Banco Mundial revisa 151 estudos e reforça ensino explícito para alfabetização; Brasil ainda tem 4 em cada 10 crianças abaixo do esperado
Municípios como Sobral (CE), Bom Jesus (PI) e Trizidela do Vale (MA) mostram que práticas baseadas em evidências científicas já produzem resultados expressivos no país
Um relatório do Global Education Evidence Advisory Panel (GEEAP), endossado pelo Banco Mundial, reuniu evidências de 151 estudos realizados em mais de 167 idiomas e concluiu que o ensino explícito e sistemático está entre as estratégias mais eficazes e custo-efetivas para alfabetizar crianças. O tema ganha relevância no Brasil, onde 59,2% dos estudantes da rede pública estavam alfabetizados na idade certa em 2024, segundo os resultados mais recentes do Indicador Criança Alfabetizada (ICA). Em outras palavras, cerca de quatro em cada dez crianças ainda não atingem o nível esperado ao final do 2º ano do Ensino Fundamental.
O relatório reforça que alfabetizar exige mais do que ampliar o acesso à escola ou aumentar investimentos. Os estudos apontam que sistemas educacionais obtêm melhores resultados quando as políticas públicas são orientadas por conhecimento científico, com ensino estruturado das relações entre letras e sons, desenvolvimento da fluência leitora, da compreensão textual e do vocabulário, aliados à formação continuada de professores, materiais didáticos de qualidade e avaliação permanente da aprendizagem.
Os exemplos de Sobral (CE), Bom Jesus (PI) e Trizidela do Vale (MA) mostram que a adoção de práticas de alfabetização baseadas em evidências científicas pode gerar resultados expressivos, mesmo em diferentes contextos socioeconômicos.
Referência nacional em alfabetização, Sobral (CE) consolidou uma política educacional contínua, com investimento na formação de professores, acompanhamento pedagógico, avaliação permanente da aprendizagem e adoção de métodos respaldados pela ciência. Na edição de 2025 do ICA, o município alcançou 94,96% das crianças alfabetizadas ao final do 2º ano do Ensino Fundamental, um dos melhores resultados do país.
Em Bom Jesus (PI), o município passou de cerca de 40% de crianças alfabetizadas, em 2014, para alcançar 100% em 2025, segundo a última avaliação do ICA. O salto registrado ao longo da última década reforça que a adoção de métodos comprovados cientificamente pode transformar os resultados da educação em diferentes realidades.
Outro exemplo é Trizidela do Vale (MA), onde a reorganização das ações de alfabetização contribuiu para reverter dificuldades históricas em pouco tempo. O resultado demonstra que estratégias orientadas pelo conhecimento científico podem gerar avanços consistentes em diferentes contextos sociais e econômicos.
Para o presidente do Instituto Alfa e Beto (IAB), Mario Ghio, organização que há mais de 20 anos desenvolve programas de alfabetização baseados em evidências científicas e já contribuiu para a aprendizagem de mais de 4,5 milhões de estudantes em mais de mil municípios brasileiros, o relatório confirma o que a Ciência Cognitiva da Leitura vem demonstrando há décadas.
“A alfabetização é a porta de entrada para toda a aprendizagem. Hoje, a principal pergunta já foi respondida pela ciência: sabemos como as crianças aprendem a ler. O desafio agora é garantir que esse conhecimento chegue às salas de aula, por meio da formação dos professores, de materiais estruturados e do acompanhamento permanente da aprendizagem. Quando isso acontece, os resultados aparecem.”
Ghio afirma que as experiências brasileiras demonstram que esse conhecimento pode ser transformado em políticas públicas capazes de produzir mudanças concretas.”Não existe solução mágica. Existe ciência, planejamento, formação de professores, acompanhamento da aprendizagem e compromisso com resultados. Quando essas condições estão presentes, é possível garantir que praticamente todas as crianças aprendam a ler, independentemente do contexto social ou econômico”.
Para Ghio, o Brasil reúne hoje as condições para acelerar os avanços na alfabetização, desde que as decisões pedagógicas sejam orientadas pelo conhecimento científico. “O país já dispõe de evidências robustas, experiências bem-sucedidas e profissionais comprometidos. O próximo passo é transformar esse conhecimento em políticas permanentes, para que aprender a ler na idade certa deixe de depender do CEP onde a criança nasceu”.

