Crise silenciosa do diesel: como isso impacta os investidores?
No mercado financeiro global, dois ativos costumam ser apresentados ao investidor como proteção natural contra a inflação: ouro, reserva de valor milenar, e bitcoin, apelidado por muitos de “ouro digital”.
A lógica por trás dessa narrativa é simples: quando os preços sobem e o poder de compra das moedas tradicionais se deteriora, esses ativos escassos deveriam se valorizar, preservando o patrimônio do investidor.
Contudo, o que estamos vendo nas últimas semanas desafia justamente essa narrativa, em um momento em que a inflação energética global ganha um novo capítulo preocupante.
O gatilho desta vez vem de um mercado que raramente ocupa manchetes, mas que move literalmente a economia global todos os dias: o diesel.
Nesta semana, o preço médio nacional do galão de diesel nos Estados Unidos atingiu o recorde histórico de US$ 6,29, alta de quase 80% desde o início do ano.
Ao analisarmos o gráfico de longo prazo desse preço, fica evidente que o patamar atual supera com folga até mesmo o pico observado em 2022, durante o início da guerra na Ucrânia, quando o mercado de energia já havia sofrido forte disrupção.
Você leu corretamente: o diesel está mais caro hoje nos Estados Unidos do que em qualquer outro momento da história recente.
Mas afinal, o que explica essa disparada? A resposta passa por uma combinação rara e preocupante de choques simultâneos de oferta.
Em recente evento do setor de petróleo e gás no Rio de Janeiro, o Rio Oil & Gas, o executivo-chefe da gigante francesa TotalEnergies, Patrick Pouyanné, resumiu a gravidade da situação.
Segundo ele, dois conflitos distintos estão se somando ao mesmo tempo: de um lado, a guerra no Oriente Médio continua atrapalhando o tráfego de petróleo e derivados pelo Estreito de Ormuz, rota estratégica por onde passa parcela relevante do petróleo mundial.
De outro, os constantes ataques da Ucrânia contra refinarias russas levaram a Rússia a suspender suas próprias exportações de diesel. Segundo Pouyanné, “juntando estas duas crises, há mais de 6 bilhões de barris de produtos refinados que não estão acessíveis” ao mercado global.
A China também decidiu suspender suas exportações de gasolina e diesel após a escalada do conflito envolvendo o Irã, aprofundando ainda mais a escassez de combustíveis refinados disponíveis mundialmente. Segundo o próprio executivo da TotalEnergies, os estoques globais de combustível já estão em níveis “muito baixos” e continuam sendo consumidos rapidamente.
Porém, o alerta mais preocupante é de que o risco deixou de ser apenas o de preços mais altos, e passou a ser o de uma escassez física real de diesel, especialmente com a aproximação do inverno no hemisfério norte, período em que o consumo de combustíveis tradicionalmente aumenta.
A esse respeito, é importante o investidor brasileiro entender por que esse choque específico de diesel é tão relevante para os mercados financeiros globais, incluindo o bitcoin e as criptomoedas.
O diesel move praticamente toda a cadeia logística mundial: caminhões, trens, navios e boa parte da produção industrial dependem diretamente desse combustível.
Segundo análise do banco JPMorgan, “preços mais altos de diesel podem se refletir na inflação primeiro através dos custos das empresas, e potencialmente afetar os preços ao consumidor ao longo do tempo”.
Em outras palavras, esse choque de energia tende a se espalhar lentamente por toda a economia, pressionando a inflação de forma persistente nos próximos meses. Enquanto a gasolina puxa a inflação para cima no curto prazo, o diesel age silenciosamente no longo prazo, sendo mais perigoso e menos visível.
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Diante desse cenário, chegamos ao ponto mais importante para quem acompanha o mercado de bitcoin e criptomoedas. No momento em que a inflação energética mais ameaça voltar a acelerar, os dois ativos historicamente vendidos como proteção contra esse tipo de risco estão patinando.
O bitcoin acumula queda de aproximadamente 12% no ano, negociando perto de US$ 85 mil, enquanto o ouro segue praticamente estagnado, tendo recuado da sua máxima histórica de US$ 5.600 registrada no início do ano.
Ou seja, no momento exato em que a narrativa de “proteção contra inflação” deveria brilhar, ambos os ativos mostram fragilidade.
Contudo, importante fazer uma ressalva sobre essa aparente contradição. O que estamos vendo é um resultado de um conflito de curto prazo entre dois fatores opostos: de um lado, a inflação energética que teoricamente favoreceria esses ativos.
De outro, o ciclo de aperto monetário que o Fed (Federal Reserve) vem conduzindo justamente para combater essa mesma inflação, encarecendo o custo do capital e reduzindo o apetite por ativos de risco de forma geral.
Quando juros sobem, mesmo ativos considerados proteção contra inflação sofrem no curto prazo, pois competem diretamente com a renda fixa, que paga cada vez mais.
Dessa forma, o choque de diesel que estamos vendo recentemente revela a complexidade real do momento macroeconômico atual.
Não se trata apenas de um problema pontual de preços de combustível, mas de um risco crescente de desabastecimento físico que pode alimentar a inflação global por mais tempo do que o mercado gostaria.
Para o investidor de bitcoin, esse cenário reforça que, no curto prazo, a correlação entre juros altos e ativos de risco tende a prevalecer sobre a narrativa de proteção contra a inflação, mesmo que essa última continue válida no horizonte de mais longo prazo.
Fonte:CNN Brasil

