A crise é do país ou dos homens brancos?

O Brasil assistiu, nesta semana, a mais um capítulo triste e melancólico da sua própria falência moral. Não foi apenas uma crise do Judiciário. Foi o Judiciário despencando no colo da política e da campanha presidencial, arrastando toga, banco, delação premiada, relator e defensor para o mesmo lamaçal. E o país, atônito, viu a Justiça virar espetáculo, o processo virar roteiro e a democracia virar refém de despachos.

O que mais choca não é o enredo. É o elenco. Num país onde 56% da população é negra, onde 28% desse total são mulheres negras, onde o maior contingente demográfico é justamente de mulheres negras, onde se vende ao mundo a fábula de que somos o país mais diverso e miscigenado do planeta, a crise tem uma cor e um sexo muito bem definidos. Ela é branca e masculina. Do banqueiro aos seus comparsas, do julgador ao defensor, do relator ao delator, todos homens brancos. É o país dos homens brancos gerindo, como sempre geriu, a sua própria crise.

Isso nos obriga a uma pergunta incômoda e necessária: onde estão os negros e as mulheres neste país? Ou somos dotados de uma conduta divina, imaculada, incapaz de corrupção, o que explicaria nossa ausência nos esquemas, ou a resposta é muito mais cruel e pedagógica. Nós não estamos na crise porque nunca nos deixaram chegar ao centro do poder, onde a crise é fabricada.

Não roubamos o cofre porque nunca soubemos nem onde ele se encontra. Não julgamos, não delatamos, não defendemos banqueiros, porque o sistema judiciário e financeiro deste país foi desenhado para manter os privilégios dos homens brancos.

E é aí que reside o fator pedagógico dessa semana vergonhosa. A crise escancarou o que denunciamos há mais de 30 anos: o Brasil é um país de maioria negra governado, julgado e saqueado por uma minoria branca desde sempre. Enquanto mulheres negras seguram este país nas costas, trabalhando, parindo, educando e resistindo, homens brancos de ternos caros decidem no tapetão o futuro da nação. É o apartheid à brasileira, sofisticado, engravatado, com verniz de legalidade.

A crise desta semana não é uma anomalia, é o retrato fiel do país dos homens brancos. E enquanto mulheres e negros continuarem alijados dos centros reais de decisão, o Brasil continuará sendo o que vimos esta semana: um país rico, diverso e imenso, administrado como um clube privado, branco, masculino e decadente.

Fonte:CNN Brasil