Bibliotecas: Espaços enfrentam problemas e tentam se reinventar

De inquilina à proprietária. Assim pode ser definida a trajetória da Biblioteca Pública Municipal Dolor Barreira, que ocupa sede própria na mesma Avenida da Universidade, onde funciona desde o início dos anos 1970. Naquela época, o espaço era bem menor, assim como o acervo, contrastando com o charmoso sobradinho que ocupa hoje, o número 2572 daquela via.

À primeira vista, o prédio precisa de uma pintura e alguns reparos na estrutura física, além de finalizar os ajustes de ordem administrativa, para que o público volte a contar com a abertura da casa aos sábados, uma das principais reivindicações dos usuários. A boa notícia vem da Secretaria de Cultura de Fortaleza: o espaço volta a funcionar, aos sábados, a partir da primeira semana de abril. Para marcar a reabertura dos trabalhos, será realizada uma oficina de desenhos no sábado, dia 6. Conforme a Secultfor, a suspensão das atividades foi devido “à reestruturação da equipe”. A biblioteca precisa também de uma política para compra de livros, uma vez que o acervo é formado apenas por doações.
Na realidade, as atribuições da biblioteca, assim como o acervo aumentaram ao longo dessas pouco mais de quatro décadas de existência. O acerco não para de aumentar, como confirma Pedro Henrique Marques de Andrade, responsável pela automatização da biblioteca, afirmando que são mais de 16 mil livros catalogados contra mais 15 mil que estão esperando para a realização do trabalho. Cita as coleções do jurista Dolor Barreira, do professor Geraldo Nobre, que ainda precisam ser catalogadas. A coleção foi doada pela família do intelectual e consta de cerca de 1 mil livros. Fará parte do arquivo cativo, isto é, apenas para consulta. Apesar de não dispor de política para a aquisição de obras, afirma que conta com “raridades, sobretudo sobre a história e a geografia do Ceará, fazendo com que muitos alunos da UFC venham pesquisar aqui”.
Apesar das limitações, Pedro Henrique de Andrade reconhece que “é difícil as pessoas procurarem algum livro que a gente não disponha”. Também concorda que surge um novo tipo de usuário nas bibliotecas atualmente: as pessoas que se preparam para concursos. Antes, o público era formado mais por universitários e pesquisadores, além daqueles considerados “ratos de biblioteca”.
A bibliotecária do turno da noite, Joana D´Arc Perosa, afirma que falta espaço para abrigar a demanda proveniente, na sua maior parte, das universidades. Confirma que o acervo mais procurado é relacionado ao Ceará. São livros sobre literatura, história e geografia, destacando que os livros didáticos estão entre os mais acessados.

Opiniões
O estudante de pós-graduação em História, Ítalo Andrade, 22 anos, que diz usar a Dolor Barreira como segunda opção, preferindo a da UFC. Para ele, a Biblioteca Pública Governador Menezes Pimentel fica “um pouco deslocada”. O acervo e a acomodação da Dolor, diz, deixam muito a desejar. “Na Menezes Pimentel, o conforto é maior e o acervo, mais recente”, compara.
O que se pode observar é que as bibliotecas ganharam mais responsabilidades e diversificaram os seus serviços. As pesquisas não se restringem apenas aos livros físicos ou de papel, daí a necessidade desses equipamentos entrarem, definitivamente, na era virtual, proporcionando maior acesso às informações. Por enquanto, a Dolor Barreira está digitalizando o seu acervo.

A Biblioteca Pública Menezes Pimentel também não possui acervo digitalizado. Por enquanto, o acervo apenas impresso. De acordo com o último relatório, o bibliotecário Valdenir Braga informa que os livros mais procurados são os paradidáticos. Os livros relacionados ao Ceará estão entre os mais requisitados pelo público, que divide-se entre pesquisadores, estudantes e “concurseiros”. Os livros acadêmicos são os mais pesquisados, enquanto os romances lideram a lista dos empréstimos. As pessoas podem levar até dois livros, podendo passar o tempo máximo de 15 dias. Para ter acesso ao empréstimo, basta fazer uma carteira, sendo necessário a apresentação de cópia da carteira de Identidade, CPF, comprovante de residência atual, duas fotos e a taxa de R$ 4.
O horário de funcionamento, a Biblioteca Pública Menezes Pimentel é de segunda a sexta-feira, das 8h às 21h; e no sábado das 9h às 17h. Antes, ela funcionava aos sábados domingo, por quatro horas. Após enquete com os usuários, desde agosto do ano passado, o equipamento passou a funcionar apenas aos sábados, cumprindo 8 horas corridas.
Silêncio atrai estudantes
Além do acervo, o silêncio das bibliotecas tem atraído novos usuários. O jovem Yuri de Lima Rodrigues, 18 anos, confessa ser a busca por um ambiente tranquilo o principal motivo para ir à Biblioteca Municipal Dolor Barreira. Lá, a sala de estudos fica localizada na área mais afastada da movimentação da Avenida da Universidade, onde funciona. Com a ajuda do sossego do local para estudar, somado ao seu esforço pessoal, o jovem conseguiu realizar um sonho: passou no vestibular para História da Arte, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRS). No momento, aproveita o tempo para atualizar seus conhecimentos, usando os serviços do Telecentro, projeto de inclusão digital do Ministério das Comunicações, que funciona em uma das salas da biblioteca.
“Comecei a utilizar a Dolor Barreira desde o ano passado, por ocasião da greve da UFC”, relembra Yuri Rodrigues. “Aqui é mais tranquilo do que em casa”, garante, enquanto demonstra não desperdiçar tempo. Assim, enquanto realiza pesquisas na web, manuseia livros sobre o que mais gosta de estudar.
O número de usuários do Telecentro, por turno, é de 10, o mesmo de computadores disponíveis, funcionando de segunda a sexta-feira, da 8h às 12 e das 14 às 18h, sempre contando com a colaboração de um estagiário que exerce a função de monitor. Ronaldo Feitosa trabalha como estagiário do turno da tarde. “Como o sistema é Linux, às vezes, as pessoas pedem ajuda para a gente”, argumenta. O Telecentro representa mais uma função desempenhada pela biblioteca, destaca Patrícia Viana Belém, do setor administrativo da Dolor Barreira, sendo encarregada pela visita guiada tanto de alunos do curso de Biblioteconomia quanto os que participam da programação artística e cultural, realizada toda semana naquele espaço. “O projeto realiza a parte de inclusão digital através da pesquisa”, diz, acrescentando que o trabalho é monitorado por câmara, portanto o acesso é exclusivo para estudo. Os estagiários são da área de informática, complementa.
A servidora faz a observação de que, nos últimos anos, além de pesquisadores, alunos de pós-graduação ou estudantes universitários, principalmente da UFC, pela própria localização do equipamento, a biblioteca recebe outro público: estudantes que vão prestar provas ao Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e pessoas que se preparam para concursos.
Informações: Iracema Sales