Paciente do Ceará recupera sensibilidade térmica três meses após receber polilaminina
O jovem Nicolas Henrique Lima Dantas, de 20 anos, apresentou recuperação de parte da sensibilidade térmica nos membros inferiores cerca de três meses depois de receber uma aplicação de polilaminina no Instituto Dr. José Frota (IJF), em Fortaleza. Ele foi o primeiro paciente submetido ao procedimento pelo Sistema Único de Saúde no Ceará.
Nicolas passou a identificar estímulos de calor e frio nas pernas, regiões onde não apresentava sensibilidade após sofrer uma grave lesão na medula espinhal. A evolução vem sendo acompanhada pela equipe médica responsável pelo tratamento e ocorre enquanto a polilaminina permanece em fase experimental. Os dados disponíveis ainda não permitem afirmar que a substância seja eficaz para reverter lesões medulares de maneira geral.
Jovem ficou paraplégico após ser atingido por disparo
A rotina de Nicolas mudou no fim de 2025, quando ele foi atingido por um disparo de arma de fogo em Fortaleza. O jovem sofreu uma lesão traumática na região torácica da medula, na altura da vértebra T8, e recebeu diagnóstico de paraplegia.
O quadro foi classificado como ASIA-A, denominação utilizada para lesões medulares consideradas completas, caracterizadas pela ausência de função motora e sensitiva abaixo da região afetada.
Depois de passar pelo tratamento inicial e pelo período de internação, Nicolas retornou ao IJF em maio deste ano. No dia 23 daquele mês, foi submetido à aplicação da polilaminina diretamente na região lesionada da medula, em um procedimento cirúrgico que durou aproximadamente uma hora.
A intervenção marcou a primeira utilização do protocolo em um paciente atendido pelo SUS no Ceará.
Sensibilidade começou a retornar
Durante o acompanhamento realizado nos meses seguintes, Nicolas percebeu mudanças que não estavam presentes desde a lesão. Uma delas foi a capacidade de diferenciar temperaturas em contato com os membros inferiores.
Segundo informações repassadas pela equipe que acompanha o caso, o paciente passou a perceber estímulos como frio e calor nas pernas. Para Nicolas e a família, a descoberta ocorreu durante situações cotidianas, quando ele começou a relatar incômodos e sensações em regiões que anteriormente não conseguia sentir.
O resultado é considerado uma evolução neurológica dentro do acompanhamento do paciente, mas não representa uma recuperação completa. Nicolas ainda não recuperou os movimentos das pernas e permanece submetido a um programa de reabilitação.
Fisioterapia faz parte do acompanhamento
A aplicação da polilaminina não ocorre de maneira isolada. O acompanhamento dos pacientes inclui fisioterapia e reabilitação intensiva, fundamentais para avaliar possíveis alterações motoras e sensitivas ao longo do tempo.
A expectativa dos profissionais é observar se a evolução apresentada na sensibilidade poderá ser acompanhada posteriormente por algum grau de recuperação motora. Entretanto, não é possível antecipar se isso ocorrerá no caso de Nicolas.
O jovem segue realizando atividades voltadas à reabilitação e ao ganho de autonomia. A evolução continuará sendo avaliada por profissionais de diferentes áreas.
Polilaminina ainda é experimental
Apesar dos resultados observados em Nicolas e em outros pacientes acompanhados no país, a polilaminina ainda não é um tratamento aprovado para uso rotineiro contra paraplegia ou tetraplegia.
Em janeiro de 2026, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária autorizou um estudo clínico de fase 1 para avaliar a segurança da aplicação da substância em pessoas com trauma raquimedular agudo. Nesta etapa, o principal objetivo é verificar a segurança e a tolerabilidade do procedimento, e não comprovar definitivamente sua eficácia.
A polilaminina utilizada nos estudos é administrada diretamente na região lesionada da medula. A substância deriva da laminina, uma proteína encontrada naturalmente no organismo e relacionada a diferentes processos biológicos.
Pesquisadores investigam se sua forma polimerizada pode favorecer processos relacionados à regeneração e à reorganização de estruturas nervosas depois de uma lesão.
Primeiro estudo em humanos teve resultados considerados promissores
Um estudo piloto realizado anteriormente com oito pacientes com lesões traumáticas completas na medula registrou melhora neurológica em seis participantes. O trabalho foi posteriormente publicado na revista científica Spinal Cord.
Apesar dos resultados observados, os próprios pesquisadores destacam que o desenho desse estudo inicial não permite concluir que as melhoras tenham sido provocadas exclusivamente pela polilaminina nem comprovar a eficácia do tratamento.
Por esse motivo, são necessários estudos controlados, com maior número de participantes e acompanhamento científico mais amplo antes que a terapia possa ser considerada comprovadamente eficaz.
IJF realizou nova aplicação em agosto
O Instituto Dr. José Frota realizou, no dia 15 de agosto, o segundo procedimento com polilaminina em um paciente atendido dentro do protocolo na unidade.
O segundo paciente é um homem de 27 anos que sofreu trauma raquimedular e chegou ao hospital com quadro de paraplegia. Exames identificaram uma lesão completa na altura da sexta vértebra torácica, também classificada como ASIA-A. A aplicação ocorreu quatro dias após a entrada dele no hospital.
A continuidade do acompanhamento de Nicolas e dos demais pacientes poderá fornecer novas informações sobre segurança, recuperação sensitiva e possíveis alterações motoras.
No caso do primeiro paciente cearense, o retorno da percepção de temperatura três meses após o procedimento representa uma mudança em relação ao quadro apresentado antes da aplicação. A ciência, porém, ainda precisa determinar qual é o real papel da polilaminina nessa evolução e se resultados semelhantes poderão ser reproduzidos de forma segura em um número maior de pessoas.
Fonte: G1

