‘Beira Lixo’: conheça a história da quadrilha junina criada por time de vôlei que jogava em terreno baldio em Camocim

Em 1990, time queria arrecadar dinheiro para uniformes e só poderia ter barraca em festival junino se tivesse uma quadrilha. Grupo segue dançando até hoje e acumula prêmios na região.

Era fim da década de 1980. Um grupo de amigos queria um lugar para jogar vôlei e resolveu capinar um terreno baldio no centro de Camocim, cidade do litoral oeste do Ceará. Como os moradores das ruas Independência e Humaitá jogavam sacolas de lixo na quadra improvisada, os integrantes acabaram escolhendo um nome peculiar para o time: Beira Lixo.

A equipe masculina foi se consolidando e ganhando partidas na região. O time chegou a ter o nome de Beira Clube, mas seguiu sendo conhecido como Beira Lixo.

Em 1990, os jogadores precisavam de dinheiro para fazer uniformes. Uma ideia foi montar uma barraca no festival de quadrilhas juninas da cidade. Só depois eles descobriram que era preciso ter uma quadrilha para vender produtos no festival.

Foi aí que o time criou a quadrilha Beira Lixo, que estreou no festival de Camocim já conquistando o segundo lugar.

Quem conta a história é Rogério Araújo, conhecido na cidade como Rogério Boi Velho. Ele também jogava vôlei, mas não era do time do Beira Lixo. Entrou para o grupo quando soube da quadrilha de São João. O grupo junino foi uma ideia de Joaquim Fernandes, que hoje é tenente da Marinha.

“Tinha pessoas que gostavam de dançar. A gente sempre tinha dançado nas quadrilhas de colégio, mas nunca tinha ido para um festival. E como na cidade pequena quase não tinha movimento nem nada, foi uma festa para a gente poder fazer uma quadrilha. A gente se encontrava todos os finais de semana para ensaiar”, relembra.

Os 20 pares que dançaram no primeiro ano de quadrilha foram reunidos entre moradores das ruas próximas ao terreno do Beira Lixo, no centro da cidade.

No começo, o grupo dançava como uma quadrilha matuta: dentes pintados de preto, passos e comandos tradicionais de dança, homens vestindo calça jeans e camisa quadriculada, mulheres com vestidos estampados.

Os membros guardam a imagem de jornal que trouxe notícias sobre o time de vôlei no início da década de 1990 — Foto: Arquivo Pessoal

Os membros guardam a imagem de jornal que trouxe notícias sobre o time de vôlei no início da década de 1990 — Foto: Arquivo Pessoal

“Começou bem caipira. Aí dava certo, não se gastava tanto como se gasta hoje, com uma indumentária toda padronizada. Na época, não tinha nem tema para trabalhar”, conta Rogério.

Hoje com 56 anos, Rogério Boi Velho é professor de matemática na rede estadual de ensino. É também quadrilheiro de coração. Dedicou os últimos 33 anos ao grupo Beira Lixo. Foi brincante primeiro, coordenador do grupo dois anos depois.

Aprendendo a transformar o São João em espetáculo

Nos primeiros anos, o grupo Beira Lixo utilizava figurinos simples de uma quadrilha matuta — Foto: Quadrilha Beira Lixo/Divulgação

Nos primeiros anos, o grupo Beira Lixo utilizava figurinos simples de uma quadrilha matuta — Foto: Quadrilha Beira Lixo/Divulgação

Em Camocim, o encerramento dos festivais de quadrilha costumava ter a apresentação de grupos de Fortaleza. Os brincantes do Beira Lixo olhavam para as quadrilhas da capital como uma inspiração.

Ir a festivais de outras cidades também permitia essa troca de experiências. Ainda nos primeiros anos de atividade, chegou o convite para competir no festival de Quixadá, no sertão central do Ceará.

“Devido ao nome, nós éramos convidados. O pessoal tinha muita curiosidade para saber o que era esse Beira Lixo”, conta Rogério.

Enquanto se mantinha competitivo nos festivais da região, o Beira Lixo começava a olhar para o modelo das quadrilhas estilizadas. Havia outros grupos que já trabalhavam temas, músicas autorais e elementos de cena que incrementavam as apresentações tradicionais.

A admiração pelas novas tendências cresceu quando o time de vôlei acolheu um jogador de Fortaleza que também era quadrilheiro e conhecia a rotina de um grupo estilizado.

Outra influência foi da dançarina Melina Tomasini, que foi brincante do Beira Lixo e criou um dos primeiros portais online para divulgação da cultura junina no Ceará. Quem relembra é Marina Sampaio, historiadora e filha do Rogério Boi Velho.

“No período em que ela (Melina) dançava, ela residia em Fortaleza. Então ela sempre trazia vídeos, eram fitas VHS com as apresentações das quadrilhas. Foi uma parte muito importante para o crescimento do grupo”, relata Marina.

Foi com estas referências que o Beira Lixo entrou nas quadras com figurinos mais luxuosos e sem nenhuma estampa, testando novos modelos em 1998. Neste ano, a quadrilha ficou em quarto lugar no festival interestadual de Icapuí, cidade do litoral leste do Ceará. O resultado incentivou a busca por mais ousadia nos figurinos e nas coreografias.

Das artes plásticas ao Lago dos Cisnes

Na década de 1990, o grupo junino se inspirou nas quadrilhas estilizadas que viam nos festivais ou em fitas VHS — Foto: Quadrilha Beira Lixo/Divulgação

Na década de 1990, o grupo junino se inspirou nas quadrilhas estilizadas que viam nos festivais ou em fitas VHS — Foto: Quadrilha Beira Lixo/Divulgação

“E se Carmen Miranda viesse ao arraiá?” Este tema de 2006 exemplifica as ideias que passavam pela cabeça de Rogério Boi Velho já em agosto, logo após o período anterior de competições, que costumam se estender até julho.

Com uma ideia escolhida, era hora de pesquisar e pensar nos figurinos e materiais que ajudariam a representar o tema nas quadras.

A quadrilha começou a trazer apresentações temáticas em 1999. Uma primeira fase trouxe enredos de protesto, falando sobre a história de Camocim e injustiças sofridas pelo povo nordestino.

A partir de 2004, o Beira Lixo começou a propor um passeio pelas diversas linguagens artísticas. O cinema foi o primeiro tema desta nova fase. No ano seguinte, a arte do desenho e das pinturas entrou em foco. E o mundo da literatura foi a escolha para 2007.

“Muitas vezes, o grupo abordou temas que saem do senso comum. Isso é também um diferencial do grupo. É algo muito comentado aqui na região, por alguns outros grupos que falam da ousadia que a quadrilha tem de trazer estes temas”, comenta Marina Sampaio.

Dentre outros temas que se destacam, estão “A Inveja do Assum Preto da Asa Branca”, inspirado no balé Lago dos Cisnes, e uma homenagem à cultura francesa com “Na mula que ruge com muita emoção, eu vou dançar cancan no São João”.

Em 2019, a quadrilha contou a história de vida do Padre Cícero Romão, falando sobre a devoção dos romeiros e o processo de aceitação do santo do povo cearense.

Boi Caprichoso em 2023

Em 2023, elementos da floresta e das tradições do Norte do país ajudam a contar a história do boi Caprichoso — Foto: Quadrilha Beira Lixo/Divulgação

Em 2023, elementos da floresta e das tradições do Norte do país ajudam a contar a história do boi Caprichoso — Foto: Quadrilha Beira Lixo/Divulgação

O Beira Lixo fez seu evento de estreia da nova temporada no último domingo (4). O tema de 2023 traz as origens do boi Caprichoso, que rivaliza com o Garantido nas festas folclóricas de junho no Amazonas. Os dois bois surgiram em cumprimento de promessas feitas a São João.

Trazer o azul do Caprichoso nas indumentárias não altera as tradições do Beira Lixo. É o azul já adotado ao longo dos anos para representar a quadrilha. A mesma cor das faixas laterais na bandeira de Camocim.

E contar a história do Caprichoso é falar do criador do boi, o cearense Roque Cid, que saiu da cidade do Crato para tentar uma vida melhor em Manaus e acabou criando uma festa tradicional e popular até hoje. No tema deste ano, ele é personificado pelo marcador do Beira Lixo.

Escolha dos temas

Para os últimos três temas, os membros do grupo puderam submeter as próprias propostas — Foto: Quadrilha Beira Lixo/Divulgação

Para os últimos três temas, os membros do grupo puderam submeter as próprias propostas — Foto: Quadrilha Beira Lixo/Divulgação

Montar a história e pensar no que cada destaque vai representar para o tema era tarefa individual de Rogério Boi Velho. Desde 2019, o processo mudou.

Geralmente no fim de setembro, brincantes e qualquer pessoa interessada podem apresentar uma proposta de tema para o ano seguinte, justificando os objetivos e prevendo os detalhes da narrativa. Quem analisa é um corpo de jurados apontado pela quadrilha.

“Eu escolhia o tema e achava muito autoritário. Eu mesmo criava, fazia tudo e não tinha participação, os ‘meninos’ ficavam meio de lado. Agora não, eles participam desde a criação do tema. É muito gratificante”, comenta Rogério.

Marina aponta que o método mais democrático tem aumentado o interesse dos brincantes. “A cada ano, mais membros do grupo têm se interessado em propor temas”, explica.

O time de vôlei acabou, a quadrilha continuou

A quadrilha coleciona títulos de campeã em competições regionais e etapas do Ceará Junino — Foto: Quadrilha Beira Lixo/Divulgação

A quadrilha coleciona títulos de campeã em competições regionais e etapas do Ceará Junino — Foto: Quadrilha Beira Lixo/Divulgação

No centro de Camocim, o terreno onde o Beira Lixo nasceu não é mais abandonado. O proprietário ergueu muros e passou a utilizar o local para fins comerciais.

O time de vôlei também não existe mais. Pelas memórias de Rogério Boi Velho, a equipe se desfez por volta do ano de 2005. Mas a quadrilha segue ativa colecionando títulos nos festivais regionais. E hoje alcança um público diferente dos anos iniciais.

“Antes era mais formado por pessoas que moravam perto do terreno. Hoje temos dançarinos de todos os locais da cidade e até mesmo pessoas de outros municípios já vieram para dançar. Já tivemos dançarinos de Acaraú, que é até um pouco longe”, relata Marina.

Como filha de Rogério, a historiadora cresceu participando das apresentações e festivais juninos. Ela começou a dançar aos 12 anos. Já ocupou o lugar de noiva e de rainha na quadrilha. Hoje, aos 27 anos, é tesoureira do grupo e continua dançando.

“É como se o Beira Lixo fosse um irmão mais velho, é uma presença em casa como se fosse um corpo físico. A gente (ela e o irmão) cresceu num ambiente em que a cultura foi valorizada, foi tida como importante e não foi colocada em segundo plano”, recorda Marina.

Nos 33 anos de história, foram mais de 20 títulos conquistados pela quadrilha em competições de Camocim e outras cidades cearenses, como Reriutaba, Palmácia, Forquilha e Acaraú.

Sem conseguir participar de todas os festivais que acontecem em Fortaleza, o grupo considera positiva a realização de etapas regionais do Ceará Junino, que faz a competição entre quadrilhas de todo o estado.

Em 2012, 2013 e 2015, o Beira Lixo venceu as etapas regionais do Ceará Junino como representante do extremo oeste.

Atualmente, a quadrilha viaja com dois ônibus para levar materiais e cerca de 100 pessoas envolvidas nas produções, entre dançarinos, músicos e equipe de apoio.

A quadrilha tem uma torcida forte formada por familiares, amigos e ex-brincantes quando se apresenta em Camocim. A comunidade também abraça o grupo nos preparativos de cada temporada. Antes que tudo fique pronto, a arrecadação de dinheiro é feita com bingos e rifas.

Para Rogério Boi Velho, o grupo Beira Lixo é também é visto como parte da família.

“São duas coisas que eu amo na vida mesmo: dar aula de matemática e fazer quadrilha junina. E eu uso a matemática para fazer as minhas coreografias, eu uso a geometria plana. Nos anos em que não fiz a quadrilha, era como se tivesse faltando para completar a minha vida. Porque é um trabalho de criação muito gostoso, a mente vai trabalhando a partir de agosto, tudo é inspiração”, detalha.

Pai e filha se orgulham por ver o grupo servindo de inspiração para outras quadrilhas da região, mesmo que agora seja mais fácil acompanhar as transmissões ao vivo de apresentações em outros estados. Com novos espetáculos, a quadrilha renova o jeito de fazer São João no interior do Ceará a cada ano.

Fonte: G1 Ceará

Fonte: G1 Ceará

 

 

2 Comentários
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