Estupro revelado em almoço de família leva jovem do Ceará a escrever livro

Samuel Ivani, 32, escreveu “Eu preciso falar sobre o verão de 1993” em um mês. No romance, baseado em relatos de abusos sexuais sofridos pelas irmãs Charlene (in memorian) e Darlene na adolescência, o autor cearense tentou fazer a justiça que os dois casos não receberam na vida real. Samuel, porém, parece não gostar de rememorar aquela época. Desperta-lhe dores e sofrimento. Diz nem ter cópia do livro, publicado de forma independente em abril de 2018.

Ao som de um forró das antigas, Ivani encontrou a reportagem do TAB na Barraca do Marrocos, na cidade de Jijoca de Jericoacoara (CE). Como não costuma reler o que escreve, nunca pensou em ter um exemplar. Quis buscar uma cópia emprestada de uma amiga, que morava a poucos metros dali.

Nem nos maiores sonhos da vida acreditava que algum jornalista poderia contatá-lo. Na sua casa, no distrito de Paraguai, no município de Cruz, vizinho a Jijoca, a estante é decorada apenas com porta-retratos e fotos dos nove filhos de dona Maria Naudira Silveira, 61, sua mãe. Samuel é o quarto na ordem de nascença; Charlene a primeira, e Darlene a segunda.

A casa onde mora permanece em construção. Defronte há tijolos empilhados e o único poste com lâmpada da rua. O escritor vive ali com um gato sem nome e a cadela Donzela, criada antes pelo seu irmão Micael, morto em 29 de janeiro. A televisão hoje está desligada — os fios da tomada ficam entrelaçados no chão. Na parede, ainda há guirlandas do último Natal. Sentado em uma cadeira de plástico, Samuel aproveita para responder às notificações no Instagram.

É na rede social que o jijoquense faz propaganda do livro, em forma de comentário às postagens que passam pela sua timeline. O textículo é sempre o mesmo. “Escrevi um livro #EuPrecisoFalarSobreOVerãoDe1993, que é baseado na história de amizade entre minhas irmãs e um fato de violência. Atualmente, vivo só das vendas. Me ajude comprando ou divulgando. Links na bio.” Há oito anos, Samuel Ivani estuda ciências biológicas no IFC (Instituto Federal do Ceará).

Até hoje, o livro vendeu cerca de 4 mil exemplares. O dinheiro que entra é pouco — não passa dos R$ 700 por mês, diz ele. A maior gratificação são os famosos que comentam ou compram a obra, como Carolina Ferraz, Miguel Falabella, Edmilson Filho, Emílio Dantas, Juliana Paes e Lulu Santos. No Instagram, @ivanisamuel é seguido por Xico Sá e Luiza Erundina.

Samuel Ivani, estudante e escritor, em Jijoca (CE) - Marília Camelo/UOL - Marília Camelo/UOL

O cobrador de prestação Samuel já mudou cinco vezes de casa “porque gosta”. Em 2001, o pai, Simão Ivanir, trocou um dos terrenos que tinha por uma casa antiga, de dois cômodos e tijolo cru, para ficar mais próximo da Lagoa do Paraíso. A residência ficava num beco sem saída, também no Paraguai, a cinco quilômetros de onde Samuel mora atualmente.

Era feliz naquele tempo. Vivia os 12 anos aproveitando as tardes depois da escola, saindo com os amigos, de bicicleta, para tomar banho e contemplar o pôr do sol, ou nas “Quatro Bocas”, ponto de encontro dos adolescentes que costumavam se reunir em busca de paqueras.

Por falta de espaço e televisão, o garoto sempre estava na casa da vizinha para brincar ou assistir aos desenhos animados na “TV Globinho”, da Rede Globo. Era também nesse lugar que o “cobrador de prestação” se hospedava para fazer as entregas e cobranças na região. Durante o dia, o homem, que aparentava ter entre 28 e 32 anos, saía de porta em porta vendendo produtos, em inúmeras parcelas, às famílias do distrito. Comprar algo fazia era motivo de orgulho entre os vizinhos. Tinha de tudo: redes, capas para sofá, relógios de parede, panelas.

O cobrador de prestação, cada dia mais envolvido na rotina do lugar, ganhou a confiança de todos e também de Samuel, até o garoto receber um convite, em 2001. Como gostava de moto, Samuel aceitou dar uma volta com aquele com quem tinha segurança. No caminho, o homem tentou abusá-lo, oferecendo dinheiro. Assustado, saiu correndo pelas estradas de terra. Nunca mais o viu.

“Não sei o que aconteceu com ele depois. Ele não voltou mais. Também não queria encontrá-lo novamente. Não queria que aquilo se repetisse”, conta. Samuel não contou nada para família. O homem sumiu da vizinhança.

Darlene, irmã de Samuel Ivani, em Jijoca (CE) - Marília Camelo/UOL - Marília Camelo/UOL

Almoço de família Anos depois, em 2017, após um almoço de domingo com a família na atual casa onde Samuel vive sozinho, Darlene explodiu. Com todos na sala, a irmã contou sobre um episódio de abuso sexual ocorrido quando tinha 16 anos. O agressor era seu avô materno.

Darlene também contou que a irmã Charlene, que faleceu em 2012 em decorrência de um aneurisma, teria sido estuprada por um desconhecido durante um comício na cidade. Nenhum dos estupros foi registrado na polícia. A mãe de Samuel, por exemplo, implorou para que Darlene não contasse para o próprio pai. No primeiro momento, Naudira não acreditou na filha.

Um dos irmãos, que prefere não ter o nome revelado, também falou de um episódio ocorrido com o cobrador de prestação.

Escutando aqueles relatos, Samuel resolveu escrever sobre os abusos. Fez uma publicação em um blog que mantinha até 2018, “O escritor de fábulas”, inspirado na obra norte-americana “Precisamos falar sobre o Kevin”, inspirada em fatos como o massacre de Columbine, no Colorado, em 1999.

Aos poucos, a pedido do público que lia as histórias, Samuel resolveu juntar os textos e montar um livro. Escrever, para ele, foi uma forma de superar o trauma. “Mesmo que não tenha tido a consumação do ato, eu também fui abusado. Por ser homem, ficava com receio em falar. Eu me bloqueio.” Darlene, por exemplo, diz que só conseguia chorar lendo aquelas páginas. “Eu fui, podemos assim dizer, vingada”, diz ela, que inspira a personagem Valquíria na obra.

“Eu preciso falar sobre o verão de 1993”, uma autoficção, conta a história de Valquíria, vítima de abuso sexual. Depois de passar pelo trauma, passa um período num manicômio. Saindo dali, busca vingança.

Darlene, hoje, vive um dia de cada vez. No começo, odiava todo homem, desconhecido ou não. Queria alguma espécie de vingança. Durante seis anos, gostava de ver o sofrimento dos rapazes que se aproximavam dela.

Aos 22 anos, conheceu o radialista Wilson Marques, com quem se casou e teve Victor, 15, seu único filho. O homem era sensível, delicado, romântico, sabia conversar, era amigo, muito parceiro. “Não foi aquele amor de homem e mulher. Foi uma troca. A gente deu um ao outro o que precisava”, relata.

Após três meses de namoro, o casal foi morar em São Paulo e ali foi obrigada a encarar outro Wilson. Viveu um relacionamento abusivo durante dez anos.

Segundo Darlene, Wilson queria ter domínio sobre ela e a espancava quando era contrariado. Era ciumento e fazia ligações a cada dez minutos, esperava na porta do trabalho dela, o que levava a demissões recorrentes. “Eu trabalhava 16 horas por dia para não ter de voltar para casa. Mas, ao mesmo tempo, tinha medo de deixar meu filho com ele, porque tinha medo que acontecesse o mesmo que aconteceu comigo [abuso sexual]. Então, entrava em casa na surdina, devagarinho, para não fazer barulho, e ficava olhando pelas frestas das portas.”.

Darlene diz que suportou as agressões esperando que, um dia, Wilson voltasse a ser o príncipe que tinha idealizado. Cultivando o desejo de mudança, ela foi a igrejas e centros de umbanda, buscando formas de transformar Wilson no homem que havia conhecido em Jijoca…

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado.