“Uma capital gastronômica não se define apenas pelos seus restaurantes. É um lugar onde a comida faz parte da cultura, da economia e da vida das pessoas. É onde convivem mercados, padarias, bares, restaurantes familiares, grandes casas de alta gastronomia e toda uma cadeia de produtores e profissionais. A comida ajuda a contar a história daquele lugar”, afirma Rosa Moraes, embaixadora de Gastronomia e Hospitalidade da Ânima Educação e presidente do Brasil para o The World’s 50 Best Restaurants e Latin America’s 50 Best Restaurants.
E, sinceramente, quanto mais eu viajo, mais eu tenho uma certeza: não só a nossa cidade é contada a partir da mesa, como, na capital paulista, a história do mundo é contada à mesa. Poucos lugares, e aqui arrisco dizer nenhum dos que já conheci, têm uma diversidade gastronômica tão rica quanto a nossa.
Brinco que São Paulo é o lugar onde se pode “comer o mundo”. Da carbonara impecável, igual à que se encontra em Roma, ao omakase que se compara aos melhores que já provei no próprio Japão; e dos imigrantes que compartilham seus temperos árabes, turcos, venezuelanos, mexicanos, chineses, tailandeses, judaicos e tantos outros. Aqui, o mundo se encontra à mesa. Mas esse caldeirão tem muito mais sabores para misturar.
Como cinco amigos criaram um dos maiores grupos de hospitalidade do Brasil
“Todos os estados do Brasil estão representados de alguma forma dentro de São Paulo. Aqui você consegue ter não só os ingredientes, mas também a cultura de todo o país muito presente. Tudo chega no Mercado Central, no da Lapa, nas próprias feiras de rua, isso já está muito enraizado aqui (…). São Paulo é uma cidade sem fronteiras, onde todos são acolhidos”, resume Janaína Torres, eleita Melhor Chef Mulher da América Latina em 2023 e Melhor Chef Mulher do Mundo em 2024 pelo The World’s 50 Best Restaurants e à frente do Bar da Dona Onça e do projeto À Brasileira.
Essa diversidade não é apenas uma impressão. Ela pode ser medida. São Paulo tem hoje 30,5 mil estabelecimentos gastronômicos formais, segundo dados da Prefeitura, e o setor empregava mais de 349 mil pessoas na capital em 2024. São números que impressionam, mas que, sozinhos, não fariam de São Paulo uma capital gastronômica. O que importa é o que existe dentro deles: restaurantes de alta gastronomia, casas de bairro, bares, padarias, lanchonetes, mercados, cozinhas familiares, produtores e uma enorme cadeia de profissionais.
Outros dados ajudam a explicar a cidade: 81 tipos de culinária estão representados nos estabelecimentos paulistanos, entre cozinhas de diferentes estados brasileiros e de outros países. Mais de 400 mil imigrantes de mais de 150 nacionalidades vivem em São Paulo, segundo dados citados pela Prefeitura a partir da Organização Internacional para as Migrações. São pessoas que, além de suas histórias, trouxeram ingredientes, técnicas, hábitos, receitas e novas maneiras de comer.
“O mais interessante é que essas cozinhas nunca ficaram congeladas. Elas dialogaram com os ingredientes brasileiros, influenciaram umas às outras e criaram uma gastronomia que só poderia existir em São Paulo”, explica Rosa. Esse é um dos pontos centrais da gastronomia paulistana. São Paulo não se limitou a absorver essas influências, mas as misturou, reinventou e transformou em algo próprio.
É uma cidade onde o virado à paulista pode dividir espaço com ramen, acarajé, quibe, ceviche, massa fresca, pastel e pizza. E onde um restaurante de alta gastronomia pode trabalhar, na mesma semana, com referências indígenas, italianas, japonesas, nordestinas e mineiras.
Constelação gastronômica
Há ainda uma segunda camada nessa história. São Paulo é uma cidade onde se come de tudo, mas que vai além, já que produz excelência em praticamente todos esses universos. Temos uma concentração rara de talento. É aqui que entram os números que, para mim, fecham a conta.
Em abril de 2026, Evvai e Tuju se tornaram os primeiros restaurantes do Brasil e de toda a América Latina a receber três estrelas Michelin, a classificação máxima do guia francês. São Paulo ainda é lar do icônico D.O.M., de Alex Atala, com duas estrelas, além de 13 restaurantes com uma estrela Michelin na edição de 2026. A seleção também reúne 36 casas Bib Gourmand, reconhecimento dado pelo guia a restaurantes que oferecem boa relação entre qualidade e preço. Ou seja, em uma mesma cidade estão duas das únicas casas com três estrelas de toda a América Latina, assim como um restaurante com duas estrelas e uma quantidade expressiva de outros estabelecimentos reconhecidos pelo respeitado guia. Mas nem o Michelin sozinho explica a dimensão dessa cena.
No Latin America’s 50 Best Restaurants 2025, São Paulo colocou o Tuju em 8º lugar, o Nelita em 12º, o Evvai em 20º e A Casa do Porco em 25º entre os melhores restaurantes da América Latina. A lista estendida traz ainda o D.O.M., em 74º; Maní, em 67º; Metzi, em 56º; Kotori, em 55º; e Cepa, em 73º. É uma concentração difícil de ignorar!
Em São Paulo a vida acontece à mesa
Reduzir São Paulo aos restaurantes premiados seria justamente contrariar a definição de Rosa que abre esta matéria. A cidade é gastronômica também porque a vida é pautada pelas refeições. O café da manhã começa cedo nas padarias. A cidade acorda nos mercados e nas feiras, onde chegam produtos de Norte a Sul do país. O almoço organiza a agenda. O happy hour acontece no boteco. O jantar pode ser em uma cantina de bairro, em um restaurante japonês, em uma casa de alta gastronomia ou com o delivery das mais variadas gastronomias em casa.
Encontros acontecem em torno da mesa. Negócios são fechados durante o almoço. Amizades são celebradas no bar. Famílias se reúnem no domingo justamente para comer. A nossa praia é a mesa, onde tudo acontece. É exatamente o que Luiz Filipe Souza, à frente do estrelado Evvai, identifica quando fala sobre a relação do paulistano com a gastronomia. “As pessoas marcam encontros, fecham negócios, comemoram, descobrem novas culturas e experimentam o mundo através da comida. A gastronomia faz parte da vida da cidade.”
Esse é um dos pontos que mais me convencem quando penso em São Paulo como uma capital gastronômica. Aqui, comer bem e de forma diversificada não é um evento, mas parte da rotina.
Essa relação cotidiana encontra uma escala gigantesca no turismo. Em 2025, São Paulo recebeu 47,2 milhões de turistas, sendo 44,7 milhões de visitantes nacionais e 2,5 milhões de estrangeiros. Os números provaram ser um importante motor da economia, já que o turismo movimentou R$ 25,4 bilhões na cidade no ano passado. Somente no primeiro semestre de 2026, foram 25,4 milhões de turistas registrados, crescimento de 13,3% em relação ao mesmo período de 2025.
Não significa, evidentemente, que quase 50 milhões de pessoas tenham vindo à cidade em 2025 exclusivamente para comer. Mas a gastronomia é parte importante da experiência de quem visita São Paulo e uma das maneiras mais imediatas de conhecer sua cultura. “Uma capital gastronômica não é apenas aquela que tem bons restaurantes. É aquela capaz de transformar sua gastronomia em cultura, economia, turismo e identidade”, completa Rosa.
Temos exemplos de sobra. A região da Liberdade transformou a herança da imigração japonesa em um verdadeiro polo gastronômico e cultural, com ruas lotadas nos fins de semana, feirinhas, lojas de produtos importados e filas diante de casas de lámen. O Bom Retiro é destino favorito de influenciadores que “descobrem” portinhas que servem as mais diversas facetas das culinárias coreana e chinesa, com cardápios que sequer são traduzidos para o português. O Bixiga é um velho conhecido como reduto italiano de São Paulo, enquanto a Barra Funda, por mais tradicional que seja, despontou como o 3º bairro mais descolado do mundo em 2025, segundo a Time Out. Pipocam por ali bares, restaurantes, galerias de arte e uma vida noturna, movimento que ressignificou um bairro marcado pelo passado industrial.
Ou seja: São Paulo já tem matéria-prima para reforçar a gastronomia como cultura e revertê-la para o benefício da economia. Segundo os entrevistados, o desafio é contar melhor essa história. E o que ainda falta para o mundo perceber isso?
“São Paulo é reconhecida como uma das grandes capitais da gastronomia do mundo, mas só por quem já a conhece. Ela não é divulgada, não tem incentivo e investimentos que contemplem esse reconhecimento por mais pessoas”, afirma Janaína. Luiz Filipe concorda, ainda que por outro caminho. “Falamos muito sobre trânsito, violência, desigualdade, tamanho, caos, e, proporcionalmente, menos sobre nossa cultura, criatividade, hospitalidade, serviços e qualidade gastronômica.” Rosa também acredita que o reconhecimento internacional é consequência de uma construção que já vem de décadas. “São Paulo foi conquistando esse espaço naturalmente. Primeiro pelas diferentes ondas de imigração, que transformaram a mesa paulistana. Depois pela evolução dos restaurantes, pela formação de profissionais, pelo fortalecimento da crítica gastronômica e pelo interesse crescente do próprio paulistano em comer bem.”
A grande questão é que São Paulo não precisa mais provar que pode ser uma capital gastronômica. É reconhecer que ela já é.
Os números estão aí. As estrelas Michelin, os rankings internacionais e os chefs premiados também. Estão nos restaurantes lotados, nos mercados, nas feiras, nos bares, nas padarias, nas cozinhas de imigrantes, nos produtores e nas milhões de pessoas que, todos os dias, fazem suas refeições fora de casa.
Agora, falta ao mundo conhecer e reconhecer a dimensão do que acontece aqui. Já sabemos que a capital paulista tem uma gastronomia diversa, vibrante e premiada. O próximo passo é transformar essa força em posicionamento e estabelecer São Paulo como uma das cidades com uma das cenas gastronômicas mais completas e relevantes de todo o mundo.
Fonte:CNN Brasil

