uma mobilização social concreta e passa a circular como instrumento de reflexão coletiva”.

CONCEPÇÃO, GRAVAÇÃO E LANÇAMENTO EM MENOS DE UM MÊS
Ao tomar ciência de um ato que ocorreria a favor do fim da 6×1 na Beira-Mar de Fortaleza, em 4 de maio, o cineasta decidiu que iria à manifestação para registrar o momento como documentação e, também, pesquisa para o futuro projeto.

Com roteiro escrito poucos dias antes, Wes juntou uma equipe aguerrida com a proposta de filmar imagens da manifestação e, depois, gravar cenas complementares no Pirambu, onde mora.

Os créditos de “6X1” incluem Wes Maria (direção, roteiro, produção e montagem), Brunu Kunk (atuação), Felipe Bruno (assistência de direção e atuação), Naya Oliveira (direção de fotografia), Pretodavinci (direção de som, trilha sonora e mixagem), Erika Miranda (direção de arte), Gabriel Sousa (foto drone, dublê e ator), Pamila Luik (still) e Ermo Felipe (efeitos especiais).
Ao todo, foram três dias de filmagens e uma semana de montagem. “Em 20 de maio, o curta foi disponibilizado gratuitamente na internet, com o objetivo de conscientizar, provocar reflexões e fomentar o debate sobre o fim da escala 6×1”, afirma.

“FAZER CINEMA A PARTIR DA URGÊNCIA DO PRESENTE”
Desde o início, “6X1” foi apresentado ao público como um “filme-manifesto”. “Para mim, trata-se de utilizar o cinema como expressão, provocação e ferramenta de transformação social, fazendo uso dos equipamentos e recursos disponíveis para comunicar nossas inquietações”, define.

O tempo para uma obra audiovisual ser produzida e então chegar ao público costuma ser longo, com a espera de captação de recursos, pré-produção, filmagens, pós-produção, circulação geralmente no circuito de festivais e, então, a estreia.

Em “6X1”, no entanto, o caminho foi outro. “(Ele) representou a possibilidade de fazer cinema a partir da urgência do presente”, aponta Wes. “Para mim, essa é a força do cinema independente: transformar aquilo que temos em expressão e utilizar nossas imagens para provocar a sociedade”, sustenta.

A ideia de filme-manifesto parte justamente dessa gênese do curta, feito de maneira independente, com os recursos disponíveis e tomando posição em uma discussão social corrente.

“IMAGINAR OUTROS CENÁRIOS POSSÍVEIS”
A conversão em “filme-profecia”, aprofunda o diretor, não se dá puramente pela concretização do fim da escala 6×1, mas sim pelo uso do audiovisual como ferramenta que, mais do que representar a realidade, busca interferir nela.

“Quando passo a falar da obra também como um filme-profecia, não quero dizer que o cinema seja capaz de prever literalmente o futuro, mas que pode identificar os sinais do presente, evidenciar suas contradições e imaginar outros cenários possíveis”, defende.

Com o fim da escala, inclusive, Wes compreende que o curta ganha “novos sentidos”. “Isso demonstra como uma obra audiovisual pode dialogar com seu tempo e continuar provocando reflexões à medida que a realidade se transforma”, ressalta.

“Para mim, o cinema não precisa esperar que a história aconteça para se posicionar; ele pode participar dela, registrando as lutas do presente e contribuindo para que determinadas pautas alcancem mais pessoas”, avança o cineasta.

O cinema pode e deve se aproximar das discussões sociais e políticas com liberdade, responsabilidade e compromisso com aquilo que deseja comunicar. Não necessariamente para apresentar respostas definitivas, mas para provocar perguntas, gerar identificação e abrir espaço para outras perspectivas. ‘6X1’ é fruto dessa compreensão: fazer cinema com o que temos, sobre o que vivemos e em favor dos futuros que queremos construir
Wes Maria-cineasta

DESENVOLVIMENTO DA TRILOGIA E MAIS PROJETOS
Formado pela Escola de Audiovisual da Vila das Artes, Wes é diretor e fundador da produtora independente Sétima Ilha, responsável pela produção de “6X1” e dos outros filmes assinados por ele.

Atualmente, a produtora atua na distribuição do curta “Era o Meu Sonho”, dirigido e roteirizado por Felipe Bruno e com produção da Sétima Ilha e da Vila das Artes. Além disso, ele irá atuar como colaborador na escrita do novo longa do cineasta David Aguiar (“Currais”).

Entre projetos próprios, prioriza a realização de “Troca de Turno”, que aguarda ferramentas como editais para concretização, para finalizar a trilogia assinada por ele.

“Os dois primeiros filmes da trilogia foram produzidos de maneira independente, dentro de uma proposta de crescimento artístico e narrativo a cada novo lançamento. Agora, quero dar ao terceiro filme as condições de produção que ele exige”, afirma.

Com a conclusão da trilogia, adianta, pretende “jogar no liquidificador” as três histórias para criação de um futuro longa. Silva, protagonista de “6X1”, por exemplo, é o mesmo personagem de “Ponte Metálica”.

“Quero reunir os universos, as questões e os personagens que venho construindo ao longo desses anos e transformar essa experiência no meu primeiro longa-metragem como diretor. Para mim, cada filme é uma etapa de um percurso maior, e tenho interesse em descobrir como essas histórias podem continuar existindo e se transformando umas nas outras”, finaliza.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fonte:CNN Brasil