Oito anos após o ataque cinematográfico que vitimou dois líderes da facção paulista Primeiro Comando da Capital (PCC), Rogério Jeremias de Simone, o ‘Gegê do Mangue’, e Fabiano Alves de Souza, o ‘Paca’, no Ceará, a Justiça do Ceará agendou data para o primeiro júri do caso.
Tiago Lourenço de Sá de Lima deve sentar no banco dos réus nos próximos dias 21 e 22 de outubro de 2026, no Fórum Clóvis Beviláqua, em Fortaleza. O julgamento está programado para durar dois dias. A defesa do réu não foi localizada pela reportagem.
A reportagem apurou que está previsto para o júri o testemunho de Mariza Almeida Ramos Morais, advogada e mãe do piloto de helicóptero Felipe Ramos Morais, que ficou conhecido nacionalmente após ser acusado de pilotar a aeronave utilizada no duplo assassinato, e acabou morto pela PM de Goiás em fevereiro de 2023.
Inicialmente, os militares acusados de matar o piloto e dois mecânicos alegaram legítima defesa. No entanto, depois de uma reviravolta o Ministério Público de Goiás denunciou o coronel Edson Luís Souza Melo, o coronel Raiado e o major Renyson Castanheira Silva pelas mortes do piloto Felipe Ramos e dos mecânicos de aeronaves Paulo Ricardo Pereira Bueno e Nathan Moreira Cavalcante.
Processo transferido
A ação penal sobre as mortes de ‘Gegê’ e ‘Paca’ tramitava na 2ª Vara do Júri de Fortaleza até o início deste ano de 2026, quando os magistrados declinaram competência para a 6ª Vara do Júri, voltada para julgar crimes contra a vida no contexto das organizações criminosas.
Em julho deste ano, a 6ª Vara recebeu o processo. Uma semana depois, a data do julgamento foi marcada.
Na data do júri devem ser sorteados sete populares que irão compor o Conselho de Sentença e, após os debates e leitura dos quesitos, decidir pela condenação ou absolvição do acusado.
PRISÃO MANTIDA
No ano passado, a 2ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE) manteve a pronúncia de Tiago. Segundo a acusação, ele foi um dos responsáveis pelos disparos do crime que aconteceu no dia 15 de fevereiro de 2018, em uma reserva indígena em Aquiraz, Região Metropolitana de Fortaleza.
Ele havia sido pronunciado em abril de 2024, mas apresentou recurso contra a sentença, pedindo pela despronúncia. Conforme a decisão manteve a pronúncia, os magistrados consideraram que “que não merece acolhimento a pretensão das defesas no sentido de serem impronunciados, tendo em vista que, para tal, seria necessária a existência de prova incontroversa, nítida e estreme de dúvidas, o que, como já visto, não é o caso”.
Nas últimas semanas, os juízes da 6ª Vara revisaram a custódia cautelar de Tiago e apontaram que permanecem os fundamentos para manter a prisão preventiva.
“Cabe ressaltar ainda que os crimes possivelmente praticados pelo acusado são classificados como hediondos e gravíssimos, tendo repercussão nacional e internacional por se tratar de suposto integrante de organização criminosa que possui atividades relacionadas ao tráfico de drogas, homicídios e outros crimes graves”.
Ainda de acordo com o colegiado, “a prova da existência do crime é inconteste, ao passo que os indícios de sua autoria são suficientes para levá-lo a julgamento pelo Tribunal do Júri, não sendo abalados no decorrer do feito por nenhuma prova ou alegação defensiva. Não faz sentido colocar em liberdade o acusado que ficou preso durante toda a instrução quando existentes os pressupostos obrigatórios para a preservação da prisão preventiva. Permanecem, portanto, as razões invocadas para a decretação da prisão preventiva do acusado, não havendo que se falar em sua revogação ou concessão provisória de liberdade”.
O Judiciário reiterou a ordem para o recambiamento de Tiago Lourenço, recolhido na Penitenciária Zwinglio Ferreira de Presidente Venceslau, em São Paulo, para o Sistema Penitenciário do Ceará.
DUPLO HOMICÍDIO
‘Gegê’ e ‘Paca’ foram assassinados em Aquiraz no ano de 2018. De início, o caso foi tratado como achado de cadáveres sem identificação.
Dias depois, os parentes reconheceram os corpos e a Polícia começava a obter as primeiras informações sobre a estadia da ‘cúpula do crime organizado’ no Ceará.
As vítimas embarcaram em um helicóptero, pilotado por Felipe Ramos e com a presença de demais membros do PCC. De acordo com entrevistas concedidas pelo promotor do Ministério Público de São Paulo, Lincoln Gakiya, a dupla foi morta a mando da cúpula da facção paulista.
As investigações levantaram informações que ‘Gegê’ e ‘Paca’ podem ter roubado a própria organização criminosa, ao desviar milhões de reais provenientes do tráfico de cocaína. As mortes teriam servido de lição aos demais faccionados.
Nos dias seguintes aos assassinatos, um bilhete apreendido por agentes na Penitenciária 2 de Presidente Venceslau, no interior paulista, começava a revelar que o crime era premeditado e tinha um porquê.
“Ontem, fomos chamados em umas ideias, aonde nosso irmão Cabelo Duro deixou nois ciente que o Fuminho mandou matar o GG e o Paka. Inclusive, o irmão Cabelo Duro e mais alguns irmãos são prova que os irmãos estavam roubando (sic)”, dizia o bilhete.
O duplo homicídio iniciou uma guerra interna no grupo. Uma semana depois, mais uma execução. Wagner Ferreira da Silva, o ‘Cabelo Duro’ citado no bilhete apreendido em Venceslau, e que teria participado diretamente das mortes de ‘Gegê’ e ‘Paca’, foi morto com tiros de fuzil em um ataque realizado na porta de um hotel, na região da Zona Leste de São Paulo.
Ao todo, 10 pessoas foram denunciadas por participação no caso, sendo que sete foram pronunciadas: Jefté Ferreira Santos, Maria Jussara da Conceição Ferreira Santos, André Luís da Costa Lopes, Erick Machado Santos, Carlenilto Pereira Maltas, Ronaldo Pereira Costa e Tiago Lourenço de Sá Lima.
Segundo a Justiça do Ceará, um faleceu durante a tramitação do processo, um está foragido e o outro, que havia sido impronunciado, teve a denúncia aditada e o processo seguirá em fase de instrução.
Conforme o TJCE, o processo já conta com mais de 9 mil páginas, mas foi desmembrado para dar maior celeridade ao julgamento.
Fonte: Diário do Nordeste

