Caso ‘Casa da Morte’: júri condena dupla pela morte de adolescente em Iguatu
O Tribunal do Júri de Iguatu, no Centro-Sul do Ceará, condenou nessa terça-feira (3) Roberto Alves da Silva e Desiree Dantas pela morte de Ane Jaqueline da Silva, de 17 anos. Foi o último dos quatro júris do caso que ficou conhecido como “Casa da Morte”, e os dois réus foram condenados em todos.
Roberto recebeu pena de 24 anos, 7 meses e 10 dias de reclusão. Desiree foi condenada a 28 anos e 10 meses de reclusão, mais 2 anos de detenção pelo vilipêndio a cadáver. As duas penas começam em regime fechado. A sessão, presidida pelo juiz João Mackson Bastos de Oliveira, começou às 9h20, e a sentença foi lida às 17h54, mais de oito horas e meia depois.
Os jurados condenaram os dois por homicídio qualificado, por motivo torpe e por recurso que dificultou a defesa da vítima, além de ocultação de cadáver e corrupção de menores, já que, segundo a acusação, um adolescente participou do crime. Desiree, a única que respondia também por vilipêndio a cadáver, foi condenada por esse crime. Nenhum dos réus foi absolvido de qualquer acusação, e a pena de Desiree é a maior que ela recebeu nos quatro processos.
Desiree Dantas é uma mulher trans e aparece nos processos com o nome de registro, Gleudson Dantas Barros.
O adolescente apontado pela acusação como participante das mortes tirou a própria vida em 2018, logo após a prisão de Roberto e Desiree.
O DESAPARECIMENTO
Ane Jaqueline foi vista pela última vez em Deputado Irapuan Pinheiro numa sexta-feira, 30 de junho de 2017. Tinha dito à família que ia passar o fim de semana na casa de uma amiga. A mãe, Cícera Gerlandia da Silva, registrou o desaparecimento quatro dias depois. Os restos mortais da adolescente só foram encontrados quase onze meses mais tarde, em 30 de maio de 2018, enterrados num dos quartos de uma casa no Sítio Canto.
A casa era de Roberto. A polícia tinha chegado lá uma semana antes, em 23 de maio de 2018, quando procurava o estudante Jheyenderson de Oliveira Xavier, o Jhey, de 24 anos, encontrado morto no mesmo sítio. Depois disso, a investigação ligou ao lugar outras três mortes: a de Ane Jaqueline, a de Mikael de Souza Melo, de 18 anos, e a de Francisco de Assis de Lima, conhecido como Vilmar.
Na leitura da sentença, estavam no salão do júri estudantes de Direito, alguns moradores da cidade e parentes dos réus. A família de Ane acompanhou o julgamento por videoconferência e não esteve no plenário. A reportagem tentou falar com os parentes da adolescente depois do julgamento, mas ainda não conseguiu contato.
O QUE DISSE A ACUSAÇÃO
Segundo a denúncia do Ministério Público, de agosto de 2018, Ane tinha um namoro com o adolescente e foi convidada por ele para ir ao sítio. Ainda conforme o MP, Roberto, Desiree e o adolescente contrataram um primo de Roberto para buscá-la de carro em Irapuan Pinheiro. Ela foi com o grupo achando que passaria o fim de semana no sítio. Para a acusação, a morte já estava planejada.
Ane foi morta no mesmo dia em que desapareceu, com um tiro na cabeça. Para a Promotoria, o motivo foi torpe: a denúncia afirma que o grupo fazia “rituais” na casa para conseguir dinheiro e que o lugar “ficou conhecido posteriormente como ‘casa da morte’”. Pela ordem das datas, Ane foi a primeira das quatro vítimas.
O promotor Carlos Eduardo Pinho Bezerra de Menezes, titular da 1ª Promotoria do Júri de Iguatu, disse que o resultado foi diferente do dos julgamentos anteriores. “Hoje o Conselho de Sentença entendeu por bem acolher todas as teses do Ministério Público e afastar todas as teses defensivas”, afirmou. Os jurados rejeitaram os dois pedidos de redução de pena feitos pelas defesas.
Segundo o promotor, o motivo torpe ficou caracterizado porque, para a acusação, as mortes tinham como objetivo fazer os réus conseguirem bens e ganharem na loteria. Ane também não teve chance de se defender, de acordo com ele, porque estava sentada, com os olhos vendados, e foi atingida pelas costas. O promotor considerou a pena “justa”.
No plenário, ele disse que a Justiça tardou nesse caso, mas não ia falhar. Depois do júri, voltou a falar da demora. “O crime contra a Jaqueline se deu em 30 de junho de 2017. E hoje, quase dez anos depois, é que a família vai ter uma sentença da Justiça dos homens”, disse. “Infelizmente, não podemos devolver as vítimas aos seus familiares, mas pelo menos uma parte da Justiça foi feita na data de hoje.”
O QUE DISSERAM AS DEFESAS
Na audiência de instrução do processo, em janeiro de 2019, os dois réus negaram ter matado a adolescente. Roberto disse ao juiz que quem atirou foi o adolescente. Na polícia, em 2018, segundo a denúncia, ele tinha assumido o disparo. Desiree disse que só soube da morte de Ane depois e negou ter participado.
No plenário, a defesa de Roberto não negou o crime. O defensor público Márcio de Vieira Leite Maranhão disse concordar “em 90%” com o Ministério Público e lembrou que Roberto é réu confesso, mas sustentou que ele deveria ter tido a pena reduzida por ter colaborado com a investigação. “O senhor Roberto colaborou de forma efetiva para as investigações”, afirmou.
Segundo o defensor, o próprio delegado que conduziu o inquérito reconheceu essa colaboração durante a instrução do processo. A defesa já recorreu por causa disso. “Efetivamente, ele colaborou. Foi o único que colaborou”, disse. No júri do caso Jhey, em 2025, os jurados reconheceram a colaboração de Roberto.
A defesa de Desiree também vai recorrer. O defensor público Aluizio Jácome de Moura Júnior, da 2ª Defensoria Criminal de Iguatu, atuou por ela nos júris dos quatro casos. Desta vez, pediu a absolvição ou, em caso de condenação, o reconhecimento de participação de menor importância. Os jurados recusaram os dois pedidos. No recurso, ele disse que vai contestar o cálculo da pena e a condenação por vilipêndio a cadáver, que considera “bem destoante, inclusive do depoimento do outro réu, que disse que não houve o vilipêndio”.
Para o defensor, a pena foi “muito alta” e destoa das aplicadas nos outros julgamentos. “Era um julgamento que tinha certo simbolismo maior, por conta de algumas questões religiosas, das condições da vítima, das condições do corpo”, afirmou. Segundo Aluizio Jácome, “se criou mesmo uma atmosfera na sociedade de que essas pessoas tinham que ser condenadas, mesmo que outras provas falassem o contrário”. Ainda assim, ele disse que é preciso “respeitar e aceitar com serenidade o resultado”, por causa da soberania dos jurados.
AS OUTRAS MORTES
Roberto e Desiree já tinham sido condenados pelas outras três mortes. O júri do caso Mikael foi em 2023 e, depois de recurso, as penas ficaram em 15 anos, 5 meses e 15 dias para Roberto e 17 anos e 6 meses para Desiree.
No caso Jhey, o primeiro júri, de 2021, foi anulado pelo Tribunal de Justiça do Ceará. No novo julgamento, em fevereiro de 2025, os dois foram condenados. Com o recurso, as penas ficaram em 13 anos e 4 meses de reclusão, mais 10 meses de detenção, para Roberto, e em 17 anos, 10 meses e 17 dias para Desiree.
Antes deste, o júri mais recente tinha sido o de Vilmar, em 9 de outubro deste ano. Francisco de Assis de Lima saiu de casa para uma caminhada na noite de 1º de dezembro de 2017 e foi morto a tiros. Segundo a acusação, o corpo foi escondido numa área de mata, e o crânio foi usado depois em “rituais”.
Os jurados reconheceram o motivo torpe e o recurso que dificultou a defesa da vítima e condenaram os dois também por ocultação e vilipêndio de cadáver e por corrupção de menores. Roberto recebeu 25 anos, 11 meses e 15 dias, e Desiree, 17 anos e 11 meses de reclusão.
PODCAST SIGILO QUEBRADO
Os quatro casos ligados ao Sítio Canto são o tema da nova temporada do Sigilo Quebrado, o podcast da editoria de Segurança do Diário do Nordeste. “Casa da Morte: quatro vidas em Suassurana” estreia em novembro, em todos os tocadores de podcast.
Se você está passando por um momento difícil, o Centro de Valorização da Vida (CVV) atende de graça, 24 horas por dia, pelo telefone 188 e pelo site cvv.org.br.
Fonte:Diário do Nordeste

