Aprendizagem na Educação Especial melhora, mas desigualdade em relação aos demais alunos cresce no CE

Os índices de aprendizagem dos estudantes da Educação Especial das redes públicas do Ceará apresentaram avanços, de acordo com as notas do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) de 2013 a 2023 – principal meio utilizado para medir a qualidade do ensino no Brasil.

No entanto, esse progresso foi ainda mais expressivo entre os estudantes que não têm nenhuma deficiência declarada. O contraste entre os dois grupos cresceu nesse período, revelando que as desigualdades no ensino persistem mesmo em cenário de melhoria.

Os dados são da pesquisa “Educação Especial no Saeb – Indicadores de Participação e Desempenho”, realizada pelo Instituto Rodrigo Mendes (IRM), em parceria com a Fundação Lemann e com o Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional (Iede).

Segundo o levantamento, 19,1% dos alunos do 5º ano do Ensino Fundamental da Educação Especial tiveram aprendizagem adequada em Língua Portuguesa em 2013. Em 2023, 40,6% atingiram esse patamar. Isso representa uma melhora de 21,5 pontos percentuais (p.p.).

Porém, 39,8% dos demais estudantes – aqueles sem nenhuma deficiência declarada – já tinham essa proficiência adequada em 2013. A porcentagem aumentou para 66,9% em 2023. Ou seja, cresceu 27,1 p.p.

O resultado mostra que os avanços na aprendizagem não ocorreram na mesma intensidade para todos os estudantes. A proporção de alunos sem deficiências com aprendizagem adequada já era superior à dos estudantes da educação especial em 2013. Em 2023, a diferença aumentou.

O mesmo cenário foi registrado em Língua Portuguesa e Matemática também no 9º ano do Ensino Fundamental e no 3º ano do Ensino Médio. O dado vai na contramão das médias do Brasil, que mostraram uma redução das desigualdades entre os grupos.

“Quando a gente pensa na aprendizagem, não adianta olhar só as médias gerais. A gente precisa olhar para esses grupos específicos. Às vezes, a gente está melhorando a educação, mas está deixando um grupo para trás. E, nesse caso, é muito nítido que a educação especial ainda é um gargalo no estado do Ceará”, afirma a coordenadora da pesquisa, Maria Laura Gomes.

DADOS ACENDEM ALERTA SOBRE QUALIDADE DA EDUCAÇÃO ESPECIAL
Cruzando as bases de microdados do Saeb e do Censo Escolar, o estudo revelou índices inéditos sobre a qualidade da educação dos estudantes com deficiência. O recorte não é divulgado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).

Maria Laura explica que os dados disponíveis só permitiam saber quantos estudantes com deficiência estavam na escola. Não era possível inferir a qualidade da educação ou da aprendizagem desse grupo. Até mesmo a taxa de participação dos alunos da educação especial no Saeb era desconhecida.

Com o levantamento, foi possível verificar que o Ceará avançou na participação dos estudantes da Educação Especial no Saeb no Ensino Fundamental. Já no Ensino Médio, a participação diminuiu 8,9 p.p.

Para a pesquisadora, o estudo mostrou ainda outro resultado negativo inesperado: a desigualdade entre os estudantes da educação especial e os demais é ainda maior do que as outras desigualdades educacionais relacionadas à raça e ao nível socioeconômico.

“É importante entender que os estudantes com deficiência precisam estar na escola, mas sobretudo precisam aprender e ter o direito de participar das avaliações nacionais”, diz Maria Laura.

O QUE DEFINE UMA APRENDIZAGEM ADEQUADA?
Para calcular a porcentagem de alunos com aprendizagem adequada, a pesquisa utilizou a mesma nota de corte do Saeb adotada pela União para complementar o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb) na modalidade Valor Aluno Ano Resultado (VAAR).

Alunos com pontuação no Saeb igual ou acima dessas notas tiveram a aprendizagem considerada adequada para o período escolar:

5º ano do Ensino Fundamental
Nota de corte Língua Portuguesa: 200
Nota de corte Matemática: 225

9º ano do Ensino Fundamental
Nota de corte Língua Portuguesa: 275
Nota de corte Matemática: 300

3º ano do Ensino Médio
Nota de corte Língua Portuguesa: 300
Nota de corte Matemática: 350

Conforme a escala do Saeb, estudantes que atingem essas notas demonstram que têm esses conhecimentos e habilidades básicas:

No 5º ano do Ensino Fundamental, os alunos devem ser capazes de compreender informações explícitas em textos, identificar temas e personagens e reconhecer relações simples entre ideias. Em Matemática, espera-se que resolvam problemas do cotidiano envolvendo dinheiro, medidas de tempo e formas geométricas.

Já no 9º ano, os estudantes devem avançar na interpretação e comparação de textos, identificando ideias principais, opiniões, argumentos e efeitos de humor e ironia. Em Matemática, devem resolver problemas envolvendo porcentagem, proporcionalidade, equações, coordenadas e conceitos de geometria.

No 3º ano do Ensino Médio, espera-se maior capacidade de análise e interpretação crítica, com identificação de teses e argumentos, comparação de diferentes pontos de vista e compreensão dos efeitos de sentido da linguagem.

Em Matemática, os alunos devem resolver problemas mais complexos envolvendo funções, porcentagem, geometria espacial, escalas e Teorema de Pitágoras.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fonte:Diário do Nordeste