Uma fábrica não se constrói com a mesma velocidade de um clique
De autoria do superintendente da Associação Brasileira da IndústriaTêxtil e de Confecções (Abit), Fernando Valente Pimentel, o texto a seguir é uma análise a respeito do estágio atual do setor produtivo industrial brasileiro, que, entre outras coisas, enfrenta a perda de espaço da produção nacional para os importados e a dificuldade de enxergar condições para investir.
O que a seguir está escrito deve merecer a atenção de quem produz e trabalha neste país. Se conteúdo motiva a reflexão diante de problemas para os quais a solução se mostra ainda distante. Leia-o:
“Comprar pode levar segundos. Construir a capacidade de produzir exige anos. Essa diferença de tempo deveria estar no centro das decisões que afetam o futuro da indústria brasileira.
“Tenho recebido manifestações de industriais de diferentes segmentos da cadeia têxtil e de confecção. São relatos de preocupação com o consumo enfraquecido, a perda de espaço da produção nacional para os importados e a dificuldade de enxergar condições para investir. Por trás dessas mensagens estão empresários que construíram seus negócios ao longo de décadas e hoje se perguntam o que será de suas empresas, de seus trabalhadores e das comunidades das quais fazem parte.
“É preciso ouvir essas vozes. Elas expressam uma inquietação que ultrapassa os limites das fábricas e diz respeito à capacidade do Brasil de gerar renda e sustentar seu desenvolvimento.
“Uma indústria reúne muito mais que máquinas, paredes e estoques. Há profissionais cuja formação exige tempo e experiência. Há fornecedores que desenvolvem soluções em conjunto, escolas que preparam trabalhadores, centros de pesquisa que aproximam conhecimento e produção. Há tecnologia, relações de confiança e competências que se aperfeiçoam a cada desafio superado.
“Esse patrimônio foi construído por gerações. Quando uma fábrica encerra suas atividades, parte dessa rede também se enfraquece. Profissionais se dispersam, fornecedores perdem escala e conhecimentos deixam de ser transmitidos. Mesmo que a demanda retorne, recompor essa capacidade pode exigir muito mais do que reabrir os portões.
“O Brasil possui um ecossistema produtivo robusto, diversificado e capaz de reagir. Na cadeia têxtil e de confecção, essa força está na conexão entre fibras, fios, tecidos, beneficiamento, vestuário e outros produtos que chegam diariamente à população. Está também nas instituições de ensino, nos serviços, na logística e no comércio que participam dessa construção.
“Valorizar esse conjunto exige compreender a relação entre produção e consumo.
“Para um varejista, comprar mais barato na Ásia pode representar uma decisão comercial atraente. Para uma família com orçamento apertado, economizar numa compra faz diferença. Essas escolhas são compreensíveis. Mas, quando olhamos a economia como um todo, precisamos perguntar como será sustentada a renda que permite continuar comprando.
“O consumidor e o trabalhador são a mesma pessoa. O salário que entra em uma casa se transforma em compras no comércio, pagamento de serviços e oportunidades para outros negócios. Uma encomenda feita à indústria movimenta fornecedores, transportadores e prestadores de serviços. Quando essas conexões se enfraquecem, seus efeitos alcançam também quem depende de um mercado consumidor forte.
“Há uma interdependência que nenhuma estratégia de desenvolvimento pode ignorar: precisamos de empresas capazes de produzir e empregar para que as famílias tenham renda e o consumo possa crescer de forma sustentável.
“O comércio internacional tem lugar nessa estratégia. Importações convencionais e pequenas encomendas fazem parte do mercado e precisam operar sob condições tributárias e regulatórias que assegurem concorrência equilibrada. A origem do produto não pode servir de justificativa para diferenças injustificadas nas obrigações de quem disputa o mesmo consumidor.
“Às empresas brasileiras cabe continuar investindo em produtividade, inovação, qualificação e qualidade. Esse compromisso é indispensável. Ao poder público cabe criar condições para que o esforço empresarial encontre perspectivas de retorno: financiamento compatível com a atividade produtiva, segurança para investir, infraestrutura eficiente e coerência entre as políticas que afetam a produção.
“Educação, tecnologia e indústria precisam caminhar juntas. Formar pessoas e desenvolver conhecimento ganha ainda mais valor quando existem empresas capazes de transformar essas competências em produtos, trabalho e renda.
“A preocupação dos industriais precisa encontrar respostas concretas. Temos capacidade instalada, experiência e disposição para construir o futuro. Precisamos fortalecer as condições que permitam a esse ecossistema avançar.
“Uma fábrica não se constrói com a mesma velocidade de um clique. As decisões tomadas hoje devem reconhecer o tempo necessário para construir esse patrimônio — e a responsabilidade de assegurar que ele continue gerando oportunidades para as próximas gerações.”
Fonte:Diário do Nordeste

