Por trás da exigência do Comando Vermelho (CV) para a renúncia do síndico de um condomínio residencial privado no bairro Messejana, em Fortaleza, está uma série de crimes previamente arquitetados, com plano de tomada de território e expansão dos ganhos financeiros da facção.
Na última semana, o Ministério Público do Ceará (MPCE) denunciou três homens por extorsão, ameaça e organização criminosa. Stenio Moreira de Sousa, Carlos Henrique Lucio Rodrigues, o ‘Goiabinha’, e Rafael de Souza Batista teriam exigido o controle administrativo do prédio e acesso irrestrito, ficando a cargo da facção permitir quais empresas poderiam fornecer gás, água mineral e internet no endereço.
A Polícia Civil do Ceará (PCCE) destacou ao fim da investigação que “os elementos informativos demonstram que a atuação dos investigados não se limitam ao tráfico ilícito de entorpecentes, mas revela um padrão organizado de intimidação coletiva destinado à obtenção de vantagem ilícita mediante grave ameaça, impondo aos moradores regras de convivência, restrições à instalação de equipamentos de segurança, indicação compulsória de fornecedores de serviços essenciais e tentativa de controle da administração condominial”.
Em dois meses, criminosos invadiram o condomínio pelo menos duas vezes. Em uma das ocasiões, teriam abordado o subsíndico, exigindo que toda a administração fosse composta por pessoas indicadas pelo Comando Vermelho.
A Polícia afirma que os investigados vinham sendo liderados por Stenio. O trio foi preso no último dia 16 de julho.
A reportagem não localizou as defesas dos acusados. Este espaço segue aberto para possíveis manifestações futuras.
LIDERANÇA DO CV
Além de Stenio, Carlos e Rafael, há suspeita de que outros quatro membros da facção carioca estejam envolvidos nas ameaças. Dentre eles, João Vitor dos Santos, o ‘Adidas’, apontado como namorado de Francisca Valeska Pereira Monteiro, conhecida como ‘Majestade’ e líder de uma célula do CV no Ceará.
João Vitor também ocupa posição de liderança de alto escalão dentro da estrutura da organização criminosa Comando Vermelho, atuando de forma direta na coordenação de ações interestaduais, notadamente no Estado do Ceará.
“Embora esteja foragido no estado do Rio de Janeiro, ele é diretamente responsável pelo fornecimento interestadual de tráfico de drogas, fornecimento de armas, financiamento de atividades ilícitas, bem como pelo planejamento da realização dos ataques armados a facções rivais”.
Em março deste ano, o então síndico do condomínio recebeu uma ligação de um homem que se identificou como ‘Adidas’. Ao telefone, a pessoa disse ser do alto escalão do Comando Vermelho e “perguntou como era a internet do condomínio e disse que teriam uma semana para que desfizessem os contratos, que iria um rapaz no local informar qual internet poderiam usar e que, caso não desfizessem, eles iriam cortar os fios dos provedores”.
Na época, o síndico disse que não podia obrigar ninguém, nenhum morador, a contratar a internet que a facção queria, mas que ele poderia propor o nome da empresa em uma assembleia.
INVASÕES
Não satisfeito com a resposta, o bando foi ao prédio e exigiu a entrada nas dependências. Os criminosos chegaram a ficar 20 minutos no local e bateram em diversas portas de moradores, perguntando o nome de quem morava ali.
Dois meses depois, retornaram ao local com as mesmas exigências.
“Eles queriam a lista com nomes de todos os moradores e quais provedores de internet eles usavam, pois iriam nomear um preposto da organização criminosa para que acompanhasse as contratações de gás, água e internet dos moradores do condomínio”, segundo uma testemunha sigilosa.
PARTICIPAÇÕES
No último mês de julho, o Diário do Nordeste noticiou que dois suspeitos já tinham passagens pela Polícia por ameaçar e extorquir os moradores do condomínio, enquanto o terceiro integrava o núcleo operacional do CV (Stenio), tendo participado diretamente da expulsão de prestadores de serviço não autorizados pela facção.
Para o MP, “a prática reiterada de expulsão de moradores de suas próprias residências revela elevado grau de periculosidade social da organização criminosa, na medida em que extrapola a mercancia ilícita de entorpecentes. Ao constranger famílias a abandonarem seus imóveis, muitas vezes sob ameaça de morte ou de represálias, os investigados violam não apenas o patrimônio e a liberdade individual das vítimas, mas também direitos fundamentais, como a dignidade da pessoa humana, o direito à moradia e à segurança”.
Fonte: Diário do Nordeste

