Em tempos de IA, quem escolhe o que você compra?
Uma cadeirinha de bebê estreita o bastante para caberem três no banco de trás de um sedã. Um protetor solar que não deixa resíduo branco na pele nem carrega os compostos que atacam corais. Esses dois produtos foram citados pela Shopify a analistas no início de agosto, como amostra do que anda sendo vendido por indicação de assistentes de inteligência artificial.
Ninguém chega a nenhum dos dois produtos digitando palavras no Google. Isso tem motivo: quem faz esses desconhece o nome comercial da solução.
A busca por palavra-chave sempre exigiu que o comprador soubesse de antemão como a indústria batizou aquilo de que precisa. Quem não sabia, navegava até topar com o termo certo. Com a inteligência artificial, essa exigência não existe mais.
Chatbots avaliam complexidade das tarefas solicitadas
O efeito aparece na contabilidade da plataforma: três quartos das compras atribuídas a assistentes de IA vieram de fora das cem categorias mais vendidas. O tráfego e os pedidos enviados por essas ferramentas às lojas triplicaram em um ano. Como resultado, as ações da Shopify subiram 17% no dia do balanço.
A empresa não abriu a base de comparação, o que impede medir o tamanho absoluto do fenômeno.
Antes, comparar era trabalho de quem comprava. Analisar dez abas abertas, preço, frete, prazo de entrega. Agora, o assistente faz essa varredura antes de você ver qualquer coisa, cruzando o pedido com o que foi dito na conversa e com os catálogos que as lojas entregam em formato próprio para software. O resultado são três opções. Os itens descartados, que não aparecem no resultado final, não aparecem em lugar nenhum, sem que nem o consumidor nem o lojista saibam por que caíram.
Essa opacidade, na minha visão, é a questão sensível aqui.
IA mudou comportamento de consumidor – e tem consequências
Metade das visitas que chegam por inteligência artificial à Shopify entra direto na página do produto, sem passar pela ‘vitrine’.
Vale reparar no que se perde nessa economia de tempo. A comparação era chata, mas educava. Ao circular entre dez ofertas, a pessoa aprendia a faixa de preço
do que queria, descobria marcas que desconhecia, formava algum critério próprio sobre o que importa naquela categoria.
Esse conhecimento residual, adquirido sem intenção, é o que sustentava a desconfiança do consumidor diante de uma oferta ruim. Quem recebe três nomes prontos economiza a tarefa inteira, inclusive a parte que valia a pena.
Uma etapa dessas vale dinheiro. A primeira tentativa de cobrá-lo revelou o interesse escondido: a OpenAI instalou um botão de compra dentro do ChatGPT e passou a cobrar do lojista uma taxa sobre cada venda concluída. No mesmo documento em que garantia que a taxa não influenciava as recomendações, a empresa informava que ter o pagamento integrado pesava na ordenação entre lojas com o mesmo produto.
O botão durou cinco meses. Os problemas se acumularam: poucas lojas aderiram, os dados de produto vinham errados, o Walmart relatou conversão de um terço da obtida no próprio site.
Mas o incentivo comercial sobreviveu à ferramenta da OpenAI. Quem recebe percentual de venda é remunerado pela decisão do usuário, enquanto alternativas demais atrapalham a decisão. Anúncio em buscador precisa vir rotulado por lei. Recomendação em linguagem natural não tem regra alguma sobre o que revelar.
Enquanto o anúncio demonstra interesses ocultos, a recomendação de um assistente chega com a promessa de quem não tem nada a ganhar.
Marketplace e assistentes vivem da mesma função: escolher pelo cliente. Amazon e Mercado Livre concentram oferta e vendem visibilidade na própria vitrine, o que pressupõe o consumidor circulando lá dentro. Já um assistente que varre catálogos alheios esvazia essa vitrine junto com a publicidade que a sustenta.
A reação vem por dois caminhos já em andamento: restringir o acesso dos robôs ao catálogo ou lançar assistentes próprios.
Nenhum resolve a questão de fundo, que é saber com quem o consumidor prefere conversar – com quem compara o mercado inteiro ou com quem só conhece o próprio estoque.
No Brasil, essa pergunta encontra terreno preparado. Adotar tecnologia requer hábito. O americano ainda precisa trocar o clique pela conversa, ao passo que, aqui, a conversa já é no balcão, especialmente o digital.
Isso porque milhões de negócios pequenos vendem por WhatsApp, onde a compra segue sempre o mesmo trajeto: o cliente descreve o que quer, o vendedor sugere, vem foto, preço, frete e pagamento, tudo em texto corrido. Trocar esse vendedor por um assistente não exige aprender formato novo. Exige confiar em outro interlocutor, o que me leva a apostar numa adesão às compras agênticas mais rápida do que a média internacional.
Como aparecer nas recomendações
O mesmo hábito que facilita a chegada dos assistentes torna o pequeno comerciante invisível para eles, já que histórico de conversa não é catálogo.
Convém tratar disso com alguma pressa, até porque existe gente vendendo caro a promessa de posição garantida na resposta da máquina, que ninguém pode dar. O sistema não navega pelo site como uma pessoa; ele consulta uma ficha do produto.
Quase toda plataforma de loja virtual já oferece pronta a integração que entrega essa ficha aos assistentes. Ativá-la não custa nada. Preço e estoque precisam estar atualizados em tempo real, porque indicar item esgotado desgasta a confiança do usuário na ferramenta, que passa a descartar quem tem dado velho.
A descrição do seu produto se tornou ainda mais importante. Assim, dedique um tempo a descrever para que serve, quantos cabem, com o que é compatível, para quem não serve e assim por diante. Avaliações de clientes pesam por serem o único elemento que a máquina não confere sozinha.
Já do ponto de vista mais técnico, o principal ponto a se ter em mente é que muitos sites bloqueiam por configuração padrão os robôs que as inteligências artificiais usam para ler a internet, de modo que existe lojista pagando anúncio de um lado enquanto barra na porta o canal que mais cresce do outro. Depois disso, o teste é gratuito. Pergunte aos assistentes o que recomendam no seu tipo de produto e veja se a sua loja aparece.
A recompensa é desproporcional para quem é pequeno, já que a conversa premia o produto exato em vez do orçamento de mídia. O limite é que a resposta traz três nomes e não tem continuação.
Nos próximos anos a disputa pública será entre marketplaces e assistentes pela conversa do consumidor brasileiro, com regulação atrasada como de costume. Para quem vende, a decisão já está posta, bem menos glamourosa: aparecer ou não no catálogo que a máquina lê antes de escolher.
Para quem compra, fica uma pergunta mais incômoda. Delegar a comparação parece ganho de tempo, mas o que se delega junto é a formação do próprio gosto. Talvez seja um preço aceitável em cadeirinha de bebê. Custa acreditar que seja aceitável em tudo.
Fonte:CNN Brasil

