Os acidentes de trânsito são a segunda maior causa de mortes externas no Ceará, atrás apenas dos homicídios. Dados da Secretaria da Saúde (Sesa) apontaram para uma taxa de 16 óbitos no trânsito e 36 vítimas de homicídio a cada 100 mil habitantes do Estado em 2025.
As estatísticas fazem parte do boletim epidemiológico “Mortalidade por Acidentes de Transporte no Estado do Ceará, 2010 – 2025”, divulgado pela Sesa no mês de julho passado. O documento ainda apresenta as mortes por causas indeterminadas, demais causas externas, suicídios e quedas não intencionais como motivos recorrentes de mortes no Estado.
Taxa de mortalidade por diferentes tipos de óbito no Ceará:
Apesar de ainda ser o segundo mais prevalente, o documento mostra redução do número de acidentes de trânsito ao longo da série histórica. Em 2010 foram contabilizados 2065 sinistros, enquanto em 2025 esse número caiu para 1943.
Para o docente do Departamento de Engenharia de Transportes da Universidade Federal do Ceará (UFC), Flávio Cunto, essa redução é consequência de políticas públicas de fiscalização e prevenção aos acidentes no Ceará.
O especialista alerta, entretanto, para a necessidade de intensificação dessas medidas, a fim de frear o avanço recente dos acidentes de trânsito no Ceará, em especial no período pós-pandemia.
“De 2014 até 2020 nós tivemos políticas um pouco mais ativas na segurança viária, principalmente com foco na fiscalização e controle de velocidade. Isso tanto em rodovias quanto em áreas municipais. […] De 2020 para cá, tem um discreto aumento. É um indício de que as coisas parecem estar estagnadas. A gente precisa rever a política atual para reforçar onde precisamos mais”, afirma o doutor em Engenharia de Transportes.
Segundo o diretor de educação do Departamento Estadual de Trânsito (Detran-CE), Jorge Trindade, uma das principais dificuldade em se avançar na fiscalização e implementação de políticas é a ausência de Departamentos Municipais de Trânsito (Demutrans) nas cidades cearenses.
Dos 184 municípios do Estado, 92 não possuem Demutrans, o que dificulta o acompanhamento dos condutores no dia a dia das localidades, em especial no Interior.
“Infelizmente 92 municípios estão precisando se sensibilizar para a criação desse órgão. Isso faz com que nesses outros municípios apenas o órgão estadual de trânsito, a Polícia Rodoviária Estadual, o Detran, tenham um poder de fiscalização. Essa ausência da integração sistema nacional de trânsito causa situações como a falta do uso do capacete que é recorrente no interior do Estado”, acrescenta.
Interior do Estado concentra maior taxa de mortes em acidentes de trânsito
Os dados divulgados pela Sesa apontam o interior do Ceará como localidade onde os acidentes de trânsito costumam ser mais fatais.Nas regiões Norte e Leste, por exemplo, concentram as maiores taxas de mortalidade por acidente de trânsito, com respectivamente 32,1 e 30,8 óbitos a cada 100 mil habitantes. Segundo o também professor do Departamento de Transportes da UFC, Ademar Gondim, essa proporção se deve incialmente ao aumento do uso de motocicletas para as atividades cotidianas nessas regiões.
Os transportes que antes eram feitos por meio de animais, bicicletas ou, até mesmo, a pé, agora são em boa parte feito com o uso de motos sem a devida habilitação de seus condutores e uso de equipamentos de proteção.”As pessoas substituíram o cavalo pela moto. A moto tem uma velocidade muito maior. E muitas vezes essas vítimas não são habilitadas. Para utilizar um veículo você tem que saber conduzir e lidar com ele. As pessoas não sabem lidar com moto. Você percebe também que há muitos menores andando de moto no interior. Não há um controle muito rígido”, destaca Gondim.
Essas infrações citadas por Gondim ocorrem devido a uma falta de fiscalização mais intensa por parte dos Demutrans, responsáveis pelo ordenamento do trânsito nas cidades do interior, conforme o Código de Trânsito Brasileiro (CTB), instalado em 1997.Cunto destaca que a qualidade dos serviços prestados por esses Departamentos não acompanhou o salto do número de motos no interior do Estado, que foram de 622 mil em 2010 para mais de 1,6 milhão até junho de 2026.
O especialista alerta para a necessidade de investimentos nos departamentos a fim de obter sanar o gargalo construído ao longo desse século. Caso essas melhorias não ocorram, o risco é de que o número de mortes aumente ainda mais, já que não há previsão de recuo no número de motos em circulação no interior do Estado.”A gente tem municípios em que a frota de motos chega a representar 80 a 90% de todos os veículos registrados. Então esse uso aumentou muito. Quanto mais motociclistas, mais a gente tem riscos de sinistros. Não a severidade, mas a frequência dos sinistros tende a aumentar por essa essa razão de ter mais uso”, conclui o docente
Fonte:O Povo

