Empresas americanas estariam negociando acesso a IA da China
A Moonshot, startup chinesa de inteligência artificial, estaria negociando acordos de compartilhamento de receita com as big techs estadunidenses Microsoft, Amazon e Google, segundo três pessoas familiarizadas com a negociação que falaram à agência Reuters. Na prática, isso permite que as empresas americanas hospedem o modelo Kimi K3 em suas respectivas divisões de nuvem.
O Kimi K3 se destacou na época do lançamento, em meados de julho. De acordo com a Moonshot, o modelo é o maior sistema de IA aberto do mundo e oferece desempenho próximo ao do modelo de ponta Fable, da Anthropic.
O lançamento, inclusive, ocorreu um mês após o Fable e o Mythos, também da Anthropic, terem sido abruptamente suspensos pelo governo dos Estados Unidos devido a preocupações de segurança.
Startup chinesa Moonshot revela maior modelo de IA aberto do mundo
Segundo as fontes, as discussões ainda estão em estágio inicial, sem garantia de que as partes chegarão a um acordo. Algumas das questões não resolvidas entre a Moonshot e as big techs são sobre a divisão de receitas, o acesso aos dados e a auditoria do uso de tokens.
Se confirmada, a parceria representaria o primeiro grande pacto de partilha de receita entre uma empresa chinesa de IA e uma empresa de computação em nuvem dos EUA.
Moonshot, Microsoft, Google e Amazon Web Services (AWS) se recusaram a comentar.
EUA já demonstraram preocupação com Kimi K3
Os Estados Unidos já ressaltaram preocupações com tecnologias chinesas.
No ano passado, o governo de Donald Trump proibiu a exportação de chips avançados da Nvidia para a China, citando preocupações de que Pequim poderia aproveitá-los para equipar suas forças armadas e desenvolver inteligência artificial. Posteriormente, o presidente norte-americano flexibilizou as vendas.
Os EUA também já expressaram receios específicos em relação a modelos de IA chineses, como os da DeepSeek. Em janeiro do ano passado, a gestão de Trump analisou possíveis riscos das ferramentas da DeepSeek para a segurança nacional norte-americana e chegou a cogitar o banimento em dispositivos ligados ao governo.
O país também queria incluir as IAs da empresa chinesa em uma lista de restrições comerciais, novamente citando preocupações à segurança nacional. Em junho deste ano, a proposta foi adiada.
No caso do Kimi K3, da Moonshot, o modelo foi comparado a IAs americanas da Anthropic e OpenAI, o que reacendeu a rivalidade entre EUA e China na corrida da inteligência artificial.
Os EUA reagiram. Políticos e várias grandes empresas americanas de IA, incluindo Anthropic e OpenAI, acusaram modelos chineses de realizar “destilação” ilícita de modelos americanos. Isso acontece quando uma companhia extrai dados de uma IA para alimentar outra, resultando em um treinamento mais rápido e mais barato.
Em fevereiro, a Anthropic já havia acusado a DeepSeek, a Moonshot e um terceiro laboratório chinês, a MiniMax, de realizar campanhas para “extrair ilegalmente as capacidades do Claude a fim de melhorar seus próprios modelos” utilizando a técnica de destilação.
Pequim classificou as acusações de “sem fundamento”.
Já no mês passado, o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, afirmou que também poderia adicionar a Moonshot à ‘lista negra’ comercial, acusando a startup de plagiar o Fable, da Anthropic, para treinar o Kimi K3 e de adquirir chips da Nvidia ilegalmente.
A Moonshot negou as acusações de que o desempenho do modelo foi alcançado por meio de otimização.
nesas seguem em alta
Mesmo assim, os modelos chineses seguem ganhando força nos EUA, principalmente pelos preços mais baixos do que seus concorrentes ocidentais.
A negociação com as big techs americanas reforça o interesse.
Segundo a Reuters, a Moonshot, que está prestes a realizar uma oferta pública inicial (IPO), busca uma participação de até 30% na receita gerada pelos serviços relacionados ao Kimi K3 nas divisões de nuvem Azure (da Microsoft), Amazon Web Services (da Amazon) e Google Cloud (do Google).
A startup firmou acordos semelhantes de compartilhamento de receita com plataformas de nuvem menores, disseram as fontes, sem fornecer detalhes.
As pessoas familiarizadas com as negociações afirmaram que a chinesa Alibaba também está buscando acordos de compartilhamento de receita com os principais usuários de seu novo modelo de IA aberto.
China aposta em IAs abertas
Enquanto desenvolvedoras dos EUA investem em IAs fechadas, a China aposta em modelos abertos, em que os dados de treinamento são disponibilizados de forma aberta, gratuitamente, para qualquer pessoa usar e modificar.
Para Álvaro Machado, neurocientista e especialista em inteligência artificial, a estratégia chinesa tem provocado uma mudança no mercado global de IA. Isso porque tecnologias que custaram cifras bilionárias para treinar e desenvolver passaram a ser distribuídas sem custo, pressionando as concorrentes americanas e alterando a lógica de competição entre as gigantes do setor.
Durante o quadro Prompt no Fechamento de Mercado, no CNN Money, Machado defendeu que a China não tem como objetivo vender o modelo em si, mas ampliar sua influência tecnológica. “O modelo, na estratégia deles, é bilhete de entrada, não produto final”, afirmou.
Fonte:CNN Brasil

