A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que quase 11 milhões vão contrair o vírus causador do sarampo em 2026. A maioria desses casos será na África e na Ásia, mas muitos países das Américas e Europa estão relatando surtos que afetam centenas ou até milhares de pessoas.
Não há tratamento para o sarampo, mas as vacinas provaram ser seguras e eficazes na prevenção da doença. Pessoas não vacinadas que contraem sarampo correm o risco de complicações graves que podem levar à surdez, cegueira e morte. O risco de um desfecho adverso é maior em pessoas desnutridas e sem acesso a cuidados médicos adequados.
Como epidemiologista de doenças infecciosas, estudo as razões por trás das mudanças nos riscos à saúde da população em todo o mundo. Os fatores específicos que levam a epidemias de sarampo variam de acordo com o país, mas a causa subjacente em todos os lugares é a redução nas taxas de vacinação.
Crianças sem vacina em países de baixa renda
A grande maioria dos pais em todo o mundo deseja proteger seus filhos contra doenças infecciosas evitáveis por meio da vacinação. Em muitos países de baixa renda, no entanto, o fornecimento de vacinas continua insuficiente para atender à demanda.
Como o sarampo é altamente contagioso, a taxa de cobertura vacinal precisa estar acima de 95% para proteger uma comunidade contra surtos, criando o que é conhecido como “imunidade coletiva”, ou “imunidade de rebanho”. Uma dose da vacina contra o sarampo protege a maioria das pessoas contra a doença, mas são recomendadas duas doses para aumentar a eficácia.
A maioria dos países de alta renda apresenta taxas de vacinação contra o sarampo próximas à meta de 95%. Na Europa, a taxa média de vacinação com uma dose é de cerca de 94%, e a taxa de duas doses é de cerca de 88%. Nos EUA, mais de 90% das crianças de até 2 anos receberam pelo menos uma dose da vacina contra o sarampo e mais de 92% das crianças em idade pré-escolar receberam duas doses. A taxa de cobertura vacinal está acima de 95% em muitas comunidades, embora seja muito mais baixa em alguns distritos escolares.
Em contrapartida, só cerca de 80% das crianças pequenas em países de baixa e média renda receberam pelo menos uma dose da vacina contra o sarampo, e apenas cerca de 70% receberam duas doses.
Quase todos os países tiveram acesso reduzido às vacinas durante os primeiros meses da pandemia da COVID-19, quando as cadeias de abastecimento e o acesso aos postos de vacinação foram gravemente prejudicados. A maioria das crianças pequenas em países de alta renda conseguiu recuperar as doses perdidas antes de atingir a idade escolar. Mas, em países de baixa renda, milhões de crianças que perderam as vacinações de rotina durante a pandemia ainda são classificadas como “crianças com zero doses”, que não receberam nenhuma das vacinas recomendadas em seus países.
Apenas uma fração minúscula dos casos de sarampo diagnosticados em países de baixa renda é confirmada por exames laboratoriais e notificada às autoridades de saúde pública. Assim, é impossível obter um número exato de casos. Profissionais de saúde, no entanto, relataram ter observado um número de casos acima do normal em muitos destes países durante o último ano.
Em 2026, foram relatadas epidemias de sarampo em países que passam por conflitos armados ou que abrigam refugiados deslocados pela guerra, como Burundi, República Democrática do Congo, Somália, Sudão e Iêmen.
Também foram relatados surtos em países em paz, incluindo as Maldivas e Zâmbia, e os casos estão aumentando na Índia. Dezenas de outros países também estão enfrentando epidemias. Todas essas situações estão relacionadas à baixa cobertura vacinal.
Escassez de vacinas em Bangladesh
Bangladesh registrou mais casos de sarampo este ano do que qualquer outro país do mundo, e mais de 900 pessoas morreram em decorrência da infecção.
Embora Bangladesh enfrente muitos dos mesmos desafios que outros países de baixa e média renda, os últimos anos trouxeram algumas dificuldades específicas.
Em 2024, o governo de longa data do país entrou em colapso e um governo interino foi empossado. Durante esse período de instabilidade política, o governo encomendou um número insuficiente de doses de vacinas.
Em 2025, a escassez de vacinas se agravou quando o governo interino decidiu interromper a aquisição de vacinas por meio do Unicef e, em vez disso, tentou comprá-las por meio de um processo de licitação antes que novas cadeias de abastecimento fossem estabelecidas.
Bangladesh retomou agora a parceria com o Unicef para adquirir vacinas. Infelizmente, o país voltou a recorrer ao Unicef em um momento em que sua organização parceira, a Gavi, a Aliança para as Vacinas, está enfrentando cortes no financiamento.
De acordo com o modelo de cofinanciamento da Gavi, as compras iniciais de vacinas por países de baixa e média renda são subsidiadas por contribuições de países de alta renda e outros investidores. Com o tempo, os países de renda mais baixa passam a arcar com uma parcela cada vez maior dos custos das vacinas.
Como a Gavi agrupa pedidos de todo o mundo, ela consegue moldar os mercados e negociar com os fabricantes de vacinas para obter custos mais baixos por dose. A principal limitação desse sistema é que a redução do financiamento para a saúde global diminui o orçamento destinado ao subsídio das compras de vacinas.
Mas, desde 2025, a França, a Alemanha, o Reino Unido, os EUA e vários outros países de alta renda têm reduzido significativamente seus orçamentos para assistência ao desenvolvimento, deixando a Gavi com um déficit orçamentário substancial.
À medida que a economia de Bangladesh cresce, o país vem arcando com uma parcela maior dos custos das vacinas que adquire por meio da Gavi. O país, no entanto, ainda não dispõe de recursos para autofinanciar integralmente seu programa de vacinação. Por enquanto, se o orçamento da Gavi não for totalmente reposto, países como Bangladesh não terão recursos suficientes para comprar todas as vacinas de que precisam.
Embora uma campanha de vacinação em massa no início de 2026 tenha imunizado mais de 1 milhão de crianças de Bangladesh contra o sarampo, a porcentagem de criançasvacinadas permanece muito abaixo do limite de 95% necessário para evitar epidemias generalizadas.
Fonte: Ceará Agora

