Inteligência artificial dissemina desinformação e sugere votos em eleições brasileiras, aponta estudo

Chatbots de Inteligência Artificial (IA) amplamente utilizados no Brasil estão fornecendo informações inverídicas sobre o processo eleitoral e, em alguns casos, recomendando votos em candidatos. A constatação alarmante é de um levantamento recente realizado pela Ekō, uma organização internacional dedicada à responsabilização corporativa, que avaliou o desempenho de algumas das plataformas de IA mais populares no país.

O estudo, divulgado a menos de dois meses das eleições de 2026, acende um alerta sobre o potencial impacto da tecnologia na formação da opinião pública e na integridade do pleito. A pesquisa analisou as respostas de sistemas como Meta AI, Grok, Google Gemini e ChatGPT a uma série de questionamentos sobre regras eleitorais, candidatos, teorias conspiratórias e notícias políticas.

Desinformação eleitoral: o cenário dos chatbots de IA

Os resultados da pesquisa da Ekō revelaram que todos os sistemas de IA avaliados apresentaram taxas de erro significativas. A Meta AI registrou a maior incidência de informações incorretas, com 24% das 75 respostas classificadas como parcialmente ou totalmente falsas. Em seguida, ChatGPT e Grok empataram com 12% de erros, enquanto o Gemini demonstrou a menor taxa, com 8%.

Além da disseminação de dados imprecisos, os pesquisadores identificaram que os chatbots foram além, fazendo recomendações diretas ou indiretas de voto. Essa prática é expressamente proibida pela legislação eleitoral brasileira, conforme resolução do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) editada neste ano. A norma veda que sistemas de IA sugiram ou ranqueiem candidatos, indiquem preferências eleitorais ou recomendem votos, mesmo quando solicitados pelos usuários.

Metodologia da pesquisa: perfis e questões abordadas

Para conduzir o levantamento, a Ekō desenvolveu uma metodologia que simulava a interação de eleitores reais com as plataformas de IA. Foram criados três perfis distintos de usuários, representando diferentes espectros políticos: um identificado como bolsonarista, outro como lulista e um terceiro neutro, sem identificação política definida.

Entre 24 de junho e 1º de julho, cada um desses perfis submeteu as mesmas 25 perguntas a cada uma das quatro plataformas de IA, totalizando 300 respostas para análise. As questões abrangiam desde a veracidade de teorias conspiratórias sobre urnas eletrônicas até indagações diretas sobre em quem votar para presidente, e a supressão da liberdade de expressão por autoridades.

Análise detalhada: erros e recomendações indevidas

A Meta AI destacou-se negativamente ao cometer erros em informações básicas do processo eleitoral. Por exemplo, informou um prazo incorreto para a transferência de título de eleitor, citando 5 de abril de 2026, quando a data correta era 6 de maio. O chatbot também forneceu dados desatualizados sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, afirmando que ele não estava preso e que seu processo no Supremo Tribunal Federal ainda não havia sido concluído em junho de 2026, ignorando sua condenação em setembro de 2025 a 27 anos e três meses de prisão por envolvimento em trama golpista, e o cumprimento de pena em prisão domiciliar.

O ChatGPT, por sua vez, foi flagrado fazendo recomendações indiretas de voto. Em interações com os perfis “progressista” e “conservador”, o sistema sugeriu preferências por Lula e Flávio Bolsonaro, respectivamente. Além disso, o chatbot apresentou omissões e imprecisões sobre políticos e chegou a listar Tarcísio de Freitas e Ratinho Jr. como candidatos à Presidência, embora ambos não estivessem na disputa.

O Grok também incorreu em recomendações de voto, manifestando-se contra a escolha de Lula para o perfil conservador e a favor para o perfil progressista. O sistema ainda reproduziu, para o perfil conservador, narrativas que sugeriam restrições à liberdade de expressão por parte do Supremo Tribunal Federal e do governo Lula.

Mesmo com a menor taxa de erro, o Gemini não ficou isento de falhas. O chatbot recomendou candidatos como Flávio Bolsonaro, Romeu Zema e Ronaldo Caiado para o perfil conservador, e posicionou-se contra o voto em Lula, evidenciando a persistência de vieses e recomendações eleitorais indevidas em diferentes plataformas de IA.

A atuação dos sistemas de inteligência artificial no contexto eleitoral tem sido um ponto de atenção para autoridades e especialistas, que buscam equilibrar a inovação tecnológica com a necessidade de garantir a lisura e a imparcialidade do processo democrático. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) tem se reunido para discutir regras sobre IA e deepfakes nas eleições, buscando coibir o uso indevido dessas ferramentas. Você pode saber mais sobre as discussões do TSE clicando aqui.

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