Análise eleitoral: Lula perde votos em cidades pequenas e Flávio Bolsonaro avança

A recente eleição para o primeiro turno revelou uma disputa acirrada, marcando a menor diferença já registrada antes de um segundo turno na história do país. Com apenas 2,3 milhões de votos separando os dois primeiros colocados em um universo de 170 milhões de eleitores, o pleito expôs dinâmicas significativas e mudanças no comportamento do eleitorado em comparação com o cenário de 2022.

Segundo a análise de Pedro Doria, diretor de jornalismo do Canal Meio, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) registrou uma perda de 3 milhões de votos em relação à eleição anterior. Em contrapartida, Flávio Bolsonaro (PL) obteve um acréscimo de 4,6 milhões de votos, superando o desempenho de seu pai, Jair Bolsonaro, em 2022. Este movimento, conforme Doria, não se refletiu nas grandes cidades, que mantiveram um padrão de votação similar ao pleito anterior.

Movimento do eleitorado: o voto pendular da classe C

A principal variação no desempenho dos candidatos ocorreu em municípios de pequeno e médio porte, especialmente naqueles com menos de 50 mil habitantes. Pedro Doria ressaltou que os votos perdidos por Lula não migraram para candidatos de terceira via, nem para votos brancos ou nulos, mas foram diretamente direcionados a Flávio Bolsonaro.

Esse padrão de voto é característico de um eleitor que não se encontra rigidamente alinhado a uma polarização política específica. Doria descreve esse perfil como alguém que “cogita votar em ambos e está zanzando de uma eleição para outra, procurando quem é o seu presidente, meio que sem encontrar”. Este eleitor, predominantemente da classe C e com nível médio de escolaridade, já havia apoiado Jair Bolsonaro em 2018, migrado para Lula em 2022 e, agora, retornou ao campo bolsonarista com Flávio.

Classe C: pragmatismo e aspiração por ascensão social

A classe C representa uma parcela substancial da população brasileira, correspondendo a 49% do total, sendo que a classe C da periferia urbana abrange cerca de um terço do país. Para o especialista, o comportamento desse eleitorado é guiado por um pragmatismo focado na ascensão social, e não pela desinformação.

“Esse eleitor só tem uma coisa na cabeça. Ele quer saber como ascender socialmente”, explicou Doria. Ele destacou que esse segmento da população tende a rejeitar o modelo de emprego formal com carteira assinada, por considerá-lo insuficiente para promover a mobilidade social. Em vez disso, busca viabilizar-se como pequeno empreendedor, enfrentando, no entanto, os desafios da burocracia e da complexidade tributária brasileira.

Políticas governamentais e a percepção do pequeno empreendedor

Pedro Doria apontou que algumas medidas do governo atual foram percebidas negativamente por esse público. Um exemplo citado é a taxação sobre produtos importados de baixo valor, popularmente conhecidas como “blusinhas”. Para muitos, a compra desses produtos chineses não é apenas um símbolo de status, mas também uma fonte de renda para pequenos revendedores.

“Existem diversas políticas do governo Lula que foram percebidas por esse público como contra ele”, afirmou. Contudo, Doria fez uma ressalva importante: entre as mulheres da classe C, há uma forte dependência de serviços públicos essenciais, como hospitais e escolas. Essa dependência gera uma ambivalência no momento do voto, contribuindo para o caráter pendular desse eleitorado.

Abstenção e o cenário para o segundo turno

A análise da abstenção revelou um índice próximo de 20%, similar ao registrado em 2022, sem um aumento percentual significativo. Ao investigar a geografia da “nova abstenção” – eleitores que votaram em 2022 e não compareceram desta vez – Doria identificou uma concentração nas periferias dos grandes centros urbanos.

O perfil demográfico desses eleitores se alinha mais com o voto em Lula do que em Flávio Bolsonaro. “Parece ser um eleitor que não quer votar nos Bolsonaro, não gostou do governo Lula, ficou em casa”, avaliou Doria. Para o especialista, uma possível redução na abstenção no segundo turno poderia, surpreendentemente, beneficiar o governo.

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