Policial denunciado por assediar advogadas no Ceará confessa crimes e alega transtorno psiquiátrico

O policial penal apresentou um atestado médico. Ele teve acesso à lista de telefone de advogadas que visitavam presídios e enviava mensagens constrangedoras. Após a primeira denúncia, outras cinco mulheres relataram situações similares.

O policial penal denunciado por assédio sexual de advogadas que atuam na Região Metropolitana de Fortaleza confessou, em depoimento, os crimes contra as profissionais e alegou transtorno psiquiátrico. O policial penal apresentou um atestado médico.

A Controladoria Geral de Disciplina dos Órgãos de Segurança Pública e Sistema Penitenciário (CGD) afastou o agente. A CGD informou que um processo administrativo foi instaurado e o caso é investigado. Detalhes não serão repassados e segue em sigilo com objetivo de preservar as identidades das advogadas.

Conforme a denúncia, o servidor teve acesso a uma lista das advogadas que acessavam os presídios para visitar clientes, onde constava o contato telefônico delas. Ele usava redes sociais e aplicativos de mensagem para enviar mensagens constrangedoras. Uma advogada relatou que ele ofereceu R$ 2 mil para ter relação sexual com ela.

Desde a primeira denúncia, outras cinco mulheres relataram situações similares. Quatro já prestaram depoimento e outras duas estão com depoimentos marcados.

Na quinta-feira (3), o advogado dele, Walmir Medeiros, informou que o agente entregou o celular à perícia, mas não negou, nem confirmou, a versão apresentada pelas vítimas.

O homem ligava para as vítimas com número oculto e também mandava mensagens através de um perfil falso nas redes sociais. Uma das advogadas passa por esse assédio constantemente há um ano — mesmo período de tempo em que as outras vítimas foram assediadas pela primeira vez. Ela conseguiu convencê-lo a fazer uma videochamada, e assim identificou quem era o autor do assédio — posteriormente identificado como policial penal.

O advogado dele comentou sobre o depoimento. “Ele não disse nada em definitivo. Ele falou coisa genérica, sobre o comportamento dele, sobre como ele usava o celular. Não definiu se ele tinha alguma conversa com alguma delas especificamente. Ele deixou isso para o último depoimento”, explicou Medeiros.

No depoimento, ele não confirmou ou negou se tem contato com a denunciante — a que conseguiu fazer a videochamada. “Só depois, quando nós tivermos conhecimento dos depoimentos delas, é que ele falará. Por enquanto, ele está tentando organizar a cabeça dele para depois falar alguma coisa”, disse o representante da defesa.

O advogado argumentou ainda sobre o histórico do policial penal. “Sempre teve bom comportamento, sempre foi respeitado, nunca teve nenhum problema, denúncia de nada, de comportamento interno errado, nada”, complementou.

Mais de 30 ligações

Advogada fez cópia das conversas em que policial penal cometia assédio — Foto: Arquivo pessoal

“Nas ligações, o interlocutor falava diversas imoralidades, que estava se masturbando, que ia fazer isso e aquilo comigo. De início eu esculhambava, pedia para me deixar em paz. No entanto, ele insistia chegando a ligar mais de 30 vezes. Essa situação não parou, pelo contrário, foi se agravando”, relatou a vítima.

Foi esta vítima quem conseguiu convencer o suspeito a realizar uma videochamada, nesta segunda-feira (31), e capturou a imagem do rosto do homem — posteriormente identificado como agente penitenciário da Casa de Privação Provisória de Liberdade Professor Clodoaldo Pinto (CPPL 2), em Itaitinga, na Região Metropolitana de Fortaleza. Ele aceitou a videochamada após ela fingir que estava interessada nas propostas dele.

“Agi por conta própria para tentar identificar o assediador e desta forma fingi que queria e pedi a ele para fazer uma chamada de vídeo. Consegui então a foto e hoje buscamos os órgãos competentes para punir o agressor. Ainda estou muito abalada, pois as palavras de assédio são de extremo grau de ofensa, imoralidades e ainda pelo visível grau de descaso que o agente apresenta, demonstrando não temer a justiça e agindo como um maníaco sexual”, complementou a vítima.

“Toda vez que ela saía para realizar os atendimentos penitenciários, acontecia essas ligações com palavras do mais baixo calão possível. Perguntando quanto era o ‘programa’ dela, dizendo que ela estava muito linda com roupa tal. Aí ela começou a observar [como acontecia]”, explicou Raphaele Farrapo, advogada que representa uma das vítimas.

A advogada disse que a cliente dela, então, recebeu uma ligação em que o suspeito comentou sobre a roupa que ela usava. Foi neste momento em que ela identificou a unidade onde ele trabalhava, já que no mesmo dia ela usou a vestimenta para ir exclusivamente à CPPL II.

Raphaele Farrapo explicou que relatou o caso em um grupo de aplicativo de mensagens, onde estão outras advogadas. Então, as outras vítimas entraram em contato com ela, após notarem a similaridade dos casos. As vítimas desconfiam que o homem teve acesso aos números delas que constam no sistema da SAP, já que trabalham nas unidades prisionais do estado.

 

Fonte: G1