Polinésia Alemã: jogador que finaliza com os braços ganha destaque no futebol de várzea cearense
No distrito de Betânia, em Croatá, no interior do Ceará, um atleta chama atenção por desafiar os limites dentro de campo. Sem as pernas e com apenas alguns dedos nas mãos, Arlindo Bezerra encontrou nos braços uma maneira particular de jogar futebol.Conhecido como Polinésia Alemã, Arlindo se tornou personagem dos campeonatos de futebol da região e passou a chamar atenção também nas redes sociais. Aos 27 anos, transformou uma limitação física em uma característica única dentro das quatro linhas: usa os braços para colocar a bola em jogo e, principalmente, para finalizar.
Início
A história começou ainda na infância. Filho de agricultores, Arlindo não teve acesso a acompanhamento médico ou fisioterápico nos primeiros anos de vida. Desde pequeno, aprendeu a se locomover se arrastando e cresceu acompanhando de perto as partidas disputadas em um campo de terra próximo à casa da família.
No início, ocupava a posição de goleiro. Foi, inclusive, nessa função que começou a aparecer em vídeos nas redes sociais. Com o passar do tempo, porém, os companheiros perceberam que ele poderia contribuir também na linha.
Jeito próprio de jogar futebol
A dificuldade para se movimentar com velocidade não tirou de Arlindo a vontade de competir. Pelo contrário. Ele passou a disputar campeonatos na região e, desde 2018, tornou-se presença frequente nas partidas do distrito de Betânia.
Os companheiros do próprio futebol de várzea passaram a permitir que ele utilizasse os braços para colocar a bola em jogo e finalizar. O que poderia ser uma barreira acabou se transformando em sua característica.
Chegada na internet
A habilidade do jovem deixou de ficar restrita aos campos de Croatá. A partir de 2022, ele passou a publicar vídeos mostrando suas finalizações e momentos das partidas.
Luva de Pedreiro, fenômeno das redes sociais que ganhou notoriedade com vídeos simples de futebol, passou a ser sua inspiração. O atleta amador decidiu seguir um caminho parecido, mas acrescentando aquilo que já era exclusivamente seu: a forma de jogar futebol usando os braços.
No começo, a estrutura era improvisada. Ele gravava os vídeos com um celular simples e usava uma cadeira de plástico como apoio para fazer as imagens. Quando a memória do aparelho ficava cheia, precisava apagar arquivos depois de publicar os vídeos.
“Eu levei meu celular só para fazer uma gravação de boa, sem nada espetacular. Tinha uma cadeira velha lá e usei como tripé. Coloquei no meio do campo e fiquei chutando para o meu primo (que estava no gol). Foi aí que saiu aquele lance legal”, relembra primeiro vídeo.
Com o crescimento das visualizações, fez um investimento importante para a realidade da família e comprou um smartphone mais moderno. Um parente também emprestou um tripé, que recebeu uma adaptação feita com pedaços de madeira.
“No primeiro dia, começou a ter umas visualizações legais. Chegou a cinco mil. No segundo, já estava em 20 mil. Em uma semana, esse vídeo chegou a mais de 300 mil visualizações”, conta sobre as primeiras aparições.
Atualmente, Arlindo também aposta nas transmissões ao vivo. Os melhores momentos das lives são editados e publicados em diferentes plataformas.
“Hoje sou mais focado nas lives do que nos vídeos. Quando acontece algum lance legal, uma finalização bonita ou alguma coisa diferente, eu baixo a live, edito e posto os melhores momentos. Geralmente, são vídeos de um minuto, um minuto e pouco”, explica.
TV 100 Futuro e ascensão
A história do jogador também se mistura com a tradição dos campeonatos de futebol do distrito de Betânia, que ganharam notoriedade por meio das transmissões da TV 100 Futuro.
Foi nesse ambiente, entre amigos, jogadores e torcedores, que surgiu o apelido Polinésia Alemã. A autoria é de Josiano Morais, seu primo e um dos responsáveis pela organização dos campeonatos.
O momento de exposição nas transmissões ajudou a tornar o personagem ainda mais conhecido na região. Mas é no futebol de várzea, perto de casa, que Arlindo construiu a própria história.
No esporte de Croatá, ele não precisa de pernas para ser atleta. Quando a bola chega, se posiciona, prepara o corpo e bate. Com os braços, encontrou o próprio jeito de fazer aquilo que sempre quis.
E foi justamente essa maneira incomum de jogar que transformou uma gravação feita de forma improvisada em um dos primeiros grandes momentos de sua trajetória na internet.
Fonte: Diário do Nordeste

