36% dos aprovados no ITA estudaram em Fortaleza; entenda por que o Ceará tem alta aprovação

Levantamento do Instituto Tecnológico de Aeronáutica mostra que, nos vestibulares de 2012 a 2022, estudantes da capital cearense ocuparam 543 das 1.478 vagas disponíveis.

Os estudantes de Fortaleza ocuparam 36,7% das vagas do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), um dos vestibulares mais difíceis do país. Das 1.478 vagas disponibilizadas no vestibular entre 2012 e 2022, 543 foram de estudantes que se matricularam na capital cearense.

O g1 conversou com ex-alunos e representante de escolas particulares cearenses para entender os altos níveis de aprovação do Ceará em dois dos vestibulares mais difíceis do país. Entre os pontos citados, estão:

tradição de preparo diferenciado de candidatos;
modelo pedagógico das escolas, com turmas específicas para quem tenta ITA e IME;
oferta de bolsas de estudo para alunos que se destacam;
‘olheiros’ nas escolas que buscam os melhores alunos do estado.
Além do vestibular do ITA, o Instituto Militar de Engenharia (IME) também possui altos índices de aprovação no estado. Contabilização do Sindicato dos Estabelecimentos Particulares de Ensino do Ceará (Sinepe-CE) apontou que o Ceará tinha média de aprovação de 30% a cada concurso da instituição realizado até 2017.

Nesta quarta-feira (14), o jovem Caio Temponi, de 14 anos, recebeu a notícia de que foi a pessoa mais jovem já aprovada no ITA. Ele estuda no colégio Farias Brito, em Fortaleza, e recebeu uma ligação do reitor da instituição, Anderson Correia, parabenizando-o pela marca atingida.

Fortaleza foi também a cidade que mais aprovou alunos do país em oito dos últimos 11 anos no ITA. Em 2017, 2019 e 2020, a capital cearense ficou atrás apenas de São José dos Campos, em São Paulo, sede do ITA.

O curso mais concorrido, para candidatos da Ativa e da Reserva, foi Engenharia Aeroespacial. Das 150 vagas disponíveis, 61 foram ocupadas por candidatos que estudaram em Fortaleza.

O ITA oferece seis especialidades de engenharia: Engenharia Aeronáutica, Engenharia de Computação, Engenharia Eletrônica, Engenharia Civil-Aeronáutica, Engenharia Mecânica-Aeronáutica e Engenharia Aeroespacial.

Tradição do modelo de ensino

Conforme Graça Bringel, presidente do Sinepe-CE, o sucesso do estado nos números de aprovações no ITA e no IME é resultado de uma “vocação do Ceará” para educação.

“Os gestores cearenses têm sangue no olho”, afirmou. Para ela, a relação do estado com o ITA vem de berço — a instituição foi fundada pelo Marechal Casimiro Montenegro Filho, natural de Fortaleza — e se mantém com o tempo. “Se quiser encontrar o cearense, é só buscar no ITA que encontra”, disse, aos risos.

A presidente do sindicato destacou que os índices de aprovação do estado tiveram base em um modelo de gestão de ensino iniciada no Colégio Geo Studio, atualmente fechado. Lá, surgiu a primeira turma preparatória para o ITA, e o modelo foi incorporado a outras escolas.

“Há um investimento em tecnologia, em profissionais de ponta, emocional. Todos esses alunos são acompanhados por psicólogas, têm a família também… Acho que encontraram uma maneira de preparar os alunos, uma receita que deu certo.”

A perspectiva de Bringel vai ao encontro da opinião de Manoel José. O pesquisador acredita que o sucesso do Ceará nesses certames “tem muito a ver” com professores que construíram modelos pedagógicos nos anos 1980 e 1990. Naquele período, o estado era subvalorizado em comparação com São Paulo, o que mudou nas últimas décadas.

“Tem muito a ver com toda a história que foi desenvolvida, em como as escolas cearenses fizeram uma gestão. O pessoal costuma brincar, até: ‘o que colocam na água do cearense?'”, comentou.

Apesar disso, ele salientou que o número de aprovação dos estados é “inflado” — não necessariamente os aprovados são naturais das unidades federativas em que são representados.

Segundo ele, uma escola de São José dos Campos (SP), cidade em que o ITA funciona, já chegou a aprovar 43 alunos numa turma de 110. No entanto, apenas um deles era natural do município paulista; os demais, de outros estados. A realidade é parecida com o que ocorre no Ceará, apontou, fazendo uma ressalva: a naturalidade cearense ainda é maioria.

O analista de risco Edwin Ponte destacou que as instituições cearenses fazem muitos investimentos no modelo pedagógico de preparação, o que se estende à manutenção da permanência dos alunos na rotina de estudos. “Tinha amigos que o colégio pagava almoço, aluguel, táxi às vezes… Tem uma vontade muito grande de trazer bons alunos pro Ceará”, afirmou.

“Você tem uma facilidade de conseguir bolsas, auxílios, se demonstrar uma vontade muito grande de estar ali”, contou, indicando, ainda, ter percebido que o fato de prestar vestibular é mais valorizado no Estado. Para ele, mesmo que não tivesse passado na prova, a percepção dele por outros círculos sociais seria positiva, dado que ele passara por uma rotina de estudos difícil.

“No Ceará, você é incentivado a passar numa boa universidade, fazer concurso, estudar muito… Fazer uma prova pra passar.”

Além disso, o Ceará já mantém uma rede de profissionais experientes com o ensino preparatório para o ITA e o IME, com práticas diferenciadas entre as escolas. Embora os profissionais possam ser os mesmos em alguns estabelecimentos, cada projeto pedagógico traz tipos de aula, metodologias e acompanhamentos diferenciados, dispôs Graça Bringel.

Dedicação e preparo

Um dos cearenses aprovados no ITA foi o pesquisador Manoel José da Silva Neto, 25 anos. Atualmente formado em Engenharia Mecânica pela instituição, ele ressaltou que o percurso até a aprovação no vestibular levou anos — a preparação começou antes mesmo do ensino médio, no 9º ano do ensino fundamental.

À época, o então estudante do Colégio 7 de Setembro passou a assistir a aulas preparatórias para olimpíadas de física e matemática, além de fazer aulas extras na turma ITA da escola. O percurso o levou a nutrir gosto por tais matérias, um aspecto necessário para quem quer entrar na instituição militar.

A inclinação para as disciplinas de exatas também se fez presente no caminho do analista de risco Edwin Ponte Aguiar, 27 anos. Vindo de uma família em que os parentes eram metade médicos, metade advogados, ele se viu distante das duas áreas pelo gosto e pela aptidão em matemática. “Ou faria concurso, ou passaria em medicina, na perspectiva da família”, lembrou. “A ideia era fugir disso sem ser crucificado.”

 

Manoel José e Edwin Ponte se formaram nas instituições militares e seguiram rumos distintos das áreas em que estudaram. — Foto: Arquivo pessoal

Assim, o ex-estudante do Colégio Master passou a se preparar para o vestibular desde o 9º ano, em turma especial para as instituições militares. Anos depois, em 2016, ele passou no certame do IME, onde estudou Engenharia Elétrica.

Ritmo de estudo

Além do gosto pelos cálculos, os estudantes devem ter, ainda, a disposição de seguir uma rotina intensiva de estudos. Manoel José saía às 6h de casa para as aulas, que começavam às 7h15, e chegava ao lar às 20h. Aos sábados, descansava; aos domingos, voltava a estudar. O cotidiano era parecido com o de Edwin, que, seja sozinho, seja em classe, estudava pelo menos das 8h às 20h.

A carga horária intensa de ambos era permeada por atividades comuns a quem se prepara para vestibulares. Entre elas, havia resolução de simulados, questões de provas anteriores e revisão dos cálculos das matérias em sala, na qual a participação dos alunos sempre foi estimulada, apontou Edwin.

“Foi uma caminhada. Desde o ensino médio, você vai construindo uma base que é totalmente focada, numa turma separada das demais”, relatou, citando que os cálculos se davam, também, em torno das taxas de acerto no vestibular. “Você geralmente se preparava pro mais difícil.”
De acordo com o analista de risco, os estudantes são preparados para provas mais difíceis que as oficiais. “Um tipo de erro fácil conta muito numa prova fácil, em que você consegue fazer todas as questões”, disse. Numa edição difícil, a meta era de ter 80% de resolução. “É você conhecer bem a prova, não ser surpreendido e pontuar o que precisava.”

Edwin Ponte passou a atuar como analista de risco em razão de a área requerer base forte em matemática. — Foto: Arquivo pessoal

Essa tática também foi presente na rotina de Manoel José. O pesquisador afirmou que, após simulados, o exercício das questões erradas era incentivado, dado que elas tinham de ser revisadas para os equívocos não se repetirem em perguntas similares.

No caso dele, que não passou no ITA na primeira tentativa, o foco foi mudar a metodologia de estudos e focar em deficiências do ano anterior. Assim, ele entrou em curso preparatório do Colégio Ari de Sá e reforçou o estudo de matérias como inglês para o IME — que requer uma redação no idioma, eliminatória — e química orgânica.

“É muito clássico fazer simulado e entregar a resolução. Além de fazer as resoluções, eu tentava reproduzir com minha forma de raciocinar as questões que tinha errado”, disse, apontando que, no caso do ITA, a prova passou por diversas mudanças em 50 anos, mas manteve o nível de dificuldade.

“Eu focava nos pontos mais fracos, porque era onde tinha mais margem para melhorar”, ressaltou.

Manoel José posando com carro construído por alunos do ITA para representar a instituição em competições estudantis. — Foto: Arquivo pessoal

Limitações do modelo

Apesar de o modelo de ensino cearense ter uma alta taxa de aprovação no ITA e no IME, os estudantes cearenses podem esbarrar na falta de conhecimento sobre o funcionamento das instituições.

No caso de Manoel José, por exemplo, ele sabia que a instituição é renomada e pode oferecer independência, inclusive financeira, mas não sobre como seria a permanência dele no ITA numa eventual aprovação.

“Não tinha muita expectativa; pra ser bem sincero, não entendia muito o que ia fazer. Eu só tinha a ideia de que queria passar no ITA”, afirmou. A experiência dos alojamentos — espaço que acolhe os alunos — chamava atenção, mas era pouco conhecida.

“A grande experiência é ter um espaço para acolher os alunos, e tem muitas tradições lá. Algo que você só vê no ITA e no IME. Dá uma união muito grande, fortalecimento das capacidades, atividades extracurriculares e vivências.”

Edwin Ponte, por sua vez, destacou um ponto que gostaria que fosse dito, mas só descobriu depois: “a vida não acaba no vestibular”, que também não deve ser encarado como a única oportunidade da vida. “Quando você passa numa dessas instituições, é certeza que outros desafios serão maiores”.

“Se tentar cinco vezes e não passar, é o lance de saber que aquilo ali não é a unica oportunidade […] E a vida depois do curso também não é um mar de rosas. As empresas não chegam recebendo de braços abertos.”
Além disso, as dificuldades cotidianas nas instituições também não são mencionadas. O analista de risco ressaltou que o IME é um ambiente militar, e inerentes à disciplina requerida pelas Forças Armadas fazem parte da rotina.

“Já limpei banheiro, fiz várias coisas que nunca presenciei num ambiente normal de colégio e que dificilmente alguém presenciaria num ambiente normal de faculdade”, relatou, citando, ainda, as punições que poderiam ocorrer em alguns casos — inclusive em matérias que, no ensino médio, não recebeu a mesma cobrança.

Uma delas, segundo ele, era a disciplina de educação física. “Você tinha de fazer [a matéria], e tinha uma prova. Se não passasse, ficaria na faculdade fardado, perdendo um fim de semana”, lembrou. “Uma pressão diferente que nunca tinha ouvido falar.”

 

Fonte: G1

 

 

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