Parsifal Barroso: a complexa arte de deixar o poder na política cearense

A trajetória de Parsifal Barroso, figura emblemática da política cearense, transcende a mera atuação partidária para se firmar como um verdadeiro intelectual renascentista, conforme a definição de Djacir Menezes. Sua vida pública, marcada por vasta cultura e profundas reflexões, oferece lições atemporais sobre o poder e seus desafios, especialmente o delicado momento de se afastar dele. O articulista Paulo Elpídio de Menezes Neto, em suas memórias, resgata a sabedoria desse mestre, revelando aspectos cruciais de sua visão.

Em 1968, ano de efervescência política e social no Brasil, Parsifal Barroso assumiu sua última função pública, um consolo para um político de sua envergadura: a direção pró-tempore da Faculdade de Ciências Sociais e Filosofia da Universidade Federal do Ceará (UFC). Nomeado interventor, sua missão era apaziguar um cenário de quase levante entre alunos e professores, insatisfeitos com a gestão do reitor da época. Este episódio, narrado por Menezes Neto em um de seus livros, ilustra a capacidade de Barroso de atuar em momentos de crise, mesmo em um período tão conturbado como os anos de chumbo dos governos militares.

O dilema de Parsifal: a sabedoria sobre o adeus ao poder

Entre as muitas reflexões compartilhadas por Parsifal Barroso, uma se destaca pela sua profundidade e relevância contínua: “Difícil é saber o momento adequado para afastar-se dos atavios do poder.” Essa frase, proferida em conversas com Paulo Elpídio, revela a complexidade inerente à vida política. Barroso explicava como muitos políticos, por descuido ou premeditação, perdiam a noção da oportunidade ideal para se retirar do cenário público, presos à “mosca azul” do poder.

Paradoxalmente, o próprio Parsifal, apesar de sua clareza sobre o tema, não foi imune a esse dilema. O autor observa que ele mesmo deixou a ocasião propícia para o recolhimento passar por diversas vezes, demonstrando que a teoria, por mais lúcida que seja, nem sempre se alinha à prática quando os atrativos do poder estão em jogo. A metáfora do tabuleiro de xadrez, onde os lances mais audaciosos nem sempre alcançam o intento, ilustra bem essa dança complexa entre ambição e oportunidade.

Entre a academia e os desafios do regime militar

A atuação de Parsifal Barroso como interventor na UFC foi um período de intensas trocas intelectuais. Nos corredores do antigo prédio da Rua Barão do Rio Branco, em Fortaleza, ele e Paulo Elpídio de Menezes Neto, por vezes acompanhados por Eduardo Diatahy e Hélio Barros, engajavam-se em longas conversas. Barroso era um causeur nato, dotado de uma memória prodigiosa e um domínio excepcional da palavra, que transformava cada diálogo em uma verdadeira aula de política e história.

O contexto da época, sob o governo Médici e o lema “Brasil, ame-o ou deixe-o”, impunha desafios. Mesmo aposentado e com vasta experiência política, Barroso aceitou a tarefa de interventor em uma faculdade marcada pela efervescência estudantil. Um episódio marcante foi uma conferência que ele se dispôs a fazer sobre o movimento revolucionário, nos primeiros cinco anos do regime. Cumprindo sugestões da DSI (Divisão de Segurança e Informação), braço dos órgãos de segurança na UFC, ele proferiu suas palavras para uma “obsequiosa audiência ausente” em 31 de março, data de triste lembrança.

O legado de um renascentista: cultura e influência

As conversas com Parsifal Barroso no que ele chamava de “pátio dos milagres” da UFC foram fundamentais para a formação política do autor. Ali, entre as velhas colunas desbotadas, Menezes Neto teve acesso à práxis da ciência política, à memorialística bem contada e a um português culto, incontrolável nos adjetivos e no gestual combativo. Barroso era um intelectual cooptado pela política do Ceará, mas que nunca se libertaria de sua “província profunda”.

Sua erudição se manifestava em diversos campos, desde a análise das suítes de Beethoven, com a mesma acuidade com que descrevia as proezas de seu sogro, o coronel Chico Monte, chefe de uma das mais fortes oligarquias cearenses. Foi com esse mestre exemplar que o autor aprendeu as primeiras lições sobre o poder e os perigos de navegar por suas entranhas sem a devida orientação, complementando seus estudos com as páginas de O Príncipe, de Maquiavel. A vida e os ensinamentos de Parsifal Barroso permanecem como um farol para entender as complexidades da política e a perene busca pelo equilíbrio entre o poder e a sabedoria de saber quando se afastar dele.

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