Há um ano, Ceará retirou restos mortais de ditador e transformou mausoléu em memorial da democracia

Há pouco mais de um ano, o Governo do Ceará concretizou a ressignificação do monumento que cobre o espelho d’água característico dos jardins do Palácio da Abolição: o antigo Mausoléu Castelo Branco foi transformado na Galeria da Liberdade, espaço voltado à memória e à luta pelos direitos humanos.

Para isso, a gestão estadual precisou retirar e realocar os restos mortais do cearense Humberto de Alencar Castelo Branco, primeiro militar a assumir a presidência do Brasil durante a Ditadura Militar (1964-1985), e da esposa dele, Argentina Viana.

Em 1972, os restos mortais dos dois foram transferidos do Rio de Janeiro para Fortaleza, sendo alocados no mausoléu construído nos jardins do Palácio da Abolição. Durante décadas, o local funcionou também como espaço de exposição de documentos e objetos relacionados ao ex-presidente.

Foi em agosto de 2023 que o governador Elmano informou sobre a mudança no monumento. Após todo o processo de retirada das urnas funerárias, o antigo mausoléu deu lugar à Galeria da Liberdade, inaugurada oficialmente pelo Governo do Ceará em junho de 2025.

O especial “Para entender os Poderes” é uma série de reportagens do PontoPoder sobre o funcionamento e outros aspectos da disputa pelos cargos que estão em jogo nas eleições gerais de 2026. O material envolve a Assembleia Legislativa do Ceará, o Palácio da Abolição, a Câmara dos Deputados, o Senado Federal e o Palácio do Planalto.

Mausoléu presidencial
Humberto de Alencar Castelo Branco nasceu em Fortaleza, em 20 de setembro de 1897. O militar ocupou o cargo de presidente na ditadura de abril de 1964 a março de 1967.

Castelo Branco morreu no dia 18 de julho de 1967, meses após deixar o cargo, em um acidente aéreo, quando o avião do Exército em que viajava foi atingido pela asa de um jato da Força Aérea Brasileira (FAB).

O ex-presidente cearense foi inicialmente sepultado no Cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro. O local também abrigava o corpo da sua esposa, Argentina Vianna, que havia morrido em 1963.

Em 1972, os restos mortais dos dois foram transferidos para Fortaleza, após a construção do mausoléu projetado pelo arquiteto Sérgio Bernardes para o conjunto arquitetônico do Palácio da Abolição.

À época, o capitão Paulo Castelo Branco, filho de Castelo Branco, foi um dos responsáveis pelo traslado e entrega oficial dos restos mortais dos pais à gestão estadual, por ocasião da inauguração do prédio em Fortaleza, conforme registra a edição do Jornal do Brasil do dia 19 de julho de 1972.

Quando inaugurado, a câmara funerária foi situada no monumento na extremidade final da estrutura em concreto armado com um balanço de 30 metros suspenso, que se projeta sobre o espelho d’água.

No local, as urnas eram antecedidas por galerias que abrigavam a exposição de documentos e objetos de Castelo Branco. O acervo incluía a faixa presidencial, a espada de General do Exército Brasileiro, a Carteira de Identidade e um relógio de pulso.

O monumento permaneceu com as urnas funerárias do casal até janeiro de 2025, quando o Poder Executivo iniciou o processo de renovação do espaço.

Retirada dos restos mortais
“A decisão está tomada. A Secretaria da Cultura, junto à Secretaria de Direitos Humanos tem a missão de garantir que no Palácio da Abolição não ficará mais o Mausoléu de quem apoiou a ditadura”, declarou Elmano, em 31 de agosto de 2023, durante cerimônia dos 44 anos da Lei da Anistia, considerada um dos marcos do fim da ditadura militar e da redemocratização brasileira.

A partir daí, o Estado iniciou, em janeiro de 2024, o contato com os familiares do ex-presidente. Naquele momento, os parentes pretendiam levar os restos de Castelo Branco e Argentina Vianna de volta ao Rio de Janeiro, para o jazigo da família no Cemitério São João Batista.

Contudo, como mostrou o Diário do Nordeste, a família havia decidido manter os restos mortais no Ceará. As netas de Castelo Branco anunciaram, em agosto de 2025, a transferência para o 23º Batalhão de Caçadores, na Avenida Treze de Maio, em Fortaleza, onde seria construído um novo mausoléu.

Com as mudanças e o fim do mausoléu, o acervo que permanecia associado ao ex-presidente também foi redistribuído: roupas e armas foram devolvidas ao Exército, enquanto documentos permaneceram com a família.

Do mausoléu à Galeria da Liberdade
Com a retirada das urnas funerárias, o antigo mausoléu ganhou uma nova função. Em 18 de junho de 2025, o Governo do Ceará inaugurou oficialmente a Galeria da Liberdade.

O equipamento cultural aberto tem como foco a luta pelos direitos humanos. O espaço é vinculado ao Museu da Imagem e do Som (MIS) do Ceará, que é gerido pelo Instituto Mirante.

A Galeria foi concebida como espaço de difusão cultural, pesquisa e reflexão sobre memória, direitos humanos e as lutas sociais. A ideia é promover uma sequência de exposições e atividades que abordem diferentes aspectos dessa história no Ceará, no Brasil e no mundo.

A área total da Galeria da Liberdade é de cerca de 300 metros quadrados. O espaço conta com duas galerias laterais e uma área interna para exposições e ações educativas.

“O espaço que representa o poder político do Ceará tem que ser um espaço que une o povo, não pode ser um espaço que divide. Aqui está a bandeira do País, do Ceará, e se tem uma coisa que eu acho que orgulha muito qualquer cearense, é dizermos, em qualquer canto, que esse Estado, com a coragem de negros e negras, foi o primeiro a libertar o povo negro da escravidão. Foi esse Estado o primeiro a iniciar o processo, que ainda continua, de luta pela superação da escravidão e do preconceito racial”

Exposição inaugural
A primeira exposição do novo equipamento foi “Negro é um rio que navego em sonhos”, com curadoria de Ana Aline Furtado. A mostra inicial reúne fotos e biografias de dez mulheres negras nascidas entre as décadas de 1960 e 1990, sendo inspirado em um poema de Cíntia Guedes.

Escolhidas entre mais de 100 nomes, as dez mulheres retratadas na mostra incluem artistas, pesquisadoras, educadoras, artesãs e lideranças de movimentos sociais, a exemplo de Joelma Gentil, mestre em educação e fundadora do Movimento Negro Unificado do Ceará.

O espaço fica na Av. Barão de Studart, no bairro Meireles, nos jardins do Palácio da Abolição. A Galeria está aberta às quartas e quintas-feiras, de 10h às 18h, e às sextas e sábados, de 13h às 20h. A entrada é gratuita.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fonte:Diário do Nordeste