Nem trabalham, nem estudam: Ceará atinge recorde da população “nem-nem”

No ano de 2020, o Brasil atingiu o recorde de 29,33% na taxa de jovens entre 15 e 29 anos que nem trabalham e nem estudam, os conhecidos como “nem-nem”. No Ceará, a taxa de desocupação desses jovens chegou a 37,19% no segundo trimestre de 2020. Em 2019, a média dos nem-nem no Estado ficou em 28,76%.

Os números são da pesquisa “Juventudes, Educação e Trabalho: Impactos da Pandemia nos Nem-Nem”, do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas (FGV Social). De acordo com o economista Marcelo Neri, responsável pela pesquisa, este aumento na taxa pode causar consequências sobre a trajetória social de toda essa geração, criando o efeito-cicatriz, quando o mercado de trabalho precário no início de carreira pode comprometer o salário desses profissionais por toda sua trajetória.

Dentre os nem-nem, as mulheres foram afetadas desproporcionalmente, representando 31,89% quando o País bateu o recorde da taxa. Isso se explica pela inserção maior das mulheres nas tarefas de cuidado durante a pandemia, tanto o cuidado de outras pessoas, quanto o cuidado doméstico. Segundo a pesquisa “Sem parar: o trabalho e a vida das mulheres na pandemia”, publicada pela organização Gênero e Número, 50% das mulheres passaram a cuidar de outra pessoa durante a pandemia.
Os jovens de 15 a 18 anos são os mais afetados entre os que estão sem ocupação, com 84,24% da taxa em 2020. Os maiores percentuais no momento final da série, em 2020.4, são mulheres (31,29%), pretos (29,09%), região Nordeste (32%), moradores de periferia das maiores metrópoles brasileiras (27,41%), chefes de família (27,39%) e pessoas sem instrução (66,81%).

 

Em contrapartida, a pesquisa sobre os jovens revela uma redução, em âmbito nacional, na taxa de evasão escolar em 2020. A análise da evasão escolar dos jovens revela estabilidade pré Covid, passando de 62,62% em 2014.4 para 62,64% em 2019.4 (confira o mapa interativo). Durante a pandemia, a redução na proporção dos jovens não matriculados em instituições de ensino atingiu o nível mais baixo da série em 2020.4, com 57,95%. De acordo com Neri, isso se explica pela própria crise econômica. “A recessão, ao diminuir alternativas trabalhistas a todos, e aos mais jovens em especial, pode explicar a baixa da evasão. A falta de cobrança de presença nas escolas e a aprovação automática são outros possíveis fatores por trás da volta ou da maior permanência escolar dos jovens”, ressaltou.

De acordo com o economista, é preciso cuidado ao analisar esses dados, pois os índices da população nem-nem tanto revelam como escondem alguns detalhes. “Até certo ponto, a surpreendente queda da evasão escolar dos jovens acompanhou a alta da desocupação trabalhista. É preciso simultaneamente ampliar e detalhar os elementos da decadência trabalhista ocorrida entre os jovens, incorporando o próprio efeito instrumental da educação obtida sobre salários e produtividade”, comenta.

Fonte: OPovo

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