Ceará tem alta de 96,6% em mortes violentas intencionais em 2020

É como se todos os passageiros de seis ônibus comuns lotados morressem em um acidente, todo mês, no Ceará. Todos. Essa é a média mensal de pessoas assassinadas no Estado, no primeiro semestre deste ano, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2020, divulgado ontem (19). Entre janeiro e junho, foram contabilizadas 2.340 mortes violentas intencionais (MVIs) em território cearense, quase o dobro (96,6%) do registrado em igual período de 2019, que teve 1.190 registros; e o 3º maior número do Brasil no período.

O número de MVIs é a soma das vítimas de homicídios dolosos (com intenção de matar), latrocínios (roubos seguidos de morte), lesões corporais seguidas de mortes e óbitos decorrentes de intervenções policiais. De acordo com o Anuário produzido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) o Ceará fica atrás apenas da Bahia (3.249) e do Rio de Janeiro (2.728) nas estatísticas de assassinatos, ultrapassando estados como São Paulo, por exemplo, que teve 2.204 ocorrências. O crescimento percentual entre 2019 e 2020, aliás, foi o maior do País.

Neste ano, o Estado contabilizou 2.203 homicídios dolosos, mais que o dobro (106%) de igual período de 2019, que teve 1.065 casos. A piora do cenário representa uma quebra na série histórica de mortes violentas intencionais, que vinha em queda. No ano passado, o Ceará registrou o menor número de MVIs desde 2011, com 2.396 casos – 50,3% a menos do que em 2018, que terminou com 4.788 assassinatos.

A principal causa do aumento dos índices de criminalidade no Ceará, em 2020, segundo a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS), foi o motim protagonizado por policiais militares, em fevereiro. “A paralisação ilegal foi determinante para a forte elevação dos números. Para se ter uma ideia, somente os 13 dias de motim registraram 312 homicídios, média de 26 por dia. A título de comparação, todo o mês de setembro de 2020 contabilizou 252”, pontua a Pasta.

Atuação policial

O diretor-presidente do FBSP, Renato Sérgio de Lima, descreve a escalada da violência letal no Ceará neste ano como “emblemática”, uma vez que envolve diretamente a Polícia. “A partir do momento em que teve greve e motim da PM do Ceará, houve uma reorganização das facções criminosas, provocando o esvaziamento de um esforço de dois anos”, observa.

“Os direitos dos policiais são legítimos, mas quando se dissociam do dia a dia das pessoas nas casas, nas ruas, a violência toma conta e se dissemina”, complementa.

 

Outra estatística relacionada às polícias Militar e Civil cearenses é o número de mortes decorrentes de intervenções policiais, dentro e fora de serviço: somente no primeiro semestre de 2020, foram 96 óbitos causados por agentes de segurança, 14,3% a mais do que as 84 registradas em igual período de 2019. Entre 2018 e 2019, contudo, as ocorrências estavam em queda: naquele ano completo, foram 221 mortes em ações policiais, contra 136 no ano passado.

Samira Bueno, diretora-executiva do FBSP, avalia que o cenário é resultado de ideais políticos: “As mortes decorrentes de intervenções policiais vêm crescendo. Atingimos recorde, e isso é resultado de decisões político-institucionais. O número é obsceno, mas é também localizado em alguns territórios. Os que registraram maiores crescimentos são os estados que fizeram escolhas no sentido de acirrar conflitos e destinar a Polícia para enfrentamento”.

Esses conflitos também vitimaram os próprios agentes de segurança. Em 2018, 11 policiais morreram em confrontos ou por lesões fora do horário de serviço. Em 2019, não foi registrada nenhuma morte violenta intencional contra PMs ou policiais civis do Ceará. Já no primeiro semestre de 2020, foram dez casos, segundo levantamento do Fórum Brasileiro.

 

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