Greve dos caminhoneiros: relembre movimento que parou Brasil há 8 anos
País viveu dez dias de instabilidade após protestos que bloqueram principais rodovias brasileiras, com reflexos em diversos setores sociais e econômicos do país
Há cerca de 8 anos, mais especificamente no dia 21 de maio de 2018, o Brasil vivia o começo de um dos momentos mais marcantes da história do país: a greve dos caminhoneiros.
Depois de a ação completar quase uma década, o governo abre os olhos para uma possível nova greve nacional da categoria.
O começo do ato
Em poucos dias, o movimento liderado pela classe dos autônomos bloqueou as principais rodovias brasileiras e deixou rastros por todo o território nacional ao longo de mais de uma semana.
A greve dos caminhoneiros começou como um protesto contra a alta do diesel e a política de preços da Petrobras, e se pulverizou por grupos online em aplicativos de mensagens e em redes sociais.
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Rapidamente, o movimento evoluiu para uma crise que atingiu o país inteiro, com efeitos sociais e econômicos diversos. A CNN Brasil separou os principais detalhes dos dez dias da greve dos caminhoneiros. Entenda abaixo:
21/05 (1º dia)
A disparada no preço do óleo diesel, que chegou a subir mais de 50% em um ano, foi o que levou ao início da paralisação. No primeiro dia da greve, ao menos 21 estados tiveram rodovias paralisadas.
O aumento do combustível estava associado à subida do preço do dólar e do petróleo no mercado internacional.
Há uma semana da greve, a ABCam (Associação Brasileira dos Caminhoneiros), associação que representava os caminhoneiros, protocolou um ofício na Presidência da República e na Casa Civil que cobrava “medidas efetivas do Governo diante do aumento constante das refinarias e dos impostos que recaem sobre o óleo diesel”. A medida principal incluía a isenção de tributos como PIS, Cofins e Cide sobre o combustível.
22/05 (2º dia)
No segundo dia, a adesão à greve ganhou maiores proporções e atingiu 24 estados, mais o Distrito Federal. A partir disso, grandes montadoras suspenderam a produção por conta da falta de insumos.
Na mesma data, o governo anunciou a intenção de eliminar a Cide sobre o diesel para tentar conter o movimento.
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23/05 (3º dia)
No dia seguinte, em uma tentativa de trégua, o então presidente da Petrobras, Pedro Parente, anuncia que os preços do diesel seriam reduzidos em 10% nas refinarias por cerca de 15 dias. No entanto, o documento deixou de fora o que seria o principal pedido dos trabalhadores: a isenção do PIS-Cofins sobre o óleo diesel.
Mesmo com o comunicado, a paralisação continuou com o mesmo vigor.
24/05 (4º dia)
Os efeitos da greve passam a refletir ainda mais na vida da população brasileira por todo o país. Nesse momento, o desabastecimento se tornou crítico em 15 estados e também no Distrito Federal, com cancelamentos de voos e aulas, redução das frotas de ônibus, falta de combustíveis e disparada de preços, além de prateleiras vazias em supermercados e centros de abastecimento.
Com a situação, o governo de Michel Temer anunciou um acordo para suspender a greve por 15 dias, mas muitos caminhoneiros não aceitaram os termos e continuaram os bloqueios nas rodovias.
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Nesse dia, algumas pautas de apoio a uma “intervenção militar” começaram a ganhar força em alguns pontos dos protestos.
Na época, a AEB (Associação de Comércio Exterior do Brasil) estimou que o país tenha perdido pelo menos US$ 1 bilhão com exportações que deixaram de ser feitas.
25/05 (5º dia)
Na metade do que seria um dos momentos mais marcantes do Brasil, o então presidente Temer assinou um decreto de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) com abrangência nacional, que autorizava as Forças Armadas a desbloquear rodovias e escoltar trens.
Além disso, o STF (Supremo Tribunal Federal) autorizou multas pesadas, como de R$ 10 mil, para quem mantivesse as vias obstruídas. Entidades que incentivassem os atos poderiam receber multas de até R$ 100 mil.
26/05 (6º dia)
O governo afirmou que a situação no país passou a ser normalizada, com o reabastecimento dos aeroportos e o início da desobstrução das rodovias. No entanto, não havia ainda um prazo oficial para o término da greve.
Mesmo com a normalização, alguns postos continuavam sem combustível para a população.
27/05 (7º dia)
Após reunião realizada na Casa Civil, a ABCam assinou o acordo para o fim da greve depois que o governo cedeu 12 reinvindicações, incluindo a redução de R$ 0,46 no litro do diesel por 60 dias e a isenção de pedágio para eixos suspensos de caminhões vazios.
No mesmo dia, a associação pediu para que os caminhoneiros voltassem ao trabalho. Entretanto, a paralisação seguiu.
28/05 (8º dia)
Após a declaração de que a situação no país caminhava para a normalização, o reflexo do desabastecimento atingiu o ápice.
Levantamentos feitos à época indicaram que mais de 90% dos postos estavam secos em estados como Bahia, Distrito Federal e Minas Gerais.
29/05 (9º dia)
No penúltimo dia de paralisação, a greve perdeu força, mas o Brasil ainda registrava 616 pontos de concentração de motoristas nas estradas. No entanto, a quantidade de tráfego parado diminuiu e o abastecimento começou a normalizar gradualmente.
Por outro lado, denúncias de preços abusivos nos postos dispararam. As queixas teriam sido registradas em ao menos 22 estados, mais o Distrito Federal, segundo a ANP (Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis).
30/05 (10º dia)
Após dez dias de um completo cenário de caos no país, a greve finalmente caminhava para o fim. As forças de segurança eliminaram praticamente todos os bloqueios nas estradas, mas a normalização ainda seguia lenta.
Nos postos, o abastecimento voltava, mas em algumas áreas ainda era de forma parcial. Ainda eram vistos diversos casos de muita fila para abastecer e um cenário de incerteza quanto à duração de estoques e reservas de segurança nas distribuidoras.
Por fim, os petroleiros iniciaram uma greve de 72 horas. A Justiça do Trabalho chegou a julgar a paralisação como ilegal, mas, ainda assim, os trabalhadores mantiveram a decisão de suspender as atividades.
O acordo que deu fim à greve
A paralisação só foi encerrada no dia 31 de maio, após o Palácio do Planalto ceder nas negociações.
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Na ocasião, o Executivo editou três MPs (medidas provisórias) como parte do acordo que deu fim à greve:
MP 831/2018: reservava 30% do frete contratado pela Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) para cooperativas de transporte autônomo, sindicatos e associações de autônomos
MP 832/2018: instituiu a Política de Preços Mínimos do Transporte Rodoviário de Cargas
MP 833/2018: alterava a Lei dos Motoristas (Lei 13.103/2015) para estender para as rodovias estaduais, distritais e municipais a dispensa de pagamento de pedágio do eixo suspenso de caminhões.
Além disso, o governo também reduziu o preço do litro do diesel por um período de 60 dias.
No dia do encerramento da mobilização, Temer participou de um culto evangélico e mencionou críticas a sua decisão de dialogar.
“Graças a Deus, estamos encerrando a greve dos caminhoneiros. Encerrando por meio de uma atitude minha que tem sido criticada, que é o diálogo. Não do uso da força”, disse o então presidente.
*Com informações da Agência Brasil e da Agência Senado
Fonte: CNN

